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O Mundial de 90 foi outra coisa - e provavelmente foi a melhor coisa de sempre (por Bruno Vieira Amaral)

Até agora, que eu tenha dado conta, nenhum canal desportivo aproveitou a pandemia para transmitir os jogos do Mundial de Itália de 1990. Quero, por isso, agradecer-lhes. Já li comentários, já vi documentários, de vez em quando cedo à nostalgia e revejo no Youtube certos momentos desse Mundial que foi o meu Mundial

Bruno Vieira Amaral

RENARD eric

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Até agora, que eu tenha dado conta, nenhum canal desportivo aproveitou a pandemia para transmitir os jogos do Mundial de Itália de 1990. Quero, por isso, agradecer-lhes. Já li comentários, já vi documentários, de vez em quando cedo à nostalgia e revejo no Youtube certos momentos desse Mundial que foi o meu Mundial.

O primeiro Mundial de que tenho sólidas recordações é o de 86. Aos oito anos o futebol é coisa séria e um Alemanha-México, um Espanha-Argélia, um França-Canadá são experiências futebolísticas e geográficas inesquecíveis. Além disso, estavam lá os nossos, os patrícios ou lá como é que lhes chamavam, e cada jogo da seleção era um acontecimento tremendo. A derrota com Marrocos, a primeira vez que uma seleção africana derrotou uma seleção europeia num Mundial, doeu, mas foi grandiosa. Tudo foi grandioso. Com oito anos somos vítimas do gigantismo das nossas emoções. O mundo é grande e nós somos pequenos.

O Mundial de 90 foi outra coisa. Eu tinha crescido, já sabia mais sobre futebol – é aos doze anos que se sabe tudo sobre futebol, a partir daí só conta o que não se esquece – e a névoa mitológica da aventura mexicana de quatro anos antes desaparecera e com ela a seleção portuguesa. A partir daí, o habitual era não termos lá magriços, infantes ou patrícios a atrapalhar a nossa concentração absoluta ao sagrado do futebol. Era como se a ausência de Portugal, limpando do nosso espírito os desvios patrióticos, tornasse mais pura a competição e mais familiares os nomes estranhos que a preenchiam: Caniggia, Goycochea, Kana-Byik, Makanaky, René Higuita, Salvatore Schillaci, Conejo, Meola, Ramos e Balboa.

O vírus do patriotismo sobrevivia: lembro-me de torcer pela vitória de Carlos Valente num Itália-Irlanda. Não me interessava que fosse o árbitro. Era português e isso bastava. Nos outros jogos, a minha lealdade evoluía ao sabor do resultado. Começava o jogo a puxar pela Inglaterra, depois já estava do lado dos Camarões, depois por Inglaterra outra vez e novamente pelos Camarões até ao apito final que encerrava o jogo, mas não a minha vontade de que o jogo prosseguisse, se prolongasse pela noite fora, que Roger Milla, o Matusalém dos relvados, continuasse a correr e a marcar golos até ao fim da vida. Aos doze anos, entre o fim das aulas e as férias grandes, tempo era coisa que não nos faltava.

E se hoje não quero rever os jogos desse interminável verão italiano é porque as memórias que guardo dizem-me que foi o melhor Mundial de sempre e a opinião dos especialistas é a de que foi um dos mais chatos de sempre. Mas o que é que sabem os especialistas? Como dizia Millôr Fernandes, um especialista é alguém que só não desconhece uma coisa. Do Itália 90 podem saber muito, mas não sabem o essencial e o essencial é ter doze anos.

Uma dúzia de anos e a voz de Gianna Nannini a cantar Un’Estate Italiana (canção da autoria do mítico Giorgio Moroder, que também havia composto o hino dos Jogos Olímpicos de Seul), Pavarotti a arrepiar-nos com o Nessun Dorma, os Camarões a chocarem o mundo no primeiro dia, Higuita em modo Beckenbauer a sair da área, a perder a bola e a enterrar a sua equipa, os exóticos norte-americanos com os seus nomes de imigrantes latinos; os falhanços de Müller – que de alemão só tinha o nome e nenhuma da eficácia germânica –, Maradona a abrir uma avenida para a corrida de galgo de Caniggia na direção da baliza de Taffarel, um hat-trick de Skuhravy aos amados costa-riquenhos, o grupo dos empates e um golo impossível de David Platt, a guerra entre holandeses e alemães, uma bomba de Matthäus contra a Jugoslávia enquanto eu reproduzia o confronto com caricas cuidadosamente pintadas com as cores daquelas seleções, caixas de sapatos cortadas ao meio a fazer de baliza e latas de atum vazias como guarda-redes, um Brasil-Suécia cheio de nomes aprendidos nos jogos do Benfica disputado num domingo à noite enquanto a minha mãe engomava a roupa; a meia-final da tristeza italiana em Nápoles na mesma tarde em que eu regressava de uma consulta num dentista que tinha mais de carniceiro do que de médico, um livre de Stojkovic contra a Espanha numa terça feira à tarde, Goycochea com o destino da Argentina nas mãos num sábado florentino e a final das lágrimas de Maradona e das minhas lágrimas, eu a chorar por ti, Argentina, por nós, como se os alemães – isto agora vai de cabeça, Illgner, Berthold, Augenthaler, Buchwald, Brehme, Matthäus, Littbarski, Völler, Klinsmann (fui confirmar, só faltavam Jürgen Kohler, que eu odiava, e Thomas Hässler, o mais amado e amável dos alemães) – nos tivessem roubado o que era nosso por direito.

Tudo isto eu revivo na memória. Dispenso os auxiliares e a boa vontade dos canais desportivos sem jogos fresquinhos para transmitir. Agradeço que recuperem a caminhada triunfal da seleção no Euro 2016, a magia do Euro 2000 ou que ofereçam às novas gerações o conhecimento de Chalana, mas peço que deixem intactas as minhas recordações de um Mundial em que, sem Portugal, era só eu, os meus doze anos, uma caderneta de cromos e futebol em estado puro.