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Uma crónica sobre carniceiros, cuspidelas, cartões vermelhos, expulsões e o Arregaça (por Bruno Vieira Amaral)

Volto ao Arregaça, o campo de alcatrão onde, na minha infância, muitos talentos se revelaram e poucos se aproveitaram. Com boa vontade, dava para cinco jogadores de campo e um guarda-redes em cada equipa

Bruno Vieira Amaral

A cuspidela de Rijkaard em Völler, no Holanda - Alemanha, no Mundial de 90, em Itália

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Volto ao Arregaça, o campo de alcatrão onde, na minha infância, muitos talentos se revelaram e poucos se aproveitaram. Com boa vontade, dava para cinco jogadores de campo e um guarda-redes em cada equipa. As balizas de ferro eram precárias e perigosas (só mais tarde as fixaram no chão) com pequenos aros de ferro na parte interior dos postes que deveriam servir para pôr redes.

Mas só em ocasiões especiais – festas da Junta ou torneios que mobilizavam algumas coletividades financiadas pela carolice de alguns pais, geralmente homens de bigode e óculos de fundo de garrafa que, na juventude, tinham jogado nas distritais e aspiravam a deixar uma marca no dirigismo desportivo local – é que punham lá as redes que, terminados os torneios, eram rapidamente removidas por funcionários municipais que as guardavam, como tesouros, em armazéns com latas de tinta, caixotes do lixo estragados e carrinhos de mão ferrugentos.

Graças ao excesso de zelo dessa guarda pretoriana dos bens públicos, jogávamos sempre sem redes, o que nos jogos mais rasgadinhos, quando em jogo só estava o nosso orgulho infantil e a aversão à derrota, significava longas discussões sobre se a bola entrara mesmo. O consenso era difícil. Para quem estava de fora, à espera de entrar, a bola entrava sempre. Quando o lance era decisivo, o segundo golo no roda-bota-fora, os derrotados agarravam-se com unhas, dentes e má-fé às dúvidas que só existiam nas suas cabeças, terçando trajetórias impossíveis como espadachins num duelo de floretes.

Numa altura em que muitos de nós tínhamos dificuldades na aritmética mais simples, os quase-derrotados eram possuídos pelo espírito de Newton e garantiam que, fisicamente, era impossível que a bola, chutada do meio campo, tivesse passado pelo meio das pernas do Zé Maluco. Na iminência da derrota, um evidentíssimo frango transformava-se num debate interminável sobre as leis da física.

Mas não nos faltavam apenas redes. Às vezes, também não tínhamos bolas de qualidade. Os habituais guarda-redes, esse bem tão escasso e precioso no futebolzinho suburbano, nem sempre apareciam e, para preencher o lugar, lá ia um emérito ponta-de-lança, desgostoso e contrariado, avisando logo que bastava um golo de uma das equipas para ir outro à baliza, um critério que apavorava os companheiros de equipa, temendo que o temporário guarda-redes deixasse a bola entrar de propósito só para sair do castigo.

Árbitros, como todos sabemos, também não havia, à exceção de pontuais e ingénuas tentativas de pôr alguém nessas odiosas funções que tinham o efeito de despertar pulsões ditatoriais nos jovens juízes e o benefício de unir adversários contra esse inimigo comum.

Rapidamente destituíamos o árbitro nomeado e regressávamos ao método das decisões colegiais, quase sempre pacíficas quando se tratava de um agarrão, de uma mão na bola ou de uma rasteira manhosa, mas muito polémicas quando eram mais discutíveis: a distinção entre uma entrada viril (em que o infrator se defendia com o argumento de só ter querido jogar a bola) e uma tentativa de homicídio (aquilo a chamávamos “dar pau”) era nebulosa. A maneira mais eficaz de reclamar uma falta era pegar na bola e não permitir que o jogo recomeçasse enquanto a falta não fosse reconhecida pela comunidade desportiva. Claro que não havia cartões vermelhos. Já nem falo dos amarelos, o que seria uma picuinhice, uma burocratização das nossas práticas selvagens.

Mas o cartão vermelho, que seria admissível em certas circunstâncias, como daquela vez em que o Cebola, que militava nas camadas de formação do Vitória de Setúbal, deu uma patada nas costas do Xixa, era um recurso incompreensível para os nossos padrões éticos. Quando uma falta velhaca gerava tumultos incontroláveis, acabava o jogo. Ia tudo para casa, mas sem cartões vermelhos.

Isto quer dizer que todos os que lá passaram guardaram memórias, boas e más, do Arregaça – golos de letra, frangalhadas, fintas, passes de vinte metros – mas ninguém pode evocar aquela expulsão inesquecível porque nunca houve expulsões. E o que seria do futebol, do futebol a sério, sem o tempero das expulsões? Por exemplo, a de Batista. A resposta certa era Battista, defesa uruguaio. A pergunta, que às vezes dava queijinho no Trivial Pursuit, era: qual foi a expulsão mais rápida num campeonato do mundo de futebol? Antes de termos decorado a resposta, já sabíamos que só podia ser um uruguaio. Ou um argentino.

No Mundial de 1986, Batista foi expulso aos 56 segundos do jogo contra a Bélgica. Artistas de uma fineza inigualável como Francescoli ou Maradona eram escoltados por milicianos de ar carniceiro, como se tivessem sido libertados no dia anterior de prisões de alta segurança para jogarem pela seleção.

Quatro anos depois, em Itália, ficaram célebres as expulsões do camaronês Massing, que levou um segundo amarelo por ceifar o argentino Caniggia, numa falta que justificava o cartão vermelho, e as expulsões em simultâneo de Rudi Völler e Frank Rijkaard, com cuspidelas pelo meio. Ficando apenas pelos mundiais, lembro ainda as expulsões de Leonardo, defesa brasileiro, por dar uma cotovelada no norte-americano Tab Ramos, em 1994 (ano do cartão vermelho que nunca foi, quando Tassotti partiu o nariz a Luis Enrique), a de João Vieira Pinto em 2002, por cumprimentar com excessivo vigor um árbitro mexicano, a orgia de vermelhos na Batalha de Nuremberga de 2006, em que portugueses e holandeses se esforçaram por jogar cinco contra cinco, o que seria contra as regras, e, no mesmo ano, a mais inesquecível de todas, a de Zinedine Zidane, após ter dado uma marrada no italiano Materazzi, em plena final do campeonato do mundo.

Por diferentes motivos, nenhuma destas infrações teria merecido cartão vermelho no Arregaça. Desde logo porque não havia cartões vermelhos no Arregaça, mas também porque não havia árbitros (sem árbitro em campo, João Vieira Pinto nunca teria sido expulso, essa é que é essa) e porque todas as outras faltas, incluindo a de Zidane na final, teriam sido resolvidas em concílio ecuménico, provavelmente com mais agressões pelo meio, até os ânimos se acalmarem e ser possível retomar o jogo. No fundo, era isso que queríamos.

Não era justiça, nem cumprimento de regras, nem punição dos infratores. Era jogar à bola, jogar até nos cansarmos, jogar até as nossas mães nos chamarem para casa porque estava na hora do jantar. No universo do Arregaça era esse o nosso cartão vermelho: o minuto em que a voz da mãe dava ordem de expulsão.