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Inadmissível, incompreensível, problemática: Nicolau Santos escreve sobre a saída de Silas e a entrada de Amorim

Nicolau Santos escreve a propósito das últimas medidas da direção liderada por Frederico Varandas, porque o facto de Rúben Amorim ter ganho ao Sporting não é uma proeza espetacular - quase toda a gente ganha ao Sporting

Nicolau Santos

OZAN KOSE

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A administração do Sporting liderada por Frederico Varandas acaba de contratar um novo treinador para dirigir a equipa principal de futebol, o vigésimo quarto desde 2000. Só por si isto já seria indício da gravíssima instabilidade que existe no clube em matéria do comando técnico e a constatação óbvia que não é por mudar de treinador muitas vezes que se chega ao sucesso. Mas Varandas, que está sob pressão das claques, dos maus resultados e das apostas falhadas nos seis treinadores que entretanto contratou desde que há ano e meio chegou à liderança do clube não resistiu a fazer o mais fácil.

Acontece que quem sai mal de todo este processo não é Silas, que se portou de forma exemplar, conduzindo a equipa num momento em que por toda a parte já pipocava a notícia de que esse seria o seu último jogo e que iria ser substituído pelo treinador do Sporting de Braga. Quando o descalabro desta época era evidente, Silas aceitou orientar o Sporting a meio da temporada, em condições muito difíceis e com uma equipa manifestamente pouco competitiva. Fê-lo sublinhando que era uma honra para ele treinar os leões, um lugar ambicionado por muitos.

Mas Silas fez mais, saindo como um grande senhor. Foi ele que anunciou depois do jogo com o Famalicão que esse tinha sido o seu último desafio como treinador do Sporting e quem seria o nome que se lhe seguiria, que elogiou bastamente e para quem pediu muita ajuda nas futuras funções. Disse-o sem ter ao seu lado nem Frederico Varandas nem nenhum outro dirigente da atual administração. É lamentável que tenha sido assim. Não é admissível que num clube profissional de futebol isso possa acontecer. E muito menos é admissível num clube como o Sporting Clube de Portugal que se reivindica diferente dos outros, mas que cada vez parece ser mais diferente mas… para pior.

Acontece que também não é Ruben Amorin que sai mal deste processo. Foi contactado, aceitou o convite, o Sporting contrata-o por 10 milhões de euros, o valor mais elevado alguma vez pago por um treinador em Portugal. Mas a pergunta é: o que recomenda Ruben Amorim para treinar o Sporting? O facto de à frente do Braga ter tido, em dez jogos, alguns resultados espetaculares, ganhando ao Sporting (quase toda a gente ganha ao Sporting, não é proeza de vulto), ao FC Porto e ao Benfica (sim, nestes casos foi uma proeza, mas tanto num como noutro jogo o Braga teve a estrelinha da sorte)? O facto de ter sido eliminado pelo Glasgow Rangers, perdendo o jogo na Escócia, depois de estar a ganhar por 2-0 e perdendo igualmente a segunda mão na cidade dos arcebispos? Ou o facto de também não ter ainda o curso de treinador profissional de futebol, o famoso nível IV, como Silas não tinha? O que é que Ruben Amorim fez antes que o permita recomendar para uma casa tão complicada como a de Alvalade? Não será que o Sporting precisa antes de um treinador calejado, com provas dadas, reconhecido e respeitado pela massa associativa, em vez de um jovem que chegou agora à I Liga?

Tenho apoiado o combate de Frederico Varandas pela maior transparência no futebol português, na luta contra a violência, no combate contra as claques organizadas. Mas esta decisão é incompreensível e não merece aplauso. Penso, aliás, que é a última bala de prata que Frederico Varandas tinha para disparar. Se não acertar, cai com ela. O que é que leva uma administração a substituir o treinador de futebol a onze jornadas do fim quando já não há nada para ganhar e mesmo o terceiro lugar começa a ser uma miragem? Porque não deixar Silas conduzir o barco até ao fim, tanto mais que já conhecia os jogadores e estes estavam adaptados aos seus métodos de trabalho (sim, com poucos ou nenhuns resultados – mas alguém que chega de fora consegue dar a volta à situação em três meses?)?

O risco maior da contratação de Ruben Amorim nesta altura é ele perder vários dos onze jogos que faltam até ao final da temporada e chegar à próxima época já desgastado e com a credibilidade em baixa junto da massa associativa. O problema do Sporting assenta em primeiro lugar na falta de uma equipa competitiva e com jogadores de grande qualidade. Por muito que doa aos sportinguistas, a atual equipa principal do clube pode lutar por ser a melhor do nosso campeonato do terceiro lugar para baixo, porque está em todos os níveis a léguas de distância dos dois primeiros. É claro que um bom treinador ajuda a encurtar distâncias mas não resolve o problema da falta de excelente matéria-prima. Ruben Amorim não vai conseguir tirar leite das pedras, assim como Silas não conseguiu. E arrisca-se a não suportar uma nova época de frustrações leoninas.

Quanto a Frederico Varandas, com esta sua decisão não ganha o apoio dos que o criticam violentamente e lança uma enorme perplexidade em todos aqueles que tem estado com ele e que lhe deram a vitória nas últimas eleições para a presidência do clube. Ele que tem a clara consciência que o clube precisa de tempo e serenidade para voltar às vitórias cedeu à pressão e ao imediatismo. Não é por esta via que o Sporting voltará aos títulos.

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