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À luz do lampião

Nas 24 Horas TT a noite não é só o período que, em boa parte, decide a corrida. É, de longe, o mais divertido

Rui Cardoso

Paulo Maria

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Rui Cardoso

Costuma dizer-se que de noite todos os gatos são pardos mas na pista de Fronteira o negrume é tal que nem se conseguem ver os felinos, quanto mais o tom da respectiva pelagem.

É Inverno e começa a escurecer a partir das cinco e meia da tarde. Passada a quarta hora de prova (a largada foi às 14) conduz-se à luz do farol. E assim será até ao cantar do galo que é como quem diz lá para as seis e tal da manhã, senão às sete e qualquer coisa.

A nossa percepção da pista muda completamente. Por muito boas que sejam as luzes do carro, nem sempre se consegue distinguir um rego de uma sombra ou uma cratera sem fundo de um buraco menor. O instinto entra em acção e a nossa mente começa a gravar o mapa da pista. Inicia-se também a troca de mensagens entre o piloto e o seu ego. “Já nasceram pedras antes da segunda ribeira” ou “a seguir à passagem de nível alarga para a direita senão f**** o carro”.

A revolução led

A tecnologia do século XXI tornou a noite de Fronteira menos penosa graças à maior invenção desde a teoria da relatividade: as luzes led. Estas, não só alumiam espectacularmente o caminho (pelo menos em comparação com as lâmpadas clássicas), como o fazem pedindo muito menos corrente ao alternador, diminuindo portanto os riscos de sobrecarga do sistema eléctrico.

Mesmo assim, nada se compara àquele momento mágico das seis e meia da manhã, quando a passarada começa a cantar, as bruxas se montam na vassoura e recolhem à toca e os primeiros raios de sol nos começam finalmente a mostrar o serviço que estamos a fazer. Quem sobreviva à longa noite alentejana só por muito azar não terá os seus objectivos de corrida garantidos. Até por uma simples questão de contabilidade: mais de metade da prova acaba por ser feita totalmente às escuras ou com muito pouca luz natural.

É por isso que, se o regulamento o permitisse, este vosso amigo seria voluntário para guiar toda a noite. Não é preciso andar depressa, só é preciso não bater e não furar. Há momentos mágicos como o do fogo-de-artifício visto através do pára-brisas do carro à meia-noite. Também os há insólitos, quando chega aquela hora em que parece estarmos só nós a disputar a prova, sem aparecer ninguém para nos ultrapassar ou ser ultrapassado. Ou o inverso, quando, de repente aparece tanta gente na mesma volta que só conseguimos pensar “deve ser a hora de ponta”…

Perdidos no nevoeiro

Dependendo da meteorologia pode aparecer o pior inimigo dos pilotos: o nevoeiro. Este, tanto se pode limitar a umas zonas com brumas nas partes mais baixas do traçado, como nos dar a ilusão de, à saída de uma curva, alguém ter corrido uma cortina branca à frente do carro. Lembro-me de um ano em que as ribeiras traziam bastante água e que a última travessia do Rio Grande se fazia tal qual os barcos demandam a entrada duma barra: havia uma viatura da organização com os rotativos ligados em cada extremo e era preciso nunca perder o respectivo alinhamento.

De todos os episódios nocturnos de que me recordo o mais delirante ocorreu numa edição das 24 Horas em que fui de Suzuki Jimny. Na zona alta do circuito após a segunda passagem de nível havia tantos carros de espectadores dos dois lados da pista que confundi um deles com um concorrente e só percebi que não era quando o jipe começou a esgravatar num chafurdeiro monumental que, afinal, estava 20 m ao lado da pista. O que vale é que o carro era leve e tinha genica mas do susto não me livrei…

Os malefícios da lama

Este ano, ao contrário do habitual, houve bastante chuva. Esta durou desde as duas da tarde (hora da largada) até depois do sol-posto. Quando parou, a metamorfose da pista estava consumada. O terródromo tinha passado a lamódromo: uma profusão de regueiras, crateras e zonas muito escorregadias, pondo à prova os pilotos e as mecânicas.

Os banhos de lama poderão ser bons para a pele mas para as mecânicas, nem tanto. As pastilhas de travões degradam-se muito mais depressa, o radiador, o pára-brisas e os faróis ficam imundos e é preciso recorrer frequentemente às mangueiras de pressão para tentar conter os estragos.

A lama devorou-nos sucessivos jogos de pastilhas de travões e, pelos vistos, também se empanturrou de óleo, pois passámos a ter que ir á box acrescenta-lo de quatro em quatro voltas.

O problema mais grave que tivemos – avaria da bomba de água – resolveu-se graças à solidariedade da equipa 51 que tinha material compatível: utilizavam um Nissan Patrol GR como o nosso mas em bom…

Uma última palavra para os nossos vizinhos de box da equipa 29, o protótipo Opel Tigra do clã Santinho Mendes, que nos estragaram com mimos, desde preciosas ajudas na bricolage, até uma caixa de broas de mel trazidas de Abrantes pelo antigo campeão nacional de ralis. Quem quer bons vizinhos arranja-os…