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Crónica

O pugilista Marcos Acuña

"É o ar combativo de pugilista do jogador argentino que conquista os adeptos, até os menos assíduos", sentencia o escritor Bruno Vieira Amaral sobre o lateral do Sporting

Bruno Vieira Amaral

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A minha mulher é sportinguista, dois defeitos que nem todos lhe perdoarão. Como sportinguista que convive diariamente com o inimigo e, de há anos a esta parte, com o insucesso, desenvolveu uma espécie de sentido complementar, uma lucidez penetrante e resignada que lhe permite assistir a jogos e competições perdidos à partida sem dizer demasiados palavrões. Além disso, mesmo desconhecendo o nome da maioria dos jogadores, defeito que não deve ser apressadamente atribuído à propensão dos cérebros femininos para uma gestão económica da informação desportiva, consegue captar a essência de um jogador com um único relance.

Por exemplo, sobre Doumbia, outrora identificado por aquela mancha capilar de um amarelo que lembrava o invólucro de umas antigas tabletes de chocolate com amendoim que se vendiam na estação dos barcos, a minha mulher proferiu a inapelável sentença: “que nódoa!”

A reação a quase todas as intervenções dos jogadores é invariavelmente um meneio de cabeça acompanhado de um trejeito de desgosto e a pergunta retórica “mas quem é aquele gajo?” Se admitirmos que estes atletas foram contratados com base em extensos e pormenorizados relatórios sobre o seu desempenho em campo, hábitos culturais e traços de personalidade, temos de reconhecer que a alguns departamentos de futebol aproveitaria, em jeito de contrapeso, um olheiro com a lacónica inteligência da minha mulher.

À exceção de Bruno Fernandes, cuja intocabilidade junto da massa adepta leonina só encontrava paralelo com o dogma da infalibilidade papal, o único jogador que tolera é o argentino Acuña. Não tanto pela excelência do desempenho desportivo, mas pela atitude indómita e proletária que, no meio de um marasmo generalizado, de um ambiente semicomatoso, se destaca como uma declaração de princípios, como se Acuña fosse o único soldado de um exército derrotado que se recusa a aceitar os termos da rendição.

Creio que isto se deve ao facto de Acuña ser um tipo de jogador invulgar. O tipo de jogador cuja linguagem corporal e facial afirma claramente que o futebol é um acidente de que não tardará a livrar-se. Acuña, digo eu, preferia estar a acarretar sacas de café no porto de Santos, a calcetar ruas nos bairros pobres de Buenos Aires, a beber mate numa fazenda a centenas de quilómetros do ser humano mais próximo, do que a fazer piscinas pelo corredor esquerdo do relvado de Alvalade, num esforço inglório de Sísifo.

Hoje, desde que entram nas escolinhas até ao momento em que ascendem ao Olimpo das primeiras páginas, os jogadores de futebol comportam-se de acordo com uma ideia estelar de jogador de futebol. Muitos dizem que não se imaginam a ser outra coisa, não por carência de imaginação ou de interesses, embora a prática do futebol desde tenra idade atrofie outros talentos, mas porque ser jogador de futebol é um conceito totalitário na medida em que penetra todas as esferas da vida.

Lembrei-me agora de uma frase de Ramalho Ortigão, lida há pouco tempo num livro, segundo a qual todos os homens são duas coisas, por exemplo, bancário e filatelista, advogado e pintor de aguarelas, e que essa segunda coisa é o que gostariam de ser. Já os futebolistas são uma única coisa e essa coisa única que são é o que gostariam de ser. Por isso é-lhes tão custosa a reinvenção quando a carreira, necessariamente breve, termina. Posso estar enganado, claro, mas Acuña, com o seu ar de homem comum, com o seu estilo de jogo rugoso e briguento, devolve ao futebol uma dignidade oficinal há muito perdida, a do jogador que veio da rua e que nenhuma camada de verniz, nenhum filtro, transformará num boneco das redes sociais. Ele é futebolista como outros são sapateiros, carpinteiros ou pescadores.

Quando, no mercado de janeiro, se falou da possível transferência de Acuña para o Mónaco, sorri de desgosto. Um clube artificial, sem adeptos nem calor humano, situado no paraíso dos multimilionários, onde se vendem casas por 50 milhões de euros e onde se vive na atmosfera socialmente rarefeita dos condomínios fechados, seria o último lugar do mundo para um jogador com as características de Marcos Acuña. (É engraçado que, ao escrever esta crónica, apagou-se-me o nome de batismo de Acuña. Antes de ir ao Google, emprestei-lhe nomes temporários como Leandro, Silvestre, Eucadio, embora sabendo que nenhum deles era o verdadeiro pois nenhum deles encaixava na minha memória auditiva nem na imagem do rosto dele que se desenhava na parede branca da folha de papel.)

Não quer dizer que, um destes dias, não o vejamos no estádio Louis II, a trabalhar com o mesmo afinco, dedicação e raiva imanente com que hoje o vemos em Alvalade. No futebol manda o dinheiro, já se sabe. Eu é que prefiro imaginá-lo a pendurar as chuteiras e, com o seu físico de peso-médio, a subir para o ringue e a golpear adversários com a mesma intensidade com que pega na bola e arrasta atrás de si uma equipa dormente. É isso. É o ar combativo de pugilista do jogador argentino que conquista os adeptos, até os menos assíduos.