Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Talvez Félix precise de uma mudança de ares, longe da atmosfera belicosa do Atlético adversa à sua delicada constituição de bailarino

Na sua crónica semanal na Tribuna Expresso, o escritor Bruno Vieira Amaral debruça-se sobre a temática da gripe no Vitória - Sporting, bem como dos jogadores que parecem estar no sítio errado

Bruno Vieira Amaral

Quality Sport Images

Partilhar

O futebol português continua a dar pequenos, porém firmes, passos no caminho da pacificação total. No passado sábado, em plena tribuna presidencial do estádio do Bonfim, Frederico Varandas, dirigindo-se a um diretor do Vitória de Setúbal, fez a seguinte promessa eleitoral que entusiasmou os adeptos sadinos: “Se me tocas, arranco-te a cabeça”. Sabendo que o presidente do Sporting cumpriu missão no Afeganistão, país onde as decapitações gozam de grande popularidade, e esteve em Alcochete no dia da invasão, as suas palavras devem ser levadas a sério.

Aqui está um profissional de saúde em perfeitas condições físicas e psicológicas para fazer banco de urgência no Santa Maria. Repare-se como o clínico poderia ter optado por uma ameaça mais limpa (“corto-te a cabeça”), mas preferiu um método que implica maior sofrimento para a vítima (“arranco-te a cabeça”). De acordo com fontes próximas de Frederico Varandas, o médico terá aprendido a técnica quando passou algum tempo com tribos pashtuns do norte do Afeganistão, que também lhe terão ensinado os rudimentos da gestão desportiva bem como algumas receitas de borrego.

Vítor Hugo Valente, presidente do Vitória, terá dirigido também algumas palavras rudes ao seu homólogo leonino, mas com a lembrança do tratamento que lhe foi dado por um empresário ainda bem viva na memória, acabou por adotar uma postura mais cautelosa, na linha da corrente contemplativa de Shaolin. Honra lhe seja feita, não deve ser fácil liderar um clube como o Setúbal, que nas últimas épocas se tem aguentado na Primeira Liga graças a uma estratégia assente no aproveitamento da formação, no ludíbrio de empresários e no endividamento fiscal.

Ano após ano, o clube vive naquela zona perigosa pouco acima da linha de água, de tal forma que o símbolo oficial poderia ser uma boia. Milagrosamente, tem conseguido escapar às descidas com uma destreza de Houdini. Mas nem assim o destino dá descanso a esta massacrada coletividade. Esta semana quase todo o plantel ficou no estaleiro devido a uma estirpe do vírus da gripe a que são particularmente vulneráveis os futebolistas com salários em atraso. Apesar disso, o Vitória entrou em campo com vontade de disputar o jogo e só não resistiu a um auto-golo, um penálti e uma bola na barra. Fontes próximas de Deus garantem-nos que, caso o jogo estivesse empatado perto do fim, com o Vitória a resistir a todas as adversidades, estava prevista a queda de um raio em pleno relvado do Bonfim com ordens expressas para vitimar apenas os jogadores sadinos.

*

Entretanto, o Sporting continua à procura de um avançado que amenize a solidão de Luiz Phellype, o mais solitário de todos os jogadores em atividade no campeonato português. Enquanto o Futebol Clube do Porto tem avançados em número suficiente para jogar num esquema radical de 4-1-5, Luiz Phellype é obrigado a passear sozinho pela Academia, sem ninguém com quem possa partilhar os seus dilemas de ponta-de-lança. Contratado ao Paços de Ferreira num negócio que envolveu a cedência de algumas peças de mobiliário, o avançado brasileiro reunia todas as condições para ser um suplente razoável, mas as circunstâncias do Sporting e o visionarismo dos seus dirigentes condenaram-no a uma pena de titularidade efetiva. Todos os jogadores ambicionam a titularidade, é certo, mas quando se é o único ponta-de-lança do plantel, a titularidade é um peso, não um prémio.

Apesar de tudo, Luiz Phellype já marcou seis golos na Liga, uma proeza que Raul De Tomás, o meu avançado sem golo, não conseguiu alcançar em seis traumatizantes meses de águia ao peito. Felizmente a equipa brilhantemente liderada por Luís Filipe Vieira inventou outro negócio à espanhola e aplicou ao infeliz RDT um pontapé pelas escadas acima, recebendo em troca 20 milhões de euros e mais uns trocos que dariam para comprar três Luiz Phellypes. Assim que chegou a Espanha, acabado de aterrar no aeroporto de Barcelona, RDT falou da experiência no Benfica como se tivesse passado uma temporada num campo de trabalhos forçados na Sibéria. Aqui, no clima severo do extremo da península, perdeu a “ilusión”, que é como quem diz “roubaram-me os sonhos.” E não é que no primeiro jogo com a camisola do Espanhol RDT marcou um golo? A minha avó bem me falava das virtudes de uma mudança de ares. Agora tenho a certeza dos benefícios.

Talvez João Félix também precise de uma mudança de ares, longe da atmosfera belicosa do balneário do Atlético adversa à sua delicada constituição de dançarino de salão. Vi os jogos do Atlético contra o Barcelona e o Real Madrid e foi penoso ver Félix a arrastar-se em campo como uma alma penada. No meio dos salteadores da equipa de Simeone, o Golden Boy está tão confortável como um bailarino num curso de comandos. O instrutor quer vê-lo enlameado, com pedaços de relva nos dentes, a rastejar atrás dos adversários, e Félix flutua, quase levita, longe do jogo. Das raras vezes em que a bola lhe vai parar aos pés, o miúdo que parecia ver auto-estradas antes de receber a bola agora só vê muros, gigantescas paredes de betão. É um desconsolo vê-lo baixar a cabeça e esforçar-se por cumprir as ordens do treinador.

Como um estudante de piano numa numerosa família de camponeses, Félix pega na enxada para provar a sua utilidade, conquistar o respeito dos irmãos e merecer o amor do pai. Mas os braços de melómano não aguentam tanto peso e o esforço arruína-lhe a sensibilidade. De cada vez que se senta ao piano, fá-lo com modos de cavador e do instrumento já não sai um som celestial, mas o ruído duro da terra revolvida. Ao fim de meio ano às ordens de Simeone, Félix está entre a espada e a parede. Melhor, entre a enxada e o piano.