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Martim Silva

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Valha-me a prancha

4 de maio. O dia do desconfinamento. O dia do regresso ao surf. O dia do começo de um novo normal

Martim Silva

Horacio Villalobos

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4 de maio. 4 de maio. 4 de maio. Desde a última quinta-feira que esta segunda-feira não parava de latejar na minha cabeça. Era o dia do desconfinamento, em que, entre muitas outras coisas, se podia voltar ao mar para praticar desportos náuticos. No meu caso, e para ser mais específico, era o dia em que podia voltar a colocar a prancha e o fato de surf no carro e rumar à Costa da Caparica. Para surfar, ou para tentar surfar, ou pelo menos para entrar no mar (de forma legal).

Logo na quinta-feira, quando foram conhecidas com maior detalhe as medidas de desconfinamento, troquei mensagens com outro surfista, bem mais experiente que eu. Histéricos os dois, tal como muitos outros milhares pelo país fora, perante a possibilidade de voltar a ter algo de que tanto gostamos. Ainda magicámos ao ver como estariam as condições do mar nesta segunda-feira, nada auspiciosas – sim, porque nisto do surf não é só saber se a lei permite, é saber como está a maré, o vento, a direcção do vento, a ondulação, o tamanho das ondas, a força do mar... “Sábado e domingo é que está bom…” dissémos então . Afinal, e se fosse surfar um dia antes do desconfinamento já valia ou não? Rapidamente cheguei à conclusão que não. Aguentei estes dois meses, mais 24 horas não fariam assim tanta diferença. As regras devem ser cumpridas e os bons exemplos que os portugueses têm dado nestes dois meses são motivo de enorme satisfação.

4 de maio, 4 de maio, 4 de maio. O latejar não parava.

Domingo à noite, já depois de lançar o dia de trabalho de hoje no jornal, coloca-se o despertador. Para as 5.30 da manhã. A vontade era muita e o dia de trabalho, não dava para abusar. Mas era essencial estar junto ao mar quando o dia nascesse. Às seis e um quarto já passava a ponte 25 de Abril. Antes da sete, mais ou menos à hora a que o sol nascia, já estava de fato e com a prancha dentro de água na praia de São João.

Sozinho, pensarão os leitores. Qual quê? Contei pelo menos seis carros no parque de estacionamento. E uma dezena de ‘retornados’ que, como eu, só pensavam em voltar a meter os pés no mar frio da madrugada. Nunca o mar frio da madrugada terá sabido tão bem. E nem estava assim tão frio, afinal.

Aquecimento feito no areal vazio, corridinha para cá e para lá. Vamos a isso.

Lá fora, passada a rebentação, de cada vez que um surfista chegava uns metros perto, além do acenar ou cumprimento (à distância) habitual, saiam mais umas palavras… “está tudo enferrujado”.

Sim, estava tudo enferrujado mas estava tudo mortinho por voltar ao mar.

As ondas? Não valiam nada, vento oeste, onshore, mar encapelado e desordenado. O típico dia em que ninguém entraria na água. Sobretudo aquelas horas. Mas isto seria em circunstâncias normais.

Só que neste 4 de maio rapidamente contava uma dezena de cabeças espalhada nos 100 metros à minha esquerda e à minha direita. E ainda não se via o sol.

Uma hora e pouco depois, o número de ondas feitas era inversamente proporcional à satisfação interior que sentia.

No regresso, o pensamento de que lentamente regressamos à normalidade. Nada que uma ida rápida ao Pingo Doce não desfizesse em segundos. “Só entra de máscara”.

Pois é, a vida até pode parecer que regressa ao normal. Mas o normal já não é o normal.

Valha-me a prancha.