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Ontem sonhei com Mário Jardel, criador de acasos e de pássaros (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor Bruno Vieira Amaral sobre um dos jogadores mais extraordinários que já passaram por Portugal

Bruno Vieira Amaral

Michael Steele

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Ontem sonhei com Mário Jardel. Dizem que a quarentena provoca sonhos esquisitos. Eis a prova. Lá estava ele, longilíneo, desarticulado, a atirar a bola para o fundo da baliza uma e outra vez, com um sorriso que dizia “não sei como é que isto acontece”, uma paciência demoníaca, que o diabo também se compraz na repetição, um fenómeno absurdo e necessário típico dos sonhos. A bola vinha como Deus a mandava, Jardel sorria, saltava ou limitava-se a encostar o pé e, como um sonâmbulo ou um hipnotizado, a bola seguia para as redes, sem um protesto, abandonada à vontade do seu dono. Quando acordava, era tarde. Já os colegas corriam para Mário Jardel para o abraçar e felicitar por mais um milagre. Então acordei.

Não devia ser fácil para alguns colegas prestar tributo e vassalagem a um rapaz a quem não faltava nada para ser apanha-bolas ou vendedor de cachorros. Parece que num dos primeiros treinos no Futebol Clube do Porto, os companheiros ficaram incrédulos com a falta de perícia do avançado.

De onde teria vindo aquela ave rara? Mais: como é que aquele rapaz tinha cumprido todo um trajeto que o levara dos escalões de formação a um dos maiores clubes da Europa sem que a sua falta de jeito o tivesse traído pelo caminho? Mesmo jogadores muito talentosos, até geniais, tropeçam em obstáculos, fazem uma escolha errada, sofrem uma lesão que lhes mina a confiança e passam o resto da vida a pensar em tudo o que poderiam ter sido.

Desses jogadores dizemos que passaram ao lado de uma grande carreira. Jardel passou ao lado de uma carreira medíocre, equilibrado num talento sobrenatural para marcar golos, um mecanismo interno que tinha tanto de cálculo como de macumba e que lhe permitia adivinhar em 90% das ocasiões onde é que a bola ia cair e antecipar-se aos adversários, mesmo aos defesas mais implacáveis e temidos.

Lembro que a primeira grande exibição de Jardel foi em San Siro, contra o Milan, em 1996, quando o Milan ainda era o Milan, a Serie A era a Serie A e as defesas italianas eram o que sempre foram: máquinas de reduzir fábricas de golos a conta-gotas. Bastam três nomes daquela equipa – e só da defesa: Panucci, Maldini e Desailly. Jardel saiu do banco dos suplentes, marcou dois golos como se nunca tivesse feito outra coisa na vida e deu uma vitória histórica ao Porto.

Era isso. Jardel movimentava-se na área com um inside trader, alguém que tinha recebido antecipadamente a informação sobre o que iria acontecer. Também ele tinha acesso a informação privilegiada que nem ele sabia de onde lhe vinha. Nenhum grande jogador sabe, é verdade, mas quando vemos Messi ou Maradona tudo coincide, tudo bate certo.

Eles não trabalharam para obter aquele dom, mas é como se o merecessem tal é a pura eloquência física do seu jogo. Falei de dois dos maiores jogadores de sempre, mas isso é válido para qualquer outro jogador de talento. Em comparação, Jardel parecia apenas um gajo a quem saiu a lotaria.

Revejo o melhor golo dele. Pelo menos aquele de que me lembro melhor. Foi no Estádio da Luz, contra o Benfica. A bola foi atirada em balão para a entrada da grande área, o defesa do Benfica dá um passo em frente, Jardel dá um passo atrás, domina (não é bem um domínio, mas já lá vou) a bola no peito e atira para a baliza de um perplexo Preud’Homme.

Não há no movimento de Jardel nenhuma da graciosidade letal de um van Basten. Quando bate no peito a bola sobe de mais, como se lhe tivesse ressaltado no peito, e ao cair o avançado acerta-lhe de rosca. É um belíssimo golo e, no entanto, não conseguimos afastar a ideia de que tudo não passou de um acaso sublime, como se o que acabámos de testemunhar fosse menos o ato deliberado de um ser humano e mais o resultado fortuito de uma criança a manobrar marionetas.

Acontece que a carreira de Jardel está recheada destes acasos sublimes ao ponto de Carlos Tê ter imortalizado o voo do avançado entre os centrais. Não era bem um voo pois não tinha nada da elegância fácil, despreocupada, das aves, nem sequer dos melhores bailarinos. Basta recordar Jardel com a camisola do escrete, uma cegonha entre canários.

Mas tinha em comum com os pássaros o instinto, uma sabedoria primordial, uma eficácia tantas vezes reafirmada que punha em causa todas as nossas ideias feitas sobre a beleza no futebol. Pode haver tanta eficácia sem beleza? Não terá a eficácia uma beleza própria, autónoma? Há uns meses, trouxe aqui uma frase do avançado Edinho, em que ele dizia que não há golo fácil, não há golo feio. É verdade. Todos os golos de Jardel eram belos, mesmo os que eram feios, porque eram golos.

Lembram a personagem de Clarice Lispector que, ao olhar para um pardal, dizia: “É tão bonito que voa!”* E os golos de Jardel voavam, como passarinhos que lhe saíssem da cabeça, dos pés, dos ombros, da palma das mãos. Ele não voava. Inventava pássaros e ensinava-os a voar.

*Gonçalo M. Tavares cita a frase no seu “Atlas do Corpo e da Imaginação”. Foi aí que a descobri.