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O pior guarda-redes de sempre

Bruno Vieira Amaral escreve sobre Roberto, o espanhol que o campeonato português - e, particularmente, o Benfica - bem conhece e cuja carreira de altos e baixos não assenta

Bruno Vieira Amaral

Rich Linley - CameraSport

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Primeiras palavras para Vítor Oliveira, homem que se fez treinador quando ser treinador em Portugal era tão sexy como ser canalizador em Freamunde ou coveiro em qualquer município. “Sexy” é a palavra certa. Foi essa qualidade, ou ausência dela, que afastou muitos treinadores portugueses da rota de um grande. Não eram suficientemente sexys.

Podiam saber muito de futebol, mas não ficavam bem na sala de imprensa. Com quarenta e poucos anos já eram todos “raposas velhas”, curtidos por semanas e semanas de futebol lamacento e endurecidos pelas batalhas táticas pelo pontinho. Há dias, li uma entrevista de Mário Reis, mítico treinador de Salgueiros e Boavista, onde chegou a conquistar uma Taça de Portugal. Já nem me lembrava dessa conquista.

Na minha memória, Mário Reis era um advérbio, o “naturalmente” que repetia vezes sem conta em entrevistas televisivas e conferências de imprensa. Naturalmente, Mário Reis afastou-se do futebol quando percebeu que estava condenado a projetos irregulares em que o treinador é sempre o elo mais fraco.

Com a especialização em subidas e escolha criteriosa dos clubes, Vítor Oliveira conseguiu escapar à sina dos seus contemporâneos. Atingiu um estatuto raro para um treinador que nunca chegou a um grande. Vê-se que só vai para onde quer e, a sair, será pelo próprio pé. Não anda a toque de caixa. Ontem, após a vitória do seu Gil Vicente sobre o Sporting, foi cristalino como água de nascente: o Sporting tem falta de grandes jogadores. Podem mudar treinadores e presidentes, mas sem grandes jogadores os resultados serão sempre medíocres. Milagres? Nem Jesus.

Por exemplo, o que podia fazer Jesus com Roberto Jiménez, aquele infeliz guarda-redes que, durante uma época, defendeu (estou a ser caridoso) a baliza do Benfica? Faço um exercício de memória e não me consigo lembrar de um guarda-redes mais incompetente que Roberto.

Olhando para os últimos 25 anos o Benfica nem sequer se pode queixar: Michel Preud’homme, Robert Enke, Jan Oblak e Ederson eram de uma qualidade superior. Quim e Artur, não estando no mesmo campeonato dos outros, eram de bom nível. Mas não se pense que Roberto é mau apenas em comparação com os melhores. É mau em comparação com os piores. Nem Carlos Bossio, Marcelo Moretto. Acho que nem Zack Thornton, aquele sujeito com corpo de quarterback, era tão mau. Se fosse treinador preferia arriscar e mandar o Pietra para a baliza a confiá-la a Roberto.

Depois de sair do Benfica, perdi-lhe deliberadamente o rasto, como quem tenta esquecer um pesadelo. Confesso que havia em mim a secreta esperança de que um belo dia Roberto se transformasse num garboso cisne da pequena área e que se descobrisse que aquela época de terror se devera a fatores imponderáveis, conflitos familiares, uma lesão escondida.

Mas o mais importante naquele momento era esquecer Roberto, ainda que a rábula da sua contratação e posterior venda, numa daquelas jogadas criativas que para uns são prova do génio negocial de Vieira e, para outros, da sua tendência irreprimível para a negociata e a falcatrua, não favorecesse o processo de luto. Creio que voltou a Espanha e depois foi para a Grécia exibir o seu talento inato para a frangalhada conspícua.

Por isso, foi com surpresa que o descobri na Premier League, como segundo guarda-redes do West Ham, suplente de Lukasz Fabianski. Presumo que os adeptos dos hammers menos atentos ao futebol periférico do continente tenham ficado contentes com um guarda-redes destes no banco. É que, à primeira vista, Roberto tem tudo o que se pede a um grande guarda-redes.

Tem, como há muitos anos me lembro de ler sobre uma promessa do Porto, “uma estampa física impressionante” que enche a baliza e emana uma autoridade natural que se evapora naqueles momentos em que sai aos cruzamentos e, de repente, parece ter não mais do que 1,65m. Se eu tivesse de escolher um guarda-redes por catálogo ou pelas cadernetas da

Panini, escolheria Roberto Jiménez. Mas basta vê-lo em ação para perceber que até um central, um juvenil ou, insisto, Minervino Pietra oferecem mais segurança defensiva do que este pobre guarda-redes espanhol com as suas saídas em falso, as suas defesas incompletas e o seu ar desamparado de empregado de filme mudo a deixar cair as bandejas em cima dos clientes. A reputação de Roberto no West Ham como sólido guarda-redes de banco durou até ser chamado à titularidade, em razão da lesão de Fabianski. Aí, descobriram com horror as suas mãos de ectoplasma e os seus passeios espectrais pela grande área e não tardaram em corrigir a avaliação inicial e em rotulá-lo como um dos piores guarda-redes de sempre da Premier League. É verdade. Com 33 anos, o tempo parece não passar por Roberto, que mantém intactos todos os defeitos.

No último jogo do West Ham, contra o poderoso Chelsea, o treinador, o circunspecto e paciente Manuel Pellegrini, preferiu dar uma oportunidade ao terceiro guarda-redes, David Martin, que, aos 33 anos, idade fatídica, chegado esta época do Milwall, ainda não tinha feito um jogo pelo clube.

Dá para imaginar o grau de desespero do treinador e a fama que cobre Roberto quando é preferível pôr um novato de trinta e tal anos, que, como qualquer terceiro guarda-redes, estaria ocupado com tarefas logísticas ou de motivação psicológica do plantel, a conceder outra oportunidade ao número dois. E não é que Martin foi o herói do jogo com uma exibição sensacional, mantendo a sua baliza a zeros e contribuindo para a improvável vitória do West Ham?

No final do jogo, Martin, estreante tardio, chorou como uma criança, rodeado pelos companheiros. Roberto pode orgulhar-se de ter contribuído para esta bonita história, ainda que no papel secundário de vilão inepto. É uma pena porque, à distância, tem tudo para ser um grande guarda-redes.