Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

O Liverpool é um enorme urso pardo que dá vontade de abraçar, um urso ameaçador feito de peluche

Bruno Vieira Amaral escreve sobre o título do Liverpool na Premier League, elogiando a simbiose perfeita entre clube e treinador

Bruno Vieira Amaral

Jan Kruger

Partilhar

A festa foi bonita, pá, mas não foi a festa desejada. Trinta anos à espera de um título e vem uma pandemia cortar o barato dos adeptos do Liverpool. Sim, pelo menos o campeonato vai disputar-se até ao fim. Se festejar o título nestas condições já deixa um amargo de boca, pior teria sido um título confirmado na secretaria, mesmo que a vantagem oceânica do Liverpool não deixasse dúvidas quanto à justiça da conquista.

Parece mentira que tenham passado trinta anos desde o último campeonato dos reds. Não estamos a falar de um clube, como tantos históricos, que entra numa fase de agonia, cai nas divisões secundárias, desaparece do radar e torna-se uma daquelas curiosidades estatísticas. Não. Nestas três décadas, entre momentos de crise e outros de renovado vigor, o Liverpool foi sempre o Liverpool. Continuou sempre a ser um grande, o clube inglês mais vocacionado para triunfar no futebol continental, um fornecedor regular de lendas e ainda o mais mítico (e místico) clube das ilhas.

Tudo isto torna mais incompreensível a seca de trinta anos, durante a qual oito clubes diferentes, incluindo o Blackburn e o Leicester, ganharam a Premier League, o Manchester United ultrapassou o Liverpool em número de títulos, o Chelsea pôs fim a um jejum de 50 anos e estabeleceu-se como potência futebolística, o Manchester City quebrou outro longo enguiço, este de 44 anos, e ofereceu ao mundo uma das equipas mais dominadoras de sempre e o Arsenal conseguiu a proeza de terminar um campeonato invicto.

Quase tudo mudou no futebol inglês e no futebol mundial. A Inglaterra chegaram treinadores e jogadores estrangeiros que transformaram a lamacenta paisagem futebolística num jardim cuidado onde alguns dos jogadores mais requintados do seu tempo exibiram talentos que os adeptos ingleses só conheciam de vista. Além de dezenas de troféus, Alex Ferguson ganhou o respeitável título de Sir, Arsène Wenger trouxe uma sofisticação e um rigor que de início chocou a mentalidade insular e autossuficiente dos ingleses, José Mourinho, com a insolência da juventude, fincou o estandarte do futebol dos novos-ricos e Guardiola transportou o City, que entretanto já aprendera a ganhar, para uma dimensão de qualidade futurística, quase inacreditável, sobretudo num clube habitualmente descartado como o vizinho barulhento do insaciável e aparentemente inamovível United.

Futebolistas como Shearer e Sheringham, Yorke e Cole, Scholes, Giggs e Beckham, Terry, Lampard e Drogba, Cristiano Ronaldo e Nistelrooy, Henry, Bergkamp e Vieira, De Bruyne, Aguero, Silva e Silva, Kompany, Ferdinand e Vidic, marcaram as respetivas épocas e tornaram-se símbolos dos seus clubes e enquanto todos esses saborearam a conquista do troféu mais apetecido, gerações de jogadores do Liverpool sucederam-se sem que tivessem a honra e o prazer de pôr as mãos no prémio dos prémios: Steve McManaman, Robbie Fowler, Luis Suárez, Jamie Carragher, Fernando Torres, Xabi Alonso e o eterno capitão Steven Gerrard – nenhum deles festejou a conquista da Premier League com a camisola do Liverpool.

Depois da escorregadela de Gerrard em 2014 e do título ingloriamente disputado até à última jornada no ano passado, os adeptos terão pensado que o problema não era dos jogadores nem do treinador, mas de um qualquer conluio sobrenatural, de uma poderosa macumba dos adversários para impedir o regresso do Liverpool ao trono doméstico. Um feitiço tão eficaz que nem o otimismo congénito de Jürgen Klopp, naturalmente avesso a explicações esotéricas e ao agitar de teorias da conspiração, parecia capaz de o contrariar. Mas os habitantes do Kop sabiam, ou pressentiam, desde o primeiro dia que o treinador alemão chegou à cidade dos Beatles que era ele o “eleito”, “the chosen one”, e que nenhum revés os convenceria do contrário.

Haverá muitas explicações táticas para o sucesso do Liverpool, mas ninguém se atreverá a negar a força da fusão mágica entre a personalidade de Klopp e o espírito de Anfield. É certo que quando se vence as hipérboles não pagam taxa e que trinta anos a pão e água afetam a razão de qualquer um. No entanto, quem será capaz de afirmar agora que Klopp e o Liverpool não foram feitos um para o outro? Alex Ferguson, ao fim de mais de duas décadas no cargo de treinador, confundia-se com o Manchester United, ao ponto de a sua retirada ter provocado uma compreensível crise de identidade no clube, como se o cavalinho da Ferrari tivesse sido substituído por uma lontra.

Mas não só esse foi um processo que durou muitos anos e muitas conquistas, como nunca se perdeu aquela impressão de que Ferguson, de alguma forma, era tão grande, ou até maior, do que o próprio clube. O seu domínio foi muito proveitoso, mas era um domínio e era sufocante, um exercício de poder incontestado que poderia ter levado o treinador escocês a dizer, tal como Luís XV, “après moi, le déluge.”

A relação entre Klopp e o Liverpool é de outra estirpe, é uma verdadeira simbiose que não precisou nem de muitos anos, nem de muitas conquistas, para ser evidente. E essa simbiose explica porque é que, ao contrário do United de Ferguson, este Liverpool é uma equipa não só amada pelos seus, mas universalmente amável. Este Liverpool é “gostável” como só alguns underdogs costumam ser. Gera à sua volta o tipo de consenso entusiástico, e não o consenso contrariado do tipo “pronto, tenho de reconhecer que são os melhores”, que só algumas figuras, bandas ou artistas, e normalmente por períodos curtos, conseguem gerar.

Com Klopp, o Liverpool parece habitar perpetuamente aquele ponto ótimo e precário entre reconhecimento artístico e sucesso de vendas que todos os artistas procuram. É aquele momento exato em que, por exemplo, uma banda de rock independente (quando elas existiam) emerge das profundezas de uma devoção subterrânea e banha-se no sol do sucesso e da consagração universal, segundos antes de alienar os antigos devotos e de experimentar de novo a indiferença do grande público.

É como se, com Klopp ao leme, o Liverpool fosse um enorme urso pardo que dá vontade de abraçar, um urso ameaçador feito de peluche. Tem o poderio dos seus rivais mais fortes e a qualidade acessível, próxima e humana do Leicester que ganhou o título em 2016. É a estrela de cinema que cumprimenta o empregado do café. A celebridade com quem não nos importávamos de beber uma cerveja num bar. Sim, o Liverpool, este Liverpool, tem a cara de Klopp. Nestes cinco anos, o treinador, essa ave rara de um alemão experimentado nas derrotas, criou um projeto de autor, uma equipa que é muito mais do que um conjunto sortido de estrelas, é uma máquina, não, uma máquina não faz jus à plasticidade feroz desta equipa, é um organismo harmonioso e letal, com a elegância e a flexibilidade musculadas dos melhores ginastas que terminam o exercício com uma aterragem perfeita e um sorriso para a plateia. O sorriso continental de Klopp para o Kop.