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Um problema chamado Zé António

Bruno Vieira Amaral coloca o dedo na ferida e desvenda o segredo: Bolasie afinal não é Bolasie, mas sim Zé António, seu amigo de infância, rapaz sem o mínimo jeito para o futebol, ainda que não vire a cara à luta. E isso explica muita coisa

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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O problema do Sporting tem um nome: chama-se Zé António. Não vale a pena correrem para o Google à procura da personagem. Não é o nome de batismo do treinador dos leões nem de qualquer outro membro da equipa técnica. Não é alcunha do presidente Varandas. Nas claques haverá mais do que um Zé António, mas nenhum deles é o Zé António a que me refiro. O Zé António de que vos falo é meu amigo de infância e, até ontem, eu pensava que ele era um sósia do abnegado Yannick Bolasie. Agora não tenho dúvidas: Bolasie não existe. O homem a quem todos chamam Bolasie é mesmo o Zé António do meu bairro, rapaz simpático mas sem o mínimo talento para o futebol.

Ontem, no jogo contra o FC Porto, Zé António correu que se fartou mas quase sempre mal. Ninguém o poderá acusar de falta de empenho e generosidade. Nem os ciclotímicos adeptos das claques serão capazes de lhe regatear aplausos na hora da saída porque ele é dos poucos que nunca vira a cara à luta. Quem conhece o Zé António como eu conheço sabe que ele é assim. Dá tudo o que tem. Portanto, o problema é menos o Zé António do que quem o foi desencantar. Na última vez que o encontrei, ele trabalhava numa empresa de pequenas reparações. Estava numa bomba de gasolina, de jerricã na mão e pediu-me boleia até ao carro, encostado na berma de uma estrada secundária por falta de combustível. Falámos um pouco sobre a vida dele. Quando dissemos adeus, mal poderia eu imaginar que, meses depois, Zé António seria titular nesta equipa do Sporting, disfarçado sob a identidade do tal Bolasie. Explica muita coisa.

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

Não explica tudo, é verdade. A derrota de ontem, a primeira contra o FC Porto em casa nos últimos onze anos, não se deveu ao meu amigo Zé António, embora os jornais sejam unânimes em considerarem que ele podia ter feito mais. O problema foi a bola. No final do jogo, Silas afirmou que a sua equipa não podia sofrer um golo como o primeiro, ainda por cima aos cinco minutos. Estará certamente a pensar na movimentação de Marega e no passe que o isolou e não no gesto técnico da finalização. Já revi o golo umas dez vezes e estou convencido que o mesmo se deve em partes iguais à inteligência e às deficiências técnicas do avançado maliano. A movimentação é perfeita, mas o gesto técnico, meus amigos, é de Zé António. Acontece que há momentos em que a bola é mais inteligente que o jogador. Marega tentou dominá-la e ela, cansada de maus tratos, seguiu o seu próprio caminho, enganando os defesas, o guarda-redes e o próprio avançado portista. Foi um auto-golo, na plena aceção do termo, um golo marcado pela bola.

Já o Sporting foi traído pela inteligência e pela técnica de Luciano Vietto. Primeiro acertou no poste e, depois, tentou desviar tanto a bola do guarda-redes que esta seguiu para fora, escassos centímetros ao lado da baliza. A bola, confiada na qualidade de Vietto, entregou-se à vontade do avançado, naquele abandono feliz, quase sorridente, próprio da bola quando é bem tratada. Resumindo: Vietto foi Vietto, Marega foi Zé António e o verdadeiro Zé António não chegou a ter oportunidade de ser Zé António. Eis o problema do Sporting que, com mais sorte e menos inteligência, até podia ter empatado o jogo.

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No sábado descobri que, graças às novas tecnologias, é possível ver um jogo pela televisão ouvindo apenas o som ambiente do estádio e silenciando de uma só vez narradores e comentadores especializados. Eu há muito que sonhava com essa possibilidade, mas não acreditava que os operadores televisivos concedessem ao espectador o poder de emudecer os seus assalariados. Num segundo, a higiene sonora tornou aquilo que acontecia em campo mais claro, mais fluido. De repente, o jogo pareceu mais jogo e menos transmissão televisiva. Sem o incómodo zumbido de anotações periféricas sobre a naturalidade de um jogador, o número de assistências que já fez e curiosidades sobre a sua história familiar, o jogo ganhou um esplendor visual inédito.

Carlos Rodrigues/Getty

Não estou a dizer que comentadores e jornalistas são incompetentes, mas que a própria natureza da sua arte funciona como uma espécie de nevoeiro verbal contínuo, numa litania cerrada de dados, apreciações redundantes e tentativas de humor, onde se destaca o repórter no relvado, que fala como se estivesse numa frente de guerra e os seus colegas num longínquo e protegido estúdio a milhares de quilómetros de distância. Da bancada de imprensa solicitam-lhe intervenções que permitam esclarecer se a bola bateu no defesa antes de sair pela linha de fundo ou confirmar qual o jogador que se lançou em furiosos exercícios de aquecimento. Inebriado pelo odor da relva húmida e pela proximidade fraternal com os bancos de suplentes, o repórter de colete aventura-se pela linha lateral e, após uma rápida e minuciosa investigação, declara triunfante: “Adérito, peço desculpa, mas o jogador em exercícios de aquecimento não é Yannick Bolasie. É, sem margem para dúvidas, o Zé António.”