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O doutor Varandas resolveu arriscar uma terapia de choque e aliviar-se de dez milhões para trazer um novo treinador

Bruno Vieira Amaral escreve sobre as últimas do futebol: da porta fechada, a Lage e, inevitavelmente, a contratação de Rúben Amorim

Bruno Vieira Amaral

Bill Murray - SNS Group

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Durante alguns minutos vi o jogo entre a Juventus e o Inter. Sem adeptos nas bancadas, o ambiente era desolador. Dybala marcou um golo para pendurar no Louvre e, em vez do rugido coletivo da multidão, ouviram-se uns gritinhos esparsos dos colegas no banco e talvez dos jornalistas. Uma tristeza. Sem público no estádio um jogo de futebol parece sempre um encontro dos distritais.

Ronaldo? Higuain? Lukaku? Sem o ruído e a cor de fundo confundem-se com aqueles mortais que, ao domingo à noite, nos arredores das grandes cidades, alugam campos para esquecer o tédio conjugal e reviver fantasias juvenis de uma glória nunca atingida.

O futebol é como o sexo. É muito melhor com um certo ambiente, a encenação, os preliminares. Sem a cenografia do espectáculo reduz-se à sua dimensão maquinal, puramente atlética: vinte e dois homens a correr atrás de uma bola com o intuito de marcar golos, mas sem a recompensa dos aplausos ou o temor dos apupos.

Vinte e dois homens a cumprir o dever empresarial de jogar à bola, como se estivessem a ensaiar uma peça que nunca será levada à cena.

Em Portugal, até ao momento, o Coronavírus só obrigou ao cancelamento de três jogos da Associação de Futebol do Porto, embora não seja preciso nenhum vírus para que os nossos estádios estejam regularmente vazios. Os valentes que ainda insistem em ir aos estádios, sobretudo os adeptos dos três grandes, não têm tido razões para grandes entusiasmos.

No Bonfim, uma bancada bem composta por adeptos do Benfica despediu-se da equipa com impropérios e os inevitáveis lenços brancos. Semanas atrás, creio que depois do jogo com o Santa Clara, escrevi, não sem alguma mágoa, que este Benfica trazia lembranças funestas dos tempos de Trappatoni e de Quique Sanchéz-Flores. Alguns benfiquistas criticaram-me o exagero e o pessimismo e puxaram do até então praticamente imaculado currículo de Bruno Lage, o seu rol sobrenatural de vitórias, para, segundo eles, “pôr as coisas em perspetiva.”

Hoje já falam do regresso ao Vietname, àquela década negra em que nem sequer se via um túnel ao fundo da Luz. Se a administração da SAD esperava que a divulgação dos resultados semestrais ajudasse a atenuar os sentimentos negativos, pode dizer-se que o tiro lhe saiu pela culatra. É que o Vietname foi um período de descalabro total em que as terríveis épocas desportivas eram um reflexo fidedigno da confusão diretiva e dos cofres depauperados.

Agora o que se pede ao adepto é muito mais difícil: que concilie uma anunciada e, aparentemente inédita, robustez financeira, os lucros formidáveis, o ativo faraónico com a miséria que, nas últimas semanas, a equipa insiste em exibir em campo. Enquanto a SAD respira saúde, os jogadores arrastam-se em campo como moribundos. Tão ricos e tão pobres.

Do outro lado da segunda circular, confrontado com a mesma pobreza em campo e uma situação financeira oposta, o doutor Varandas resolveu arriscar uma terapia de choque e aliviar-se de dez milhões de euros para trazer um novo treinador. Um amigo meu, com particular tendência para os sofismas, perguntou-me o que achava da contratação de Rúben Amorim.

A minha resposta, julgava eu, não podia ser mais sensata: se eu fosse presidente de um clube e tivesse dez milhões de euros para contratar um treinador não contrataria Rúben Amorim. Descontente com a minha sensatez, o meu amigo procurou encurralar-me. Então, é uma questão de dinheiro? E se fosse três milhões? Ou um milhão?

Disse-lhe que, na minha humilde opinião, despedir um treinador como Silas quando já não estava nenhum troféu em jogo para ir buscar um outro treinador seria sempre uma opção estranha. Juntar a essa decisão estranha o pagamento de dez milhões de euros a um clube rival para contratar um treinador com uma experiência de dezena e meia de jogos já é entrar no domínio da psiquiatria. O meu amigo, sportinguista, diga-se, não desarmou: e se correr bem? Suspirei. Como é que se pode responder a tamanha demonstração de fé e de crença? Se correr bem, então esta será a melhor decisão estúpida da história do futebol.

Pelo que se viu em Alvalade, são poucos os adeptos que partilham o otimismo deste meu amigo. Alguns milhares protestaram antes do jogo, nas imediações do estádio. O guarda-redes Max foi assobiado após uma jogada infeliz. Rúben Amorim também ouviu assobios quando tirou o macedónio Ristovski. Até a insuspeita Maria José Valério foi vaiada pelo tribunal leonino.

É neste estado que se encontra a nação verde-e-branca e nunca seria uma contratação como a do ex-treinador do Braga a sossegar os ânimos. Pelos vistos, o presidente do Sporting estava convencido do contrário, acreditava que a sua mirabolante aposta tranquilizaria os adeptos.

Foi o próprio que o deu a entender ao argumentar que se fossem outros (quem?) a tomar a mesma decisão seriam considerados génios. É difícil imaginar alguém a ser rotulado de génio por pagar dez milhões de euros ao Braga por um treinador com o currículo de Rúben Amorim, mas o facto de o presidente do Sporting julgar que sim é a prova inequívoca da confusão mental em que vive. Neste momento, deve ser o português mais ansioso para que os jogos da Primeira Liga sejam disputados à porta fechada.