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Lage, que foi ver o mar e ficou a ver navios, também já está a dormir com os peixes lá no fundo

O escritor Bruno Vieira Amaral dedica a crónica desta semana ao treinador do Benfica que disse ter dado um passeio com o seu presidente antes do jogo com o Portimonense

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Quem vai ao mar, perde o lugar. Bruno Lage, cidadão sadino, deve conhecer o ditado, embora talvez não tenha sido com essa ideia no pensamento que relatou o idílico passeio com o presidente Vieira. “Falei com o presidente, fomos ver o mar, está tudo tranquilo, não há problema nenhum.” A frase, há que reconhecê-lo, tem um certo ritmo poético, contemplativo, como se o treinador do Benfica tivesse ido buscar os instantes que não viveu junto do mar. Com a sua voz nasalada, Lage quis transmitir uma onda serena de tranquilidade, não aos adeptos, mas a si mesmo. Pensamento positivo. Tranquilo. Não há de ser nada.

Pois é. O problema são os resultados e quando o resultado é mau e amargo não há sistema filosófico, não há edulcorante poético que o adoce. Afinal, o panorama é negro, a equipa não joga nada e o campeonato, que parecia ali à mão de semear, ameaça tornar-se uma miragem dolorosa. Está tudo bem? Está tudo tranquilo? Toda a gente vê que não. A começar pelos jogadores. Sibilino, André Almeida declarou no final do jogo: “Temos treinado bem, temos feito o que nos pedem.” Ah, a subtil arte da punhalada! Até tu, André?

Mesmo que os jogadores não estejam, como se costuma dizer, a fazer a cama ao treinador, surpreende a vontade de Lage em deitar-se nela. Dizer que a equipa se desestruturou com a saída de Jardel (ainda na primeira parte, lembro) foi uma bela punhalada em Ferro, ainda na época passada um símbolo da argúcia de Lage e do seu investimento na juventude e nos produtos de fabrico caseiro.

Agora é o próprio treinador quem lamenta a saída de Jardel, jogador de um profissionalismo exemplar, mas que já não é um jovem. Se o presente depende tanto de um jogador como o central brasileiro, então o futuro não se adivinha muito feliz. Está tudo tranquilo?

Não massacremos Lage, o artífice, mais ou menos acidental só o tempo o dirá, da conquista do 37.º campeonato. Quem não vibrou com a recuperação milagrosa, com as vitórias no Dragão e em Alvalade? Quem não detetou algo de uma sabedoria oriental, simples e profunda nas suas declarações sobre a programação do canal Panda? Quem não agradeceu as refrescantes conferências de imprensa sem o azedume programado de alguns adversários, a tentativa de, através de palavras de conciliação, transformar o futebol português num lugar mais aprazível e frequentável?

Porém, se Lage conhece bem os meandros do futebol sabe que nenhuma verdade é tão maleável e tão eterna como esta: o futebol é mesmo assim. Mudam os tempos, vêm as tempestades. Mudam os resultados e tudo o que foi alcançado no passado parece fruto do acaso, as parábolas infantis soam a banalidades, os esforços conciliatórios são vistos como falhas imperdoáveis de ingenuidade, o discurso de um pacifista debaixo de fogo inimigo. O futebol é mesmo, mesmo assim. Manda o resultado. E não há orador brilhante, reputado psicólogo de balneário, mago das conferências de imprensa, que resista ao crivo do resultado. E com estes resultados, não há volta a dar. Lage já era.

Quanto tempo irá durar a agonia? Um jogo? Até ao final da época só para não desestabilizar mais o clube enquanto se reza a todos os santinhos para que o Porto entre em colapso ou que no Jamor a taça se transforme em tábua de salvação? Seja como for, os dados foram lançados e o destino do treinador está traçado.

Antes que o anúncio seja feito, deixem-me agradecer a Lage a montanha-russa emocional do ano passado, o seu estilo sereno de quem vê o futebol como uma grande família e não como um conjunto de fações terroristas apostadas na destruição mútua e até a confissão involuntária de fracasso e do desfecho que o aguarda com a história do passeio marítimo com o presidente.

Quando os mafiosos eliminavam um inimigo e mandavam o corpo ao mar, diziam que fulano já estava a dormir com os peixes. Lage, que foi ver o mar e ficou a ver navios, também já está a dormir com os peixes lá no fundo. E, lá no fundo, ele sabe que é assim. O futebol é mesmo assim. Cedo ou tarde, consoante a sentença do resultado, todo o treinador recebe uma chamada do presidente: “Anda, vamos ver o mar.”