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Façamos justiça a Jorge Mendes, futuro melhor agente do sistema solar, do universo conhecido e também de todos os universos desconhecidos

Na última crónica do ano 2019, o escritor Bruno Vieira Amaral debruça-se sobre a temática Globe Soccer Awards e os méritos do superagente português e da sua família alargada, cujos elementos foram também agraciados na cerimónia realizada no Dubai

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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A justiça tarda, mas não falha. Depois de ser terrivelmente espoliado pela Uefa, pela Fifa e pela France Football, Cristiano Ronaldo viu-se ressarcido de todos os danos patrimoniais com a conquista do sexto troféu para melhor jogador do mundo na gala dos Globe Soccer Awards, evento com o alto patrocínio do Dubai. Não há dúvida. Quando se trata de futebol, temos de nos virar para os árabes em busca de orientação. Dentro e fora de campo. Jorge Mendes conquistou o galardão de melhor agente do planeta pela 10.ª vez. É mais do que justo, é justíssimo. Para que a glória seja maior, resta-lhe esperar uma deliberação da união das federações galácticas para que lhe seja atribuído o prémio de melhor agente do sistema solar e, antes de se reformar, de melhor agente do universo conhecido e de todos os universos desconhecidos.

A cerimónia também provou aos homens de boa vontade que Cristiano Ronaldo não aparece apenas quando tem certeza de que vai ganhar. Antes do anúncio do vencedor, era visível o nervosismo do astro da Juventus. Afinal, tinha Vinícius, esse magnífico goleador, a morder-lhe os calcanhares e até João Moutinho, o arquiteto do esplendoroso futebol do Wolverhampton, poderia arrebatar o troféu. No final, prevaleceu o bom senso e CR7 foi justamente agraciado pelas autoridades do emirado.

Não se pense que os Globe Soccer Awards só servem para afagar o ego de Cristiano Ronaldo e encher a sala de Jorge Mendes de troféus. João Félix, acidentalmente agenciado por Mendes, foi eleito o futebolista-revelação e a academia do Benfica foi distinguida, a par da do Ajax, com o prémio de melhor academia do mundo. Houve outros premiados, como Jürgen Klopp ou Lucy Bronze, distinções que apenas reforçam o brilho das múltiplas conquistas de Jorge Mendes e da sua família alargada.

Contudo, faltou uma distinção para aquela que considero ter sido a figura do ano no futebol mundial: o treinador português. Não um treinador português em particular, ainda que Jorge Jesus ou Fernando Santos merecessem o reconhecimento, mas o treinador português em geral, o treinador português enquanto marca de qualidade, reconhecida e desejada em todo o mundo. Jesus brilhou no Brasil, conquistou o Brasileirão com recorde de pontos, conduziu o Flamengo à conquista da segunda Libertadores do clube do Rio e esteve a minutos e a um golo de Roberto Firmino de ser campeão do mundo. Fernando Santos, indiferente às críticas pontuais ao futebol pouco vistoso da seleção, ganhou a inaugural Liga das Nações. Paulo Fonseca foi campeão na Ucrânia e, depois disso, contratado para comandar a Roma.

Pedro Martins e Abel Ferreira disputam o campeonato grego, Paulo Bento brilha na Coreia, André Villas-Boas fez uma pausa sabática na sua carreira automobilística para orientar o Marselha na luta pelo segundo lugar na liga francesa, Bruno Lage surpreendeu Luís Filipe Vieira e deu o 37 ao Benfica, Rui Vitória foi secar as lágrimas com a faixa de campeão na Arábia Saudita, Augusto Inácio e Jesualdo Ferreira aproveitaram a porta aberta por Jesus para descobrirem o Brasil. E, como se tão extensa lista não bastasse, ainda temos Vítor Pereira, Paulo Sérgio, Luís Castro, Paulo Sousa, Nuno Espírito Santo e o regressado José Mourinho, para falar dos que lá fora erguem bem alto o estandarte luso, ou Sérgio Conceição e Ivo Vieira, que ainda se mantêm à frente de clubes portugueses, mas talvez por pouco tempo.

Que fartura! Que abundância digna de Canaã! Nem o insucesso de Marco Silva no Everton ou o segundo despedimento de Leonardo Jardim no Mónaco ensombram esta colheita dourada. Aliás, a chicotada de que o treinador madeirense foi vítima é um lembrete da precariedade das glórias futebolísticas e do cutelo que pende eternamente sobre a cabeça dos treinadores. Não há triunfos pretéritos que salvem um treinador quando o barco começa a meter água. E que um dos melhores treinadores portugueses oiça o duplo estalar do chicote em pouco mais de um ano no mesmo clube, depois de lhe ter oferecido o mais improvável e saboroso dos títulos, poderia servir de emblema à profissão: um treinador de futebol é alguém que está sempre em vias de ser despedido, asserção ainda mais verdadeira se o treinador tiver António Salvador como patrão.

Não quero ser injusto com o presidente do Sporting de Braga. Como o próprio afirmou, no seu eloquente português da construção civil, poucos clubes em Portugal têm feito mais pela promoção do treinador nacional. Jorge Jesus, Domingos Paciência, José Peseiro, Paulo Fonseca, Sérgio Conceição e Abel Ferreira são prova suficiente desses méritos e quando se trata de correr com treinadores Salvador não está sozinho. Não deixa, por isso, de ser curioso ver a Associação Nacional de Treinadores de Futebol a espumar de raiva com a escolha de técnicos sem habilitação legal para o exercício das funções e estranhamente silenciosa perante a contínua dança de cadeiras promovida pelos clubes e que, se houvesse justiça (aqui tem tardado e falhado), já faria parte das tradições culturais elevadas a património imaterial da Unesco.

O que são os caretos de Podence em comparação com o corridinho e o vira que põem o treinador português a saltar do Feirense para o Marítimo, do Tondela para o Paços de Ferreira, do Paços de Ferreira para o Moreirense, do Moreirense para o Vitória de Guimarães, num corrupio capaz de entontecer o mais ágil dançarino? Em Portugal, o treinador não é carne para canhão, é carne de rodízio. Talvez o silêncio da ANTF se deva à velocidade do carrossel e às tonturas que provoca. É bem mais fácil apontar as armas a Silas, a Rúben Amorim ou a qualquer outro aspirante a treinador que ainda não ostente as obscuras insígnias legais que lhe concedem o privilégio de se sentar no trono sobre o qual balança ominosamente a espada do despedimento.

Por todos estes motivos, escolho o treinador português como figura do ano. Assim, em abstrato, ninguém lhe exigirá habilitações, nem cursos de nível III, e não há presidente, por rápido que seja no gatilho, capaz de o despedir porque, por definição, o treinador português, entidade mítica, é “indespedível”. Como a divindade de Pascal, está em todo o lado e em parte nenhuma, é o “deus absconditus”. Longa vida ao treinador português!