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O regresso do pontapé na bola (que é uma lata de atum, porque o bife do lombo ainda não voltou)

Bruno Vieira Amaral não se contenta com o regresso da Bundesliga à porta fechada: "Nenhum espectáculo que viva da emoção, de uma certa megalomania quanto às suas próprias virtudes espectaculares, pode mergulhar nesta filosofia de tasca – é o que temos"

Bruno Vieira Amaral

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Dizem que o campeonato alemão recomeçou. Dizem e eu acredito. Até vi imagens nos noticiários – “o futebol recomeçou na Alemanha” – como se a Segunda Vinda de Cristo fosse em chuteiras e camisolas Adidas. “É um teste”, dizem os senhores da bola com ar de funcionários da Direção-Geral de Saúde. “A seguir é a Europa inteira”, asseguram, escapando-lhes o lado ominoso da profecia. “É melhor do que nada”, dizia uma adepta do Borussia Dortmund habituada ao bife do lombo, num esforço para se contentar com a lata de atum, o “novo normal.”

Melhor do que nada? Desculpem lá qualquer coisinha, eu sei que a ressaca é custosa, que uma pessoa já está por tudo, mas esta pressa de jogar nos escombros só é útil para definir classificações, determinar apurados para as competições europeias, etc. Futebol? Só se o futebol agora é aquilo, aquele desconsolo de bancadas vazias, como se todos os clubes tivessem sido castigados com jogos à porta fechada. O castigo é dos adeptos. Mas the show must go on e tal.

Então, desinfetam-se as bolas, mede-se a temperatura aos jogadores (só antes dos jogos? Porque não durante? Seria uma forma de compensar os sites de apostas: aposte na temperatura do defesa-central do Mainz ao intervalo ou do guarda-redes do Hertha de Berlim depois de sofrer um golo!), árbitros e capitães evitam cumprimentos na escolha de campo, os suplentes ficam a metro e meio de distância, os festejos com abraços são desaconselhados, os ecrãs dos estádios exortam o público (que público?) a cumprir as normas de segurança.

E o jogo lá decorre com a emoção de quem preenche um relatório. No Twitter, Cesc Fabregas queixou-se: “Sinto que estou a ver um treino”. Mas eu tenho a certeza de que preferia ver alguns treinos de antigamente do que assistir a estes simulacros de futebol competitivo. Quem me dera que fosse só eu, exigente adepto de sofá, a reclamar desta variante anémica da modalidade. O pior é que treinadores e jogadores sofrem mais do que ninguém com as bancadas vazias, como se fossem fantasmas a jogar nas ruínas de um estádio.

Lucien Favre, treinador do Dortmund, disse que se ouvia tudo: “Foi uma sensação muito estranha”. O treinador do Friburgo, Christian Streich, afirmou que a “qualidade não se perde, mas faltou o indispensável calor humano.” Uwe Rosler, do Fortuna Dusseldorf, apelou à resignação: “Vamos ter de nos habituar a esta nova realidade, por mais estranha que seja.” Também Julian Brandt, jogador do Dortmund, alinhou pela filosofia do mal menor: “Preferia que as condições fossem normais, mas é o que temos.”

MARTIN MEISSNER

Reparem, “é o que temos.” Nenhum espectáculo que viva da emoção, de uma certa megalomania quanto às suas próprias virtudes espectaculares, pode mergulhar nesta filosofia de tasca – é o que temos, é o que é, é o que se arranja, já temos a cozinha fechada, acabámos de limpar a máquina do café – sem desmotivar profundamente todos os envolvidos na produção do espectáculo. E os clientes lá vão roendo a sandes de torresmo com pão de três dias: “Melhor do que nada, não é?”

Confesso que o meu desgosto também deriva de uma certa germanofobia ou, para ser mais exato, de uma bundesligofobia. A liga alemã não me interessa nada. É uma liga de bárbaros, um colóquio de búlgaros, polacos, austríacos e turcos conduzido por armadas de alemães carregadinhos de Sturm und Drang. Quando por acaso vejo um jogo do campeonato alemão, estou sempre à espera de que um jogador desembainhe o sabre ou saque do revólver e mate um arquiduque. A competitividade, tão louvada pelos próprios, é negada pela superioridade avassaladora do Bayern de Munique, que os adversários aceitam com excessiva bonomia. Acredito que um Schalke 04-Leipzig ou um Bayer Leverkusen-Baader-Meinhof sejam confrontos emocionantes, mas para isso precisam, mais do que qualquer outro campeonato, da presença de público.

Enquanto a Premier League não regressar, e o regresso seja a sério e não com este sucedâneo insatisfatório, para mim o futebol continuará em hibernação. Se é para defender o “melhor do que nada” preferia então o método pré-histórico da moeda ao ar. Lembram-se? Eu não, mas sei que o Benfica até foi eliminado por ter escolhido cara ou coroa. Transmitia-se o lançamento da moeda, sei lá, à melhor de sete. Aleatório? Jogo é jogo. Para as coisas serem mais justas podiam dar um ponto de vantagem aos mais fortes.

A mim interessava-me tanto ver a moeda, num suspense de câmara lenta, a rodopiar no ar, como este espectáculo de jogadores no banco à distância regulamentar e no relvado uns marmanjos de que se ouvem os impropérios, a respiração pesada e os grunhidos. Sem público, o futebol é mais lento, mais mortiço, um quadro sem moldura. Já o disse, sem público todos os jogos têm qualquer coisa de III Divisão, sem o encanto primitivo desta. Não, o futebol ainda não voltou. O que agora nos servem é pontapé na bola. Futebol é outra coisa

Borussia - Schalke 04: no dérbi do aço e do carvão, houve protocolo, silêncio e depois ecos. E dois golos de um português

Este era o futebol que toda a gente queria ver: o clássico do Vale do Ruhr marcava o recomeço da Bundesliga, o primeiro campeonato de elite a voltar à atividade após a suspensão. Embora estranho, revelou-se um bom jogo, apesar das extraordinárias restrições que tornaram a celebração do golo num hesitante exercício de distanciamento social. O Borussia festejou quatro vezes, com um dos golos a ser marcado pelo inevitável Haaland; houve um bis de Raphaël Guerreiro e outro do irmão muitas vezes esquecido de Hazard