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O que é a hegemonia do Benfica? Existe? É uma impressão? Uma neblina? Um vaporzinho de megalomania? (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor Bruno Vieira Amaral analisa a questão de todas as questões: será que o Benfica está mais poderoso do que o FC Porto? Ou será a hegemonia uma ideia vaga, sem sustentação estatística

Bruno Vieira Amaral

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Estava a pensar na hegemonia do Benfica e lembrei-me daquela frase atribuída a Estaline, “a morte de um homem é uma tragédia, a morte de um milhão é uma estatística”. Explico no fim.

Para começar, o que é a hegemonia do Benfica? Existe? É um mito urbano? É uma impressão? Uma ideia vaga? Uma neblina? Um vaporzinho de megalomania?

Vamos lá então às estatísticas. Haverá muitas maneiras de olhar para a realidade, começando, desde logo, pelo período em análise. Os últimos cinco anos ou os últimos dez? Nos últimos dez (vamos já contar com esta época), o Benfica ganhou cinco campeonatos e o Porto, quatro. Nos últimos cinco, o Benfica ganhou quatro e o Porto um. Se, numa análise mais alargada, há um grande equilíbrio, olhando para os últimos anos a tendência é para um domínio do Benfica.

Atentemos, portanto, nos últimos dez anos.

Desde a época 2010/11, disputaram-se 38 títulos em Portugal. Destes, o Benfica venceu 16, assim distribuídos: cinco campeonatos, duas Taças de Portugal, quatro Supertaças e cinco Taças da Liga. Durante o mesmo período o Porto conquistou quatro campeonatos, uma Taça de Portugal e cinco Supertaças, num total de dez troféus (onze, se acrescentarmos a Liga Europa).

Confirma-se o equilíbrio em todas as competições, à exceção da Taça da Liga, com uma ligeira vantagem do Benfica nos prémios mais apetecidos e uma ligeira vantagem do Porto no “seu” troféu, a Supertaça Cândido de Oliveira.

Desta perspetiva, a “hegemonia” do Benfica parece mais uma recuperação do que um domínio avassalador. Para quem andou anos e anos à míngua, qualquer papo-seco enche a barriga e quem, durante aqueles anos, só comeu filet mignon não se habitua facilmente aos tempos de vacas magras.

Resumindo: o Benfica tem crescido e o Porto tem perdido gás.

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Por isso uns têm a sensação de fartura e outros de fome, ainda que, mais coisa, menos coisa, tenham comido o mesmo.

Veja-se, por exemplo, as finais: na Taça de Portugal, Porto e Benfica disputaram o mesmo número de finais, três; na Taça da Liga, o Benfica disputou cinco (ganhou todas) e o Porto disputou três (perdeu todas). Esta é a única competição em que há uma clara hegemonia de um clube, mas, por se tratar da Taça da Liga, é normal que os adeptos (sobretudo os do Porto) procurem outras estatísticas para o desempate: a dos confrontos diretos e a das competições europeias (não havendo, alegadamente, uma cartilha azul e branca, é de sublinhar a concertação de comentadores do Futebol Clube do Porto no sentido de eleger a Europa como o crivo mais fiável da excelência futebolística).

Na Europa, o Porto tem a pequena grande vantagem de ter conquistado um título (na primeira época das últimas dez). O Benfica foi a duas finais, mas as vitrinas ficaram na mesma. Na Champions, ambos os clubes chegaram por duas vezes aos quartos-de-final, o mais longe que foram na principal competição da Europa.

O Porto ainda conseguiu chegar por três vezes aos oitavos, enquanto o Benfica só passou a fase de grupos mais uma vez. Na Liga Europa, além das duas finais, o Benfica chegou uma vez às meias-finais e outra aos quartos-de-final (sempre depois de cair da Champions). O Porto, além da vitória, caiu duas vezes nos dezasseis avos e uma nos quartos-de-final (sempre depois de cair da Champions, com exceção do triunfo em 2011).

Em resumo: na segunda divisão europeia, os resultados do Benfica são mais consistentes, embora o Porto tenha um troféu que destrunfa o adversário. Na Champions, o Porto tem sido mais regular, apesar de nenhum dos clubes ter ido mais longe que os quartos-de-final. A diferença é que o Porto passou cinco vezes da fase de grupos (quatro nos últimos seis anos) e o Benfica apenas três (duas nos últimos seis anos). A vantagem do Porto, nos desempenhos europeus, não é significativa, mas o relativo sucesso dos últimos anos ajuda a que se use a cartada (desde que não se fale do Krasnodar), ainda por cima quando o sucesso interno do Benfica (sobretudo no campeonato) tem correspondido a um apagamento externo, que é a pedra no sapato da teoria da hegemonia benfiquista.

Mas, além da pedra, há um pedregulho: no confronto direto, a vantagem do Porto tem sido esmagadora.

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Em vinte jogos para o campeonato nos últimos dez anos, o Porto venceu dez (50%), cinco dos quais na Luz, e o Benfica apenas quatro (20%), dois no Dragão (30-21 em golos, com vantagem para o Porto). Contabilizando todas as competições (27 jogos), o total de vitórias do Porto sobe para 13 e o do Benfica dobra para oito. Cada clube ganhou uma eliminatória da Taça de Portugal (6-5 em golos para o Benfica); o Benfica venceu duas eliminatórias da Taça da Liga e o Porto venceu apenas uma (5-4 para o Porto em golos). Ou seja, há equilíbrio nas competições secundárias e uma supremacia inquestionável do Porto no campeonato. O resultado do jogo de sábado só confirmou a tendência.

O problema para o Porto é que a supremacia nos confrontos diretos não se tem traduzido em títulos, nem tem impedido o Benfica de os conquistar. Em quatro das últimas dez épocas, incluindo a época em curso, um dos clubes ganhou os dois jogos para o campeonato: em 2010/11 o Porto foi campeão, em 2018/19 o Benfica foi campeão, mas em 2015/16 as duas vitórias do Porto não chegaram para conquistar o título. E este ano, depois de duas vitórias, ainda está a quatro pontos do Benfica.

Uma leitura possível é a de que os jogos entre os dois clubes não são decisivos para o desfecho do campeonato. Se fossem, ou se tivessem uma tradução direta no final, seria o Porto a ter cinco títulos (com o deste ano, seriam seis). Mas o que a formidável vantagem do Porto nos confrontos diretos também demonstra é que o clube azul e branco nunca encara estes jogos de ânimo leve. Não é que o Benfica o faça, mas a abordagem é diferente. Os jogadores do Porto entram com a convicção de que uma derrota não lhes será perdoada e de que uma vitória redimirá (quase) todos os pecados do passado. Já os jogadores do Benfica entram com uma nuvem de fatalidade a pairar-lhes sobre as cabeças (a mesma nuvem que paira sobre os adeptos) e com a convicção minimamente reconfortante de que não será uma derrota a estragar-lhes a época se depois conseguirem ser campeões. É como se o Porto levasse tudo para dentro de campo – os três pontos, o orgulho, a história e (lamento, mas é mesmo assim) a cultura de ódio ao rival – e o Benfica apenas as contas do campeonato.

Só esta atitude explica uma disparidade tão grande entre confrontos diretos e resultados globais. Os benfiquistas não deixarão de sorrir ao ver o principal adversário a agarrar-se a curiosidades secundárias – como um exército a bater em retirada que vai defendendo posições cada vez menos importantes – para rebater a evidência do crescimento do Benfica nos últimos anos e do regresso a um equilíbrio de poderes a que já não estava habituado. Porém, têm de admitir que ganhar campeonatos sem dar “a” machadada ao grande inimigo deixa aquele sabor amargo de não se ter feito o trabalho até ao fim.

Nos clássicos contra o Benfica, o Porto veste o traje de gala (que, neste caso, é o fato-macaco) e mostra a sua melhor face (os adeptos portistas dirão que é a verdadeira face, mas raramente, ao longo da época, se vê a equipa a jogar com a mesma entrega e intensidade). Com algum exagero, diria que o adepto portista não se importa de perder o campeonato desde que não perca os jogos contra o Benfica. De um certo modo, tudo isto faz sentido e volto então à frase de Estaline. É que um campeonato é estatística. Tragédia é perder um jogo. Aquele jogo