Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

A terrível ponta final

Numa prova com 24 horas de duração, como em Fronteira, o azar pode bater à porta a qualquer momento. É angústia para o jantar até a bandeira de xadrez finalmente descer

Rui Cardoso

A chegada triunfal do Nissan Patrol GR da equipa nº 23 a bordo do qual recolhi elementos para estas crónicas

Paulo Maria/ACP

Partilhar

Quem assista à chegada das 24 Horas TT de Fronteira fica com uma ideia da dureza da prova e do esforço pedido ao material. Há carros que mostram de forma evidente os sinais de um ou mais capotanços e de alguns arranjos sumários nas boxes. Outros fazem barulhos nada saudáveis, seja de motor, seja das suspensões. E há quem chegue a passar a linha de chegada sem capô ou a deitar uma fumarada monumental.

É por isso que as últimas horas da prova são as de maior angústia.

Para quem está de turno, ao volante, é a constatação de que o carro já não trava como travava, se é que ainda trava alguma coisa. Há uma mudança que começa a arranhar. No bocado de asfalto após a recta da meta a frente vibra descompassadamente, sinal de que o amortecedor ou os pendurais da direcção entregaram a alma ao criador. E olha-se para o ponteiro da temperatura do motor como para uma ave de mau agoiro.

No fundo, é guiar estas últimas voltas como se o carro fosse de vidro, tratando-o como os príncipes dos contos de fadas tratam as suas Cinderelas, Brancas de Neve e afins, esperando que o carro não se transforme de um momento para outro numa abóbora…

Nas últimas horas da corrida os pilotos de topo começam a fazer as voltas no tempo em que os mais lentos as faziam. E os outros limitam-se a deslizar até à linha de chegada. Confirmou-se uma vez mais a vitória do clã luso-francês Andrade no Nissan AC Proto, seguido de Gilles Billaut e outros num buggy Fouquet e do míni da X-Raid, no fundo as equipas que quase desde o início lutaram pelos lugares cimeiros.

Destaque para a segunda melhor equipa integralmente portuguesa, os nossos vizinhos de box, a família Santinho Mendes que com o seu Opel Tigra proto apontam à 9ª posição da geral. A melhor equipa lusa foi a nº 6 de Amândio Alves que tripulava um MMP Rali (buggy) e terá ficado em 6º lugar.

Pela nossa parte e depois de uma série de azares que incluíram uma bomba de água gripada e uma volta feita em cima da jante depois de um encontro imediato com o Mini ao fundo da recta da meta, ficámos limitados a lutar unicamente para chegar ao fim. O que, pesar de tudo, já é alguma coisa numa prova tão dura como esta. E assim, optámos por rodar com pneus de lama à antiga que tornam o carro duro que nem chifre bovino, lhe tiram o pouco andamento que tem mas dão confiança total nos locais enlameados e nas situações em que é preciso passar para a zona suja da pista para dar passagem aos “aviões”.

E quando a famosa Peugeot 504 cortou a meta às 14.00 precisas de domingo dia 1 de Dezembro, lá nos conseguimos classificar a meia dúzia de lugares do fim, mais ou menos da posição em que tínhamos saído da grelha mas com mais de metade das voltas do vencedor (respectivamente 55 para 101). Justiça cósmica, portanto…

Até ao cair do pano

Na box, nas últimas voltas a angústia tem outros contornos, diferentes mas não menos dramáticos. “Há quanto tempo passou o carro? Já devia ter dado mais uma volta”. Fazem-se contas ao material de reserva. Ainda há algum pneu de jeito para trocar? Temos óleo mais espesso se for precioso acrescentar? E correias, ainda há de reserva?

Fazem-se contas e mais contas. Teremos metido gasóleo suficiente para acabar a corrida? Já atingimos o número mínimo de voltas para ficarmos classificados, ou seja pelo menos 40% das voltas do primeiro classificado? E os adversários da nossa categoria? Ainda teremos muitos à nossa frente?

Onde não pode haver deslizes é na meia hora do final da corrida. A entrada para as boxes é fechada, o que significa que qualquer problema mecânico que porventura ocorra terá de ser resolvido por quem estiver a bordo, razão para que o último turno de condução seja atribuído não ao piloto mais virtuosos da equipa mas ao que tiver mais jeito para a bricolage…

A cinco minutos do final é a grande angústia. Todos se acotovelam na recta da meta para ver quem levará a bandeira de xadrez e, sobretudo, se nos minutos seguintes o nosso carro aparece. E quando finalmente isso acontece festejamos como se tivéssemos ganho a Liga dos Campeões, mesmo que afinal só tivéssemos estado a disputar a liga dos últimos…