Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Eu, benfiquista, celebrei o 5-0 do Porto em Bremen e o título do Sporting em 2000 (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor debruça-se sobre uma temática: devem os adeptos de um determinado clube celebrar os triunfos dos rivais? Bruno Vieira Amaral recorda dois momentos da sua vida em que a alegria dos seus amigos, também foi a sua

Bruno Vieira Amaral

Mário Basler a tentar ultrapassar Jorge "Bicho" Costa numa noite memorável do FC Porto na Liga dos Campeões

Henning Bangen

Partilhar

Vamos lá. No futebol ninguém fica feliz, exuberante e desmedidamente feliz, com a sorte e o sucesso dos adversários, dos “figadais inimigos”. É possível, no entanto, uma espécie particular, pouco estudada, de alegria. Dúbia, contrariada, até incómoda, mas, ainda assim, alegria. Sei que existe porque já a experimentei.

E não falo do patriotismo obrigatório de “puxar pelos nossos” quando jogam “lá fora”. Compreendo a situação extraordinária dos nossos emigrantes e a estirpe de patriotismo cuja génese é a distância de casa, as saudades do sol e o viver rodeado de bárbaros. Mas eu não sou emigrante. Quando me sento para assistir a um jogo europeu do Porto ou do Sporting não espero nada menos do que uma humilhação, um descalabro épico, um desastre atómico, uma paulada de tal forma contundente que a esperança é que, no fim do jogo, os adeptos queiram comer vivos os jogadores, defendam a decapitação dos diretores.

O meu sonho é que no final de uma dessas tareias monumentais, o presidente do rival apareça aos jornalistas com a alma a escorrer sangue e, de lágrimas nos olhos, aos soluços, sem réstia de dignidade, faça como o divino Hirohito e comunique ao seu povo: “já chega. Amanhã fechamos.” Nunca aconteceu? Dificilmente acontecerá? Quero lá saber. Sonhar é grátis.

E consola-me a certeza de que o sentimento é recíproco, de que após a fenomenal derrocada em Vigo e as cenas deprimentes que se seguiram, com jogadores cabisbaixos como criminosos apanhados em flagrante delito a murmurarem pedidos de desculpa escritos por um qualquer vogal da mesa da assembleia geral, o coração de sportinguistas e portistas se encheu de uma felicidade indizível, recebeu uma injeção da mais pura e incontaminada bem-aventurança, um vislumbre das delícias celestiais que aguardam os fiéis de todos os credos.

Esse dia infame, de todos o mais negro do benfiquismo, foi para os nossos rivais, sei-o de ciência certa, um dia inicial, inteiro, limpo de nuvens e de tristeza. Senti algo semelhante nas derrotas mais dolorosas dos nossos adversários – como escapar ao júbilo de uma Taça Uefa perdida em casa contra uns russos de recorte brasileiro? Como esquecer a vitória do esquecível Artmedia numa distante noite no Dragão? Schadenfreude, chamam os alemães a esta alegria pela desgraça dos outros e pergunto-me se haverá palavra no léxico alemão, ou em qualquer outro, para a tímida alegria que certas vitórias dos maiores rivais nos trazem.

Viajo até uma noite europeia de 1994. O Porto deslocava-se a Bremen para enfrentar o campeão alemão na Liga dos Campeões. O conflito étnico Benfica-Porto estava no auge e os artistas e caceteiros das Antas, auxiliados em certas ocasiões por juízes de carne e espírito fracos, costumavam infligir-nos dolorosos danos. Kostadinov, Domingos, Paulinho Santos, André, Timofte e Fernando Couto, entre tantos outros, eram matéria de pesadelos para os benfiquistas.

Desejava eu uma vitória dos azuis-e-brancos em terras germânicas? Nem por sombras. Queria mais era que os alemães os atropelassem, lhes dessem uma coça histórica e que, no regresso a Portugal, a comitiva portista fosse recebida por uma turba de super-dragões a babarem de fúria. E o que é que aconteceu? O Porto ganhou por 5-0. Cinco a zero em casa do campeão alemão. Nunca tinha acontecido e acho que nunca mais aconteceu. Eu, que assisti ao jogo na companhia do meu primo Fernando Braz, o mais sofredor de todos os portistas que alguma vez conheci, tive de me render aí por volta dos 4-0, um golo magnífico de Domingos, que tinha saído do banco e festejou com braço direito a desenhar espirais de vitória e o seu nariz vermelho de uma eterna constipação.

O meu primo gritou, saltou para o sofá, correu para a cozinha, abriu uma garrafa de espumante, chorou de felicidade e eu acompanhei-o. Ele, adepto do seu clube, eu, adepto da alegria. Quando o Sporting conquistou o campeonato que lhe fugia há dezoito anos, no ano 2000, também saí para as ruas e festejei com amigos sportinguistas que nunca tinham experimentado o doce sabor da vitória.

Quando o Porto derrotou o Celtic na final da Taça Uefa em 2003, fiquei feliz porque quer o treinador Martin O’Neill, quer a generalidade da imprensa britânica, passaram o tempo a criticar o futebol negativo e as “dark arts” do adversário, incapazes de reconhecer a qualidade de uma equipa que nas meias-finais tinha arrasado a Lazio de Roma, naquela que considero uma das melhores exibições de sempre de um clube português nas competições europeias.

Que os adeptos adversários dos outros clubes não vejam nisto nenhuma espécie de condescendência. Quando muito, haverá um irresistível parasitismo. A alegria pela desgraça alheia não tem substância, é só casca. Dura pouco e quebra-se com facilidade. A alegria pela alegria dos outros, dos rivais, é igualmente efémera, ainda mais complexa, mas não menos real. É uma alegria fantasmagórica, o antegosto de um prazer que nos foge. É o desejo da alegria que queríamos para nós.