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Dois centrais vegetarianos

Bruno Vieira Amaral tem uma dupla de centrais preferida: Mathieu e Coates. A explicação é esta: "Nem Mathieu decaiu ao ponto de se tornar um empecilho, nem Coates atingiu a qualidade superlativa que chegou a prometer. As exibições tragicómicas de Tiago Ilori lembram os sportinguistas de que sem o taciturno Mathieu e o resignado Coates tudo poderia ser muito pior"

Bruno Vieira Amaral

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

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Meses atrás, em pleno gozo das sacramentais férias no Algarve, reencontrei um amigo que não via há mais de dez anos. “Amigo” é só para facilitar a história. Conhecemo-nos noutra encarnação, quando a minha atividade profissional consistia em verificar faturas e analisar imagens do sistema de videovigilância de uma bomba de gasolina para detetar infratores, condutores que abasteciam e se “esqueciam” de efetuar o pagamento. Este meu amigo era o comercial de uma marca de aperitivos e salgados. Costumava tomar o pequeno-almoço na bomba e dizer que comia muito seria quase insultuoso. Era um Gargântua. Devorava uma sandes mista, dois ou três croquetes, uma empanadilha de atum e auxiliava a deglutição com uma garrafa de leite Ucal. Estou em crer que se tivéssemos sandes de leitão ou postas mirandesas para o pequeno-almoço ele não se faria rogado. Curiosamente, era um tipo magro, de uma magreza que sugere a existência de parasitas intestinais. Quando o reencontrei no Algarve continuava magro, mas digamos que a magreza era agora de uma natureza diferente. Uma magreza moral. Conversámos um pouco e soube que o rapaz, depois de um susto de saúde, se tornara seguidor de um regime de alimentação saudável, quase vegetariano.

Uma das grandes alegrias, provavelmente das poucas, proporcionadas pela passagem do tempo são estes reencontros que são, na verdade, os primeiros encontros com pessoas que já conhecemos. Quem nunca sentiu aquele frémito de emoção ao rever um amigo de infância e descobrir, com pasmo e malícia, que o ateu impenitente se converteu a uma seita, o antigo comunista trabalha num banco de investimentos ou o conquistador compulsivo se rendeu às delícias e rigores do amor conjugal? Chegar ao pé de um amigo com quem fomos mantendo convivência, julgando-nos assim intocados pelo tempo, exclamar: “Sabes quem é que encontrei?” e relatar, com riqueza de pormenores, as mudanças que se operaram no reencontrado é um dos ingredientes que reforçam a amizade.

Vem tudo isto a propósito de centrais. Explicarei mais adiante. Em primeiro lugar, deixem-me dizer que os centrais deviam vir aos pares. Aliás, “um central” é coisa que não existe. É uma junta de um só boi. Não há nada mais solitário que um central sem o seu parceiro. Como nas danças de salão, o central devia escolher um par ainda em tenra idade e permanecer com ele até ao final da carreira, em feliz monogamia futebolística. Quando uma dupla de centrais se separa, por lesão, castigo ou transferência, o central que fica parece desamparado, tem qualquer coisa de viúvo. Vem um novo companheiro, mas ele cai na tentação de evocar o outro que partiu e lembrar a forma como saía a jogar, como subiam os dois à grande área contrária nos lances de bola parada, como compensavam os erros um do outro e, no fim, trocavam subtis cumprimentos em código, como um casal em que ambos os cônjuges não só aceitam os defeitos dos outros como os admiram, como se fossem seus.

Nunca houve central tão viúvo como Luisão. O homem teve mais casamentos no Benfica do que Elizabeth Taylor em Hollywood. A cada novo companheiro, lá tinha ele de mostrar os cantos da casa ao inquilino, alertá-lo para os seus hábitos, explicar-lhe as idiossincrasias do presidente. Era como o caseiro de uma grande herdade, homem de confiança do proprietário, que se via na tensão permanente entre a fidelidade à entidade patronal, o estatuto de que gozava na hierarquia, e o estabelecimento de uma nova relação com um cúmplice que, no ano seguinte, poderia bem rumar para um clube estrangeiro. Apesar disso, foi metade de algumas duplas míticas, nem sempre competentes, com os compatriotas David Luiz e Jardel, e o argentino Ezequiel Garay. As duplas de centrais têm esta particularidade: é possível que dois centrais assim-assim formem uma dupla de betão.

Por isso é que a dupla de centrais de que mais gosto na Primeira Liga é a constituída pelo francês Mathieu e pelo uruguaio Coates. Não nasceram um para o outro e só os acasos da tômbola futebolística os uniram. Mathieu é um daqueles centrais que veio para o Sporting com a certeza de que os melhores anos já tinham passado. Coates chegou com a convicção de que os melhores anos vinham aí. Algum tempo depois, embora em trajetórias inversas, contaminados pela estase que impera no clube leonino há muitos anos, cruzaram-se no ponto ótimo em que já não se pode subir mais, mas também não se pode cair mais. Quer dizer, é sempre possível cair mais, como provaram os acontecimentos de Alcochete ou a desafortunada série de penáltis e autogolos de Coates, mas, na verdade, pouco interessa porque nenhum cataclismo ameaça a convicção generalizada de que são os dois bons centrais e que, juntos, formam a dupla mais fiável. Nem Mathieu decaiu ao ponto de se tornar um empecilho, nem Coates atingiu a qualidade superlativa que chegou a prometer. As exibições tragicómicas de Tiago Ilori lembram os sportinguistas de que sem o taciturno Mathieu e o resignado Coates tudo poderia ser muito pior. Pouco ou nada expressivos, quase enigmáticos, os dois centrais encarnam uma espécie de heroísmo fatigado, não o heroísmo dos grandes feitos, mas o heroísmo dos grandes sofrimentos. Sofreram uma metamorfose que não foi evolutiva, no sentido de serem melhores do que eram quando chegaram, mas “adaptativa”, ou seja, são os centrais perfeitos para as circunstâncias do Sporting.

E era aqui que queria chegar. No início, Mathieu e Coates tinham mais fome, eram mais duros, o tipo de dureza neolítica sem a qual um central dificilmente sobrevive. Com o tempo amaciaram, tornaram-se mais reflexivos, melancólicos e meditabundos. Perderam presas e garras e, em certos momentos, parecem inofensivos como frades, irmãos de uma ordem contemplativa, votada ao silêncio, e não os guerreiros que põem em sentido os colegas de equipa com gritos que, a partir da grande área, se ouvem pelo campo todo. Se os centrais se querem carnívoros, Mathieu e Coates são dois centrais convertidos ao vegetarianismo, de uma palidez espectral, sem forças para um murro na mesa, para serem a voz do treinador em campo. Lembram-me o amigo que reencontrei no Algarve. Quando me despedi dele à saída do restaurante, roía desconsolada e saudavelmente um rabanete. Demos um aperto de mão e eu senti que os ossos dele se desfaziam. Quando olhei para trás, já não estava lá.