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Quando duas equipas jogam um dérbi em casa, de pijama e pantufas

Bruno Vieira Amaral ficou espantado com a falta de qualidade futebolística do Sporting-Benfica: "No meio de tanta pobreza, espantam-me as críticas ao treinador do Sporting. Para mim, Silas é um génio. Um treinador que põe uma equipa com Illori, Doumbia, Bolasie e Luiz Phellype a discutir o jogo e, em certos momentos, a dominar o adversário, está ao nível de um Rinus Michels"

Bruno Vieira Amaral

Gualter Fatia

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Um dérbi a uma sexta-feira à noite é o ideal para os adeptos da equipa derrotada. O fim de semana serve de amortecedor para a frustração e na segunda-feira regressa-se ao trabalho como se o jogo tivesse sido disputado há cem anos. Quem ganha também perde a motivação, diluída no tédio da vida familiar, para fazer pouco do rival. Quarenta e oito horas chegam e sobram para nivelar a euforia e a depressão. Na segunda-feira de manhã depois de um dérbi à sexta-feira todos parecemos mais derrotados do que o habitual, mesmo aqueles que ganharam.

O problema é que este ambiente geral de desinteresse já se sentia antes do jogo. As televisões bem que falavam em “lotação esgotada”, na tentativa de criar um clima de expetativa e nervosismo, mas as primeiras imagens do estádio mostravam as cadeiras vazias de Alvalade na sua colorida tristeza. A diferença pontual para o Benfica, a qualidade de jogo da equipa e as tensões entre claques, adeptos comuns e direção transformaram o estádio do Sporting numa espécie de mausoléu de uma ideia centenária. O estádio que outrora pegava fogo nestas ocasiões agora só fumegava, como um território calcinado após um violento incêndio.

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Os adeptos do Benfica faziam-se ouvir, mas também eles sentiam falta de um rival assanhado, incómodo, que emprestasse àquele cantinho vermelho a aura de resistência sem a qual a bancada não se distingue do sofá. Ir a Alvalade apoiar o Benfica requeria disponibilidade física, coragem, uma certa dose de loucura. Agora só é preciso um bilhete e a disciplina militar mínima para marchar dois quilómetros sob orientação policial. Se as coisas não mudarem, estou em crer que, daqui a dois anos, em vez de excitadíssimos elementos das claques o Benfica enviará para as bancadas do eterno rival um batalhão de Águias de Ouro e um ou outro nonagenário dos que ainda se emocionam com a recordação dos feitos de um Cavém, de um Rogério Pipi, de um Espírito Santo.

O pior é que o jogo conseguiu ser mais descolorido, descafeinado e desvitalizado do que o ambiente nas bancadas. Não foi um jogo de solteiros contra casados, mas de viúvos contra viúvos. Em vez de tochas, as claques leoninas deviam ter atirado fumos negros e coroas de flores para o relvado. Ao intervalo, os jogadores deviam ter saído para os balneários ao som da marcha fúnebre de Chopin. Um espectáculo tão pobre não merecia transmissão televisiva, merecia o RSI, senhas do Banco Alimentar. Porém, devido às inúmeras paragens ainda tivemos direito a dez excruciantes minutos (ironicamente designados de compensação) que, da perspetiva do adepto benfiquista, só o golo de Rafa tornou mais suportáveis.

No meio de tanta pobreza, espantam-me as críticas ao treinador do Sporting. Para mim, Silas é um génio. Um treinador que põe uma equipa com Illori, Doumbia, Bolasie e Luiz Phellype a discutir o jogo e, em certos momentos, a dominar o adversário, está ao nível de um Rinus Michels. Já Bruno Lage comportou-se como a lebre da fábula. Comodamente sentado no banco, via a sua equipa a ser controlada por um esforçado, porém limitadíssimo, conjunto de jogadores, sem mexer uma palha. A primeira substituição, a entrada de Rafa aos 74 minutos para o lugar de um anónimo Chiquinho, foi tão tardia que só pode ser atribuída à compaixão de Lage pelo adversário e à vontade de não lhe infligir mais danos que os estritamente necessários para ganhar o jogo.

No final, além dos dois golos de Rafa e da vantagem cavada para o Futebol Clube do Porto, os benfiquistas encontraram o conforto que a exibição não lhes proporcionou nos cobertores da estatística. Em jogos para o campeonato o Benfica já tem mais vitórias em Alvalade do que o Sporting. Se não é um caso único numa rivalidade tão duradoura e tão intensa é certamente raro. E é capaz de explicar a dormência doméstica do dérbi de sexta-feira à noite: estavam todos a jogar em casa, de pijama e pantufas.

Encontra alguém que olhe para ti, como o Benfica olha para Rafa

Em duas substituições e em dois lances o Benfica venceu o dérbi: primeiro, quando o poderoso Vinicius derrubou os adversários como castelinhos de cartas e passou a bola para o 1-0 de Rafa; segundo, quando Rafa chutou de trivela a passe de Seferovic para o 2-0. Quando mais foi preciso, o investimento pagou-se com o <em> bis</em> do futebolista mais decisivo do campeonato anterior. O Benfica tem mais dinheiro, mais adeptos, melhor estrutura e melhores jogadores. Ganhar, em Portugal, parece uma inevitabilidade