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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O país está infetado por um vírus que não afeta o pulmão, mas destrói toda uma nação. Está tudo tão podre que tresanda

Muito raramente me ouviram falar sobre assuntos que não estejam relacionados com futebol e há algumas razões para isso: não gosto de me pronunciar sobre temas que não domino em profundidade; sei que uma opinião mal interpretada será mais depressa utilizada como arma de arremesso do que como instrumento de reflexão; e penso que o advento galopante das redes sociais já fez emergir um número considerável de "Achistas" e "Tudólogos". Já há gente a mais a achar que sabe demais. Sendo essa a regra, há momentos de exceção e este é um deles

Duarte Gomes

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Sou um cidadão português daqueles genuínos, que tem orgulho no seu país e nas mil e uma qualidades que o caracterizam. Dá-me gozo ver turistas a falar deste nosso cantinho como se ele fosse particularmente especial. Porque, de facto, é.

Confesso. Arrepia-me forma como se referem ao nosso mar e comida, à beleza natural das nossas encostas e à luz imensa das suas cidades, à gastronomia e ao bom vinho, à temperatura e à simpatia do nosso povo. Gosto quando nos dizem que somos pessoas boas e de bem e que, por cá, a sensação é de paz permanente, de segurança e de bem-estar.

“Qualidade de vida”, repetem vezes sem conta. “Qualidade de vida”.

Aos olhos de um mar de gente, Portugal é distinto e mágico. Portugal é belo e perfeito. Portugal é tudo. Só que não.

Para quem vive cá, há a noção crescente que as coisas não são como parecem. A face mais feia e visível dessa constatação é a ideia de corrupção crescente que parece reproduzir-se um pouco por todo o lado.

Essa onda de criminalidade, que parece agora ser moda mas em mau, não tem um rosto definido. Não é palpável. Não se vê. Mas tal como o vento, sabemos que existe. Basta senti-la e cheira-la. Basta intui-la.

Os sinais estão todos no ar, a sussurrar-nos diariamente que há um número considerável de coisas desajustadas, de pessoas gulosas e de estratagemas maliciosos.

Não se trata de pensar de forma negativa ou de ser alarmista. Não alinho em teorias de conspiração ou em cabalas de espécie alguma. Mas esta é, de facto, a verdade dos factos e só alguém demasiado lírico ou romântico é que não a enxerga.

O número galopante de "casos de polícia" é assustador, tendo em conta um universo tão pequeno como o nosso. E não. Não me refiro às Rosas Grilo da vida nem às claques desvairadas que partem tudo nos estádios. Não me refiro, sequer, às drogas e armas que se vão encontrando em bairros complicados ou às rixas pontuais que acontecem à porta de discotecas.

Refiro-me à caça grossa. Aos tubarões da nossa praça. Aos banqueiros e empresários, aos políticos e magistrados e a todos aqueles que têm, em mãos, mais poder do que deviam, podiam e mereciam.

É certo e sabido que em todas essas esferas portentosas moram homens e mulheres decentes, profissionais dignos e pessoas sérias, honestas e de bem. E é nesses que reside a esperança. A esperança que, um por um, consigam atirar para uma cela minúscula todos os pequenos monstros que circulam impunes, a sujar o nome de um povo e a beleza de um país.

E porque o fazem, perguntamo-nos? Por muito pouco. Poucochinho. Para, durante uns tempos, terem uma mão cheia de poder e um bolso recheado de notas. Como se isso fosse preencher o vazio enorme de serem uns labregos de alma cinzenta, desprovida de moral, valor e valores. Podem até ser ricos e poderosos, mas coitados... serão sempre pobres e impotentes.

O certo é que, por força dessa maré emergente de papões engravatados, as pessoas estão cada vez mais tristes, revoltadas e descrentes.

São poucos os que acreditam na justiça da justiça. A nossa perceção, a perceção pública, está triste, conformada e rendida.

Está atrás das grades o "ladrão que roubou o feijão" e está a morar na mansão o corrupto que engoliu o bilião. Está a negociar a penhora o cidadão que falhou a prestação e está no paraíso fiscal o milionário que não declarou um tostão.

É o mundo invertido. A verdade de pernas para o ar. A justiça atropelada, esmagada, desfeita.

Há ex-governantes que furtaram milhões e que se passeiam à luz do dia. Há "Donos Disto Tudo" que subtraíram as poupanças de uma vida de milhares de pessoas decentes. Andam por aí, soltinhos, a usufruir das dezenas de milhares de euros de reforma mensal. Há fugas de informação estratégicas que partem dos únicos sítios onde nunca poderiam partir. Há delitos graves cometidos por forças da autoridade, magistrados e agentes com responsabilidades. Há cenários apocalípticos em autarquias, instituições e empresas públicas, onde se evidenciam promiscuidades familiares, facilitação de concursos e desvios de fundos públicos. Há adulteração sistemática das regras. Há subornos e aliciamentos a toda a hora, em todo o lado. Há épicas fugas ao fisco. Há leviandade burocrática na análise de processos importantes. Há recursos e mais recursos até que as prescrições vençam e os vigaristas se safem. Há todo um emaranhado de conivências e delinquência, perpetuado por pessoas com cargos de topo e ética de soalho.

Está tudo tão podre que tresanda.

Portugal, o país maravilha que muitos veneram e que nós tantos amamos, está infetado por um vírus que não afeta o pulmão, mas destrói toda uma nação.

Nós não somos uma fraude mas vivemos entre muitas pequenas fraudes.

É preciso muita coragem para mudar e a mudança acontece com a denúncia e investigação, com a exposição, o julgamento e a condenação.

Portugal é mais, muito mais do que meia dúzia de trafulhas. Tal como não foram outros antes, também não serão estes agora a sujar séculos e séculos de grandeza histórica e imagem límpida.

Era o que faltava...