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As claques do Benfica não existem, o clube não tem nada que ver com o sr. Paulo Gonçalves e a esperteza tem limites

Bruno Vieira Amaral escreve sobre o atual momento do Benfica, sobressaltado por um apedrejamento dos No Name Boys, que a direção não reconhece, e notícias que cercam Paulo Gonçalves, o antigo assessor jurídico dos encarnados

Bruno Vieira Amaral

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As claques podem fazer falta a muita gente que anda no futebol – desde logo, aos líderes das claques, aos seus funcionários e membros, aos presidentes dos clubes que se servem deste lumpemproletariado da bola para intimidar adversários internos e pôr os jogadores na linha, uma espécie de guarda pretoriana de baixo custo, cães de guarda que os próprios presidentes seguram frouxamente pela trela, deixando no ar a ameaça implícita de que se podem soltar a qualquer momento – mas as claques não fazem falta nenhuma ao futebol.

Quando alguém critica as claques – uma crítica a sério e não as picardias clubísticas disfarçadas de surtos de ética – aparece sempre um lírico, um idiota inútil, a louvar a contribuição histórica das claques para o desenvolvimento da modalidade, as coreografias asiáticas que levam tanta gente aos estádios, o apoio inexcedível em comparação com o espírito soturno dos adeptos que desanimam desde o apito inicial. Assim à distância e com esta descrição ninguém conseguiria distinguir claques de futebol de grupos de escuteiros amantes de trabalhos manuais.

Quando se vê de perto, o caso muda de figura. Porém, há quem prefira fechar os olhos.

Essa tem sido a atitude da direção do Benfica em relação às suas claques, e em particular à sua claque principal, os No Name Boys, uma confraria de bons rapazes sem existência oficial e que o clube escolheu não ver. Agora paga o preço dessa cegueira voluntária. O relativo silêncio que se seguiu ao apedrejamento do autocarro do clube – imagine-se a gritaria se tivessem sido adeptos de outro clube a cometer o ato, as reuniões que já teriam sido pedidas, os comunicados pungentes, os apelos à intervenção da ONU – demonstra até que ponto o clube está refém destes grupos recheados de indivíduos perigosos, violentos, desocupados e que canalizam para a pertença a estas seitas para-futebolísticas todas as suas frágeis noções de identidade e de valor individual e também todas as suas frustrações e raivas acumuladas.

A legalização das claques – ou “grupos organizados de adeptos”, em juridiquês assético – tem o único mérito de reconhecer a sua existência, que é um primeiro passo para acabar com elas. No fim de contas, só se pode acabar com aquilo que existe. O grande problema da atitude da direção do Benfica em relação às claques é o da auto-manietação.

Julgavam-se muito espertos, com aqueles truques do “claques? Não faço ideia do que está a falar”, e agora, quando elementos das claques apedrejam o autocarro da equipa e vandalizam as casas dos jogadores, são obrigados a ficar calados sob pena de terem de reconhecer aquilo que estrategicamente sempre negaram.

Diga-se que este tipo de cegueira seletiva não se limita às claques.

O caso de Paulo Gonçalves, o ex-assessor jurídico da SAD amigavelmente afastado do núcleo dos negócios, mas não da sua órbita, é outro exemplo da crença desta direção no poder da palavra ou das aparências. As claques não existem, o clube não tem nada que ver com o sr. Paulo Gonçalves, mesmo que este, por mera casualidade, seja agora intermediário de negócios em que o clube está envolvido. E, pronto, se fingirmos que a realidade não existe, viveremos candidamente no melhor dos mundos.

Uma certa dose de cinismo é aceitável em todas as áreas da vida. Aquilo a que chamaria de “blindagem técnica e jurídica” também faz parte da vida de muitas empresas. Mas há limites para a esperteza. Dito de outra forma, aceito que alguém, dentro do Benfica, tenha achado muitíssimo inteligente a estratégia de não reconhecer as claques, mas a partir do momento em que o erro fica exposto, a única solução é a de arrepiar caminho e não se enredar ainda mais em novelos jurídicos e auto-justificativos. Ou Luís Filipe Vieira assume que tem um problema em mãos ou o problema rebenta-lhe nas mãos, quer ele o reconheça, quer não.

A pedrada no autocarro do Benfica foi uma pedrada no charco, no pântano em que se tem tornado o futebol português. Porém, não foi uma pedrada para agitar as águas. Pelo contrário, foi como se a pedra tivesse sido expelida pelo próprio charco. É um sintoma – um de muitos – que devia forçar os responsáveis a procurar uma cura. Já se sabe que, no Futebol Clube do Porto, apesar de um ou outro desaguisado, a relação de Pinto da Costa com os Super Dragões só é ultrapassado pela de Deus Todo-Poderoso com o seu exército de anjos.

No Sporting, por razões bem conhecidas, Frederico Varandas está numa duradoura guerra de baixa intensidade com a principal claque do clube.

No Benfica, a bola está do lado do presidente. Pode aproveitar o momento para pôr a claque na ordem ou pode, uma vez mais, fechar os olhos. Se optar pela primeira, será líder. Se jogar como até aqui, será cúmplice.