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A partir de agora, ninguém vai poder fechar olhos e tapar ouvidos, ninguém vai poder dizer que um futebolista negro tem de servir de latrina

Bruno Vieira Amaral escreve sobre um tem incontornável: o racismo de que Marega foi alvo no jogo Vitória de Guimarães - FC Porto

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL RIOPA

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E aos 71’ Moussa Marega abandonou o jogo. Eis tudo o que interessa saber sobre o jogo de Guimarães. Sabem como é, ou talvez não saibam, mas eu digo-vos: uma pessoa aguenta, aguenta, aguenta até que um dia não aguenta mais e faz o que já devia ter feito há muito tempo. O que outros já deviam ter feito há muito tempo. Quem agarrou Marega, quem tentou demovê-lo, não foram os companheiros nem alguns adversários, fomos todos nós. Vá lá, Marega, aguenta mais um bocadinho. Isso é o que eles querem, que desistas, que te vás embora. Se saíres do campo eles ganham, etc. Naquele momento, devem ter pensado, enquanto o seguravam, que estavam a chamá-lo à razão, mas a razão estava com ele. Quem tinha razão, quem tinha a razão, era Marega porque a razão não se reduz à frieza e ao cálculo. Por vezes a razão, para que todos a percebam, para que até os mais básicos vejam onde está, tem de vir acompanhada de fúria e indignação.

Claro que Marega podia ter aguentado. Claro que Marega, como ele próprio e tantos outros antes dele, podia ter respondido em campo. Claro que Marega podia tê-los deixado a ouvir o eco dos seus grunhidos simiescos. Claro que Marega. Claro que Marega. E hoje, se Marega ontem “claro que Marega”, estaríamos a falar da dignidade de Marega e a dizer que é assim que se responde aos racistas e aos energúmenos e a condenar o comportamento de alguns adeptos e a pedir a intervenção das autoridades. Só que Marega, farto de paninhos quentes, farto de lhe atirarem merda para cima e ter de a limpar com um lenço, disse “Chega!” Ou achavam que dizer “Chega!” é privilégio de alguns iluminados? Disse “chega!” e aquilo que seria mais um pequeno tremor de terra transformou-se num enorme terramoto.

A partir de agora ninguém vai poder fingir, ninguém vai poder fechar os olhos e tapar os ouvidos, ninguém vai poder dizer que a vítima tem de aguentar, que um profissional de futebol por ser muito bem pago tem de servir de latrina aos boçais, que um futebolista negro, por ser futebolista e ser negro, tem de ouvir aquilo que já ninguém ouve sem se revoltar, que os estádios de futebol devem ser santuários de podridão onde os piores instintos da nossa sociedade são tolerados e desculpados. E ninguém vai poder fazer de conta que tudo o que se passa nos estádios de futebol é normal porque houve um homem que teve a coragem de mostrar que há limites. Esse homem foi Marega.

A minha solidariedade não é para o clube de Marega, nem a minha censura é para o clube dos adeptos que o insultaram, apesar das declarações infelizes dos seus dirigentes. E é pena que nem todos tenham percebido que, antes de ser jogador de um clube, Marega é um homem. Foi isso que ele lembrou a todos os que assistiam ao jogo quando, ao comemorar o golo, apontou para a cor da pele e não para o símbolo do clube ou para a camisola. Um homem. De camisola um homem muda, mas de pele, não. E daqui para a frente todos os homens que têm a mesma cor de pele mesmo que, por cima, vistam outra camisola, saberão que têm o direito, mais, que têm a obrigação de não aturar insultos, que têm o dever de sair do campo em vez de aguentar a humilhação, aguentar a vergonha e desculpar tudo com as particularidades do futebol e as emoções dos adeptos.

Desculpem lá, mas não há outras palavras: que se fodam as emoções dos adeptos. A paixão por um clube não é desculpa. Não pode ser. E o futebol não pode ser o refúgio preferencial dos idiotas e dos frustrados que, protegidos pela impunidade das emoções, vomitam ali tudo aquilo que engolem no dia-a-dia. Marega traçou uma linha vermelha. Sair do jogo não foi um ato de desistência, mas de revolta e de resistência. Hoje é fácil estar do lado de Marega. Mas a nossa facilidade assenta na coragem dele. Na coragem de um homem que nunca há de marcar golo mais belo nem mais importante.