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A angústia do piloto no momento da partida

Os treinos, a grelha de partida e a largada, momentos em que nos sentimos como o guarda-redes antes de ver batido o pontapé de grande penalidade

Rui Cardoso

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Dada a diferença de andamento entre concorrentes, a organização das 24 Horas TT de Fronteira teve o bom senso de criar dois períodos de qualificação na sexta-feira à tarde: uma primeira hora para os “aviões” e mais duas ou três horas abertas a toda a gente. Uma precaução salutar quando se sabe que os concorrentes que ocuparão a primeira fila da grelha chegam a fazer médias de 100 km/h ou mais nos treinos, o que significa pontas ocasionais de quase o dobro.

É por isso que, no dia da corrida, uma vez dada a partida e completadas as primeiras duas voltas, ganhei, qual cão de Pavlov, o reflexo condicionado de começar a olhar para o retrovisor, à espera de ver aparecer a cabeça da corrida e de, tal como major Alvega quando perseguido pelos Messerschmitt, começar a ensaiar manobras evasivas…

Incertezas e estratégias

Os treinos cronometrados, feitos na véspera da corrida, servem, para além de definir as posições na grelha de partida, verificar que tal o carro se comporta e como está a pista. É tudo falível e empírico porque o estado do piso na sexta-feira à tarde parece o sonho de um optimista quando comparado com o que vamos encontrar em corrida no dia seguinte. E quando, no sábado subirmos a bordo para novo turno de condução, nunca sabemos em que estado o companheiro de equipa que nos antecedeu deixou os pneus e a mecânica…

Os treinos são uma das fases da corrida que, se fosse preciso, dissipariam quaisquer dúvidas sobre a diferença de meios entre equipas. As de topo andam horas seguidas a fundo como se não houvesse amanhã. Os outros fazem só duas ou três voltas, dadas de preferência pelo piloto mais certinho e com mais sensibilidade para barulhos ou alterações do comportamento do carro, porventura indiciadores de algum bruxedo oculto em riscos de se revelar durante a prova.

Costumo sempre dizer que nesta grelha só há dois lugares bons: na primeira fila, sem ninguém à frente, ou na última, com vista desafogada sobre a molhada e os toques entre adversários de faca nos dentes. Desta vez temos três filas de grelha ainda atrás do nosso Nissan Patrol GR com o nº 23 e agora pintado de um branco imaculado.

Como os gladiadores romanos

No sábado por volta do meio-dia, dada a volta de apresentação, forma-se a grelha, desligam-se os motores e, pelo menos lá atrás, reina a boa disposição entre adversários, de resto, todos do mesmo campeonato. Por ali andam velhas glórias do TT que já conheceram melhores dias: um ou outro UMM, Nissan Terrano ou Patrol, Suzuki Jimny, algumas pick-ups veteranas e um outro concorrente da frente que só ali está transitoriamente por os treinos lhe terem corrido mal. Ali estão também os automóveis de tracção às duas, encabeçados por essa magnífica Peugeot 504 que se transformou numa das mascotes da prova.

Ao toque dos dez minutos e motores em marcha cumprimentamo-nos, dizemos a última piadola, pomos o capacete e aquela espécie de canga bovina chamada “arnês Hans”, apertamos os cintos e preparamo-nos para o começo das hostilidades. Não sei se nos sentimos como os gladiadores no circo romano ou como os cristãos primitivos prestes a serem lançados às feras mas lá que o coração bate com força, posso dizer-vos que sim.

Bate-bate coração

Ao toque de “um minuto” dou por mim a fazer festas à alavanca das mudanças como se fosse a cabeça de um cão. E, ouvido novo toque, 30 segundos depois, respiro fundo, começo a embalar suavemente o motor e os seis cilindros do velho Patrol ronronam de satisfação, agora que as tubagens do turbo foram mudadas e devidamente apertadas. Carrego a fundo na embraiagem, engato a primeira e começo a antever tantas trajectórias imaginárias como planos de contingência.

Devaneios que se desfazem quando o semáforo verde acende e, no meio de uma fumarada monumental e de um rugido a condizer, a grelha começa a esticar e oscilar como um acordeão. Encosto-me a um dos lados, finto por milímetros um carro mesmo ao pé e, de repente, tudo pára a fundo como na Segunda Circular à hora de ponta. Para logo depois voltar a arrancar e a parar, enquanto a formação em filas de três, qual legião romana, se começa finalmente a desdobrar numa longa serpente de 80 e tal carros.

Para quem arranque de trás, tudo o que vier à rede é peixe no que respeita à classificação. Ganhar meia dúzia de lugares na largada representa um sucesso portentoso. Mas começar a primeira volta só com dois ou três adversários atrás também não envergonha. Afinal são 24 horas e sete ou oito dezenas de voltas a dar até domingo às duas da tarde seja, ou não, o primeiro milho para os pardais.

Para já vão ser duas horas ao volante até à primeira troca de piloto e disso mesmo vos falarei na próxima crónica.