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Desta vez não houve piadinhas, os papagaios dos departamentos de comunicação perderam o pio, não houve toupeiras, cartilhas e e-mails

Bruno Vieira Amaral escreve sobre a hecatombe europeia que se abateu em cima das equipas portuguesas na UEFA

Bruno Vieira Amaral

Soccrates Images

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A hecatombe europeia – quatro clubes dizimados em dois dias, três derrotas, duas delas em casa, um empate inglório, uma eliminação caricata em Istambul e um saldo deprimente de golos – teve a virtude de pôr conhecidos incendiários a discutir meios de prevenção e combate aos fogos. Nos últimos anos, a prestação dos clubes portugueses nas provas europeias tem sido pouco melhor do que medíocre. Por exemplo, desde que o Benfica chegou à final da Liga Europa, em 2013/14, nenhum outro clube chegou às meias-finais de qualquer competição. O melhor, ainda assim, foi conseguido pelo Porto, ao atingir os quartos-de-final da Champions, meta que, a continuarmos assim, qualquer dia dará direito a um troféu doméstico.

Porém, os resultados medíocres globais não impediram que se instituísse uma narrativa enviesada sobre a Europa como crivo da verdadeira qualidade das equipas. Objetivo: desvalorizar as conquistas internas do Benfica, como se os desempenhos dos restantes clubes lá fora tivesse sido excelente. Este ano, depois da tragédia do Krasnodar e a eliminação limpinha, limpinha com um Bayer Leverkusen que é uma boa equipa, mas não é um colosso, a narrativa do paradoxo dos resultados do Benfica deu lugar a uma reflexão profunda e séria sobre “o futebol português”, a competitividade do futebol português, o que queremos para o futebol português, quo vadis, futebol português?, num fado chorado por todas as cores.

Como foram todos corridos, sem apelo, nem agravo, pela escola de samba de Donetsk, por uns esforçados escoceses (passe o pleonasmo), por um entreposto otomano de jogadores à beira da reforma e pelo quinto classificado da Bundesliga, desta vez não houve piadinhas, os papagaios dos departamentos de comunicação perderam o pio, os comentadores dos programas de televisão tinham o ar perplexo de quem acabou de assistir à queda das Torres Gémeas e dir-se-ia que os jogos nem tiveram equipas de arbitragem em campo porque ninguém falou do talho de Björn Kuipers ou do café de Mateu Lahoz. Não houve esperas nem ameaças de adeptos excitados e tivemos até direito a uma rara e intrigante declaração de um adepto do Porto que escreve nos jornais: dizia-se satisfeito com o desempenho da equipa. (Parece óbvio que, a um ponto da liderança, depois de um atraso de sete, os adeptos não querem desestabilizar a equipa cobrando-lhes em demasia a performance nos jogos europeus).

Puseram todos a melhor cara de conselheiros de Estado – consternados e compungidos – e, em vez de toupeiras, cartilhas, e-mails e penáltis, peroraram sobre as razões das desigualdades no futebol português (se não estou em erro, acho que um até citou Thomas Piketty), os estádios vazios, os horários dos jogos, a formação, etc, etc, etc, num desfiar de desgraças que teria feito cair uma civilização, um império, quanto mais o arruinado edifício do futebol clubístico em Portugal. Digo clubístico porque é de louvar a posição da FPF, apostada em conservar uma distância higiénica em relação ao pântano dos clubes para que a sua galinha dos ovos de ouro, a seleção nacional, não seja contaminada pelos agentes patógenos que circulam livremente mesmo ali ao lado.

O que todos sabem é que este período de nojo será de curta duração. O primeiro teste à ponderação e recolhimento provocados pelo desastre europeu acontecerá já esta noite. Ao primeiro lance duvidoso dar-se-á por terminado o período de reflexão e choverão os comunicados e tweets e posts. A meridiana clareza das eliminações na Europa será substituída por um emaranhado de acusações em que se falará de relatórios e contas, vouchers e, inevitavelmente, de Inocêncio Calabote. As insuficiências das equipas – cruelmente expostas por adversários medianos – serão disfarçadas com os exercícios cosméticos do costume. A partir de agora o que interessa é garantir o acesso à Champions, numa disputa que tem tanto de desporto como a corrida de dois náufragos para se agarrarem a uma boia. É a luta pela sobrevivência e, como todas as lutas pela sobrevivência, não será um espetáculo para estômagos sensíveis.

PS: semanas atrás, todos lemos uma extraordinária declaração do jogador do Famalicão, Fábio Martins após o jogo contra o Benfica para a Taça de Portugal. Uma declaração lúcida e apaixonada de quem vive o futebol com o coração, mas sem perder a cabeça. É uma derrota para todos que não haja mais jogadores, seja por opção ou por restrições impostas pelos clubes, a falar abertamente, de forma tão corajosa e límpida como fez Fábio Martins. O problema é que, para cada Fábio Martins talvez aparecesse um Makaridze, guarda-redes do Vitória de Setúbal que, após o jogo com o Portimonense, assumiu que preferia perder todos os jogos até final do campeonato do que perder com o Benfica. É certo que seria mais grave se tivesse dito que preferia perder pontos com o Benfica e que podemos desculpar as declarações com a menor oxigenação cerebral no final do jogo e à gorada contratação do guarda-redes georgiano pelo Benfica no mercado de inverno. Mas se os jogadores se queixam, e com toda a razão, de serem por vezes os alvos fáceis de suspeitas, seria conveniente que, com o futebol português a arder, não lançassem mais “achos” para a fogueira.