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A transferência de Bruno Fernandes para um clubezeco inglês

O escritor Bruno Vieira Amaral não percebe a surpresa de alguns adeptos com a transferência de Bruno Fernandes: "Perante a proposta de um Manchester United desejoso de contar com o jogador, o empresário Miguel Pinho, de perna esticada sobre a secretária, deveria esboçar um gesto de enfado: 'Então isto agora qualquer clubezeco de província acha que pode chegar aqui, acenar com uns milhões e contratar o médio recordista de golos numa só época?'"

Bruno Vieira Amaral

Tom Purslow

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Na semana passada, quem lesse alguns comentários e avaliações da transferência de Bruno Fernandes pensaria que o talentoso médio tinha sido contratado por um desses clubes ingleses de meio da tabela subitamente insuflados pelos esteroides financeiros de um petro-empresário árabe ou de um milionário asiático. Um dos comentadores lamentava mesmo que o jogador tivesse ido para uma “equipa mediana”. O leitor incauto ficaria então surpreendido ao descobrir que Bruno Fernandes tinha assinado contrato com o Manchester United, ainda o clube mais poderoso de Inglaterra e um dos mais ricos e populares em todo o mundo.

Eu sei, eu sei. Há uma diferença entre equipa e clube. Mas, meus amigos, isto só se explica como uma tautologia: o Manchester United é o Manchester United. É certo que a equipa não atravessa um bom momento desportivo, que os anos pós-Ferguson têm vindo a dar um novo sentido à expressão “travessia do deserto” e que nenhum treinador, e o United tem experimentado fórmulas diversificadas, desde uma cópia barata de Ferguson ao estilo pírrico de Mourinho acabando, por agora, na aposta num santinho da casa, tem sido capaz de pegar no talento que todas as manhãs se junta para treinar no Aon Training Ground e torná-lo num grupo competitivo.

Pelos vistos, Bruno Fernandes e o seu agente deveriam ter olhado para este cenário de ruínas, vislumbrando entre as cinzas e o pó dos séculos a carcaça de um colosso anteriormente conhecido por Paul Pogba, e chegado à conclusão de que o jogador merecia uma montra mais condizente com o seu talento como, por exemplo, o Liverpool de Jürgen Klopp. Isso mesmo. Perante a proposta de um Manchester United desejoso de contar com o jogador, o empresário Miguel Pinho, de perna esticada sobre a secretária, deveria esboçar um gesto de enfado: “Então isto agora qualquer clubezeco de província acha que pode chegar aqui, acenar com uns milhões e contratar o médio recordista de golos numa só época?” E mandava a família Glazer, Ed Woodward e Ole Gunnar Solskjaer espreitar uns jogos do 1º de Dezembro ou do Canelas e procurar lá um jogador que lhes fizesse o favor de vestir a camisola do clube. Não foram eles que um dia contrataram um tal Bebé? Pois. Quod erat demonstrandum.

De seguida, ligaria para o telemóvel pessoal de Klopp e dir-lhe-ia: “Ouve uma coisa, Jürgen, tenho visto a tua equipa a jogar e vou ser muito sincero: se queres acabar o campeonato com trinta pontos de vantagem precisas mesmo de um jogador como o Bruno Fernandes. É pegar ou largar. Pensa nisso, mas não demores muito ou ponho o miúdo a jogar, pá, no maior clube da galáxia.”

Não dá para compreender certas coisas. Qualquer jogador que vá para um Southampton, um Sunderland, um Bournemouth ou mesmo para o campo de refugiados portugueses do Wolverhampton chega a Inglaterra e treme de emoção: “o meu sonho sempre foi jogar na liga inglesa, estádios cheios, a paixão dos adeptos, a intensidade, os árbitros, o clima, a gastronomia britânica” etc. No entanto, há quem ache que Bruno Fernandes fez a escolha errada. Deveria ter torcido o nariz e passar mais uns meses rodeado de Doumbias e Ristovskis, de Varandas, Vianas e Severos, conduzindo o Sporting na trepidante luta pelo terceiro lugar. No final da época, pegava nas malas e apresentava-se em Camp Nou ou no Bernabéu, mesmo que ninguém o tivesse chamado.

Vamos admitir que o Manchester United tem problemas e não apenas “problemas”. Em comparação com quase qualquer outro clube do mundo, são problemas como os que afligem certas famílias abastadas quando, por motivos de oportunidade, têm de adiar as obras numa mansão ou agendar a compra do iate lá mais para o verão. Lembremos que Bruno Fernandes estava num clube em que o dinheiro pode não chegar para pôr comida na mesa. Mas mesmo que estivesse num clube estável e a respirar saúde financeira, digamos, num clube que não fosse tão parecido com a Jugoslávia nas vésperas da guerra, o Manchester United é o Manchester United. É um dos poucos clubes do mundo de que um jogador pode dizer em futebolês fluente: “se o (inserir nome do clube) te chama, vais”. Como é compreensível, a não ser para algumas mentes preclaras e avançadíssimas, Bruno Fernandes foi.

Foi o ponto final na sua extraordinária história no Sporting. Não me lembro de um jogador num clube português tão decisivo, tão solitariamente decisivo, como Bruno Fernandes. Poder-se-ia pensar que o talento do jogador se destacou porque, à sua volta, o cenário era de miséria, mas não creio que essa avaliação seja justa. A excelência de Bruno Fernandes está intimamente ligada às circunstâncias caóticas no clube de Alvalade, mas a sua excelência não só foi absoluta como parece ter beneficiado daquelas circunstâncias. Quanto mais o Sporting se afundava, mais a qualidade de Bruno Fernandes emergia, mais golos ele marcava, mais assistências fazia. Se em terra de cegos quem tem olho é rei, imaginem o que é ser como Bruno Fernandes, um panóptico em forma de jogador. Já provou que a sua genialidade é capaz de prosperar (sobretudo) no caos. Terá agora de provar que também pode prosperar na calma relativa de Manchester.