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Simeone jogou com um dos melhores guarda-redes do mundo. Klopp teve na baliza um simpático empregado de um bar de tapas

A ressurreição do cholismo e a banalidade de Klopp é o tema desta semana de Bruno Vieira Amaral.

Bruno Vieira Amaral

Laurence Griffiths

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De repente, tudo ficou cinzento, pardo, triste. Não há futebol e nos programas de comentário sobre futebol, onde já pouco futebol havia, há agora, além da ausência de futebol, um clima sinistro, fúnebre.

Felizmente acabaram com os jogos à porta fechada, aqueles em que os gritos dos treinadores ecoavam pelas bancadas e cada pontapé na bola era uma pancada surda e ominosa, um dobre de sinos futebolísticos.

Sem os adeptos era como se os jogadores estivessem a representar uma peça absurda, como se os seus gestos nos aparecessem despidos na nudez de esqueletos e nos apercebêssemos de que nada daquilo faz sentido. Quando se vê jogadores a festejarem num estádio vazio o que se vê não são os festejos, é o vazio.

Mas deixem-me recuar até àquele tempo mítico e distante, àquela idade de ouro onde colhíamos inconscientes os frutos da nossa juventude e da nossa inocência, permitam-me, pois, ir até à semana passada.

Tinha vontade de escrever sobre Ronaldinho Gaúcho, comentar os excessos adiposos do seu irmão, Roberto Assis (mas que de franciscano pouco terá), e as suas aventuras paraguaias, e imaginar o que terão pensado e sentido os reclusos que, de um momento para o outro, viram a sua liga penitenciária abrilhantada por um dos melhores jogadores de sempre.

Porém, a desilusão com as palavras de Jürgen Klopp falou mais alto do que o rocambolesco Ronaldinho.

É verdade. Depois de ter dado uma lição ao mundo sobre o coronavírus, recusando falar sobre aquilo que não sabe, Klopp vestiu o hábito talar e, à boa moda catalã, pôs-se a fazer queixinhas catedráticas sobre o pobre futebol do Atlético de Madrid, equipa que acabara de eliminar o Liverpool.

Os seus jogadores, que tantas alegrias nos têm dado neste último ano, não o deixaram sem apoio e apressaram-se a criticar o estilo dos pupilos de Simeone: só defendem, isto assim não é futebol, jogadores tão bons fechadinhos lá atrás, etc., naquele género de relambório que eu só julgava possível em criaturas formadas ou aclimatadas no Barcelona.

Como um Xavi Hernández nos seus tempos áureos, Klopp e os jogadores do Liverpool reagiram a um desaire com a perplexidade aristocrática de quem não percebe porque é que o adversário não lhes franqueou, com veneração e cavalheirismo, o acesso aos portões da baliza.

Quem são estes bárbaros, ter-se-ão perguntado, que ousam visitar o nosso reduto sem jogar num esquema 2x2x2x2x2, abrindo alas à passagem da nossa triunfante locomotiva? O treinador alemão falou dos três mil remates, da posse de bola esmagadora, com o mesmo tipo de superioridade estético-moral propalada pelo Barça de Guardiola.

Nem parecia que estávamos a ouvir um dos homens que mostrou ao mundo que havia vida para lá do tiki-taka, que era possível jogar um futebol de ataque, pressionante e vertiginoso, sem andar a mastigar a bola no meio-campo durante noventa penosos minutos.

E também não parecia que o Liverpool tinha perdido os dois jogos. Já no prolongamento, o Liverpool teve a eliminatória na mão. Não soube ou não conseguiu fechá-la. Quando o Atlético se viu em desvantagem pela primeira vez foi à procura do golo e o golo apareceu. E depois apareceu outro e, para que não restassem dúvidas, outro. Simeone teve sorte? Sim, tal como o Liverpool também teve sorte no ano passado na eliminatória contra o Barcelona.

Além de sorte, Simeone teve Oblak. Klopp sabe melhor do que ninguém a diferença que um bom guarda-redes faz. Aí esteve a chave para esse grande mistério do triunfo de Simeone: jogou com um dos melhores guarda-redes do mundo enquanto o Liverpool, privado de Alisson, teve na baliza um simpático empregado de um bar de tapas.

Já aqui disse, e por mais de uma vez, que um bocadinho de mau perder não fica mal a ninguém, mas Klopp habituou-nos, se calhar mal, a esperar sempre algo diferente, um rasgo, um discurso contra-corrente, contra as vagas de lugares-comuns.

Afinal, na derrota foi igual aos outros.

O bom vencido não é aquele que reconhece a superioridade de um adversário que acabou de o esmagar. O bom vencido é aquele que reconhece a superioridade do adversário que o frustrou.

Quando uma equipa funciona como uma máquina, como é o caso do Liverpool, o objetivo do adversário não é demonstrar superioridade, mas emperrar a máquina, pôr o grãozinho de areia na engrenagem que desespere os operários qualificados que a controlam.

É o problema das equipas muito boas e que ganham muitas vezes. De início, há uma grande humildade, mas o hábito das vitórias traz com ele um certo sentido de superioridade, de direito divino a vencer.

Por isso, quando aparece um adversário capaz de bloquear a máquina a reação, em vez de ser “como é que vamos ultrapassar este problema?”, passa a ser “como é que estes esfarrapados se atrevem a estragar a nossa máquina tão oleada, tão vistosa?”. E enquanto os operários tornados fidalgos se debatem com este problema, os salteadores comem-lhes as papas na cabeça e rapam-lhes os cofres.

Quase no fim do jogo, a cara de Trent Alexander-Arnold dizia tudo. Estava lixado. Frustrado. Era como se dissesse em voz alta: “somos melhores do que estes gajos e não lhes conseguimos ganhar”. Mas ainda não tinham ouvido falar do cholismo? O cholismo é isso.

Jogar como um bando de salteadores, partindo do princípio de que o adversário é sempre superior, uma postura que é particularmente útil quando o adversário é, de facto, superior e que pode ser incapacitante quando o adversário é mais fraquinho.

Se Simeone pudesse escolher não duvido que preferia jogar todas as semanas contra o Liverpool, o Barcelona ou o Real Madrid. Meses atrás o cholismo estava morto. Agora ressuscitou e, com os seus movimentos de morto-vivo, pregou tamanho susto a Jürgen Klopp que o deixou a falar como um treinador banal.