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Falemos de “sportinguidade”, uma maneira muito peculiar de as coisas correrem muito mal. Não é apenas perder, é perder de um modo trágico

O escritor Bruno Vieira Amaral cunha uma expressão ao final de época do Sporting, que perdeu o dérbi e terminou o campeonato em 4.º lugar, sem honra nem glória

Bruno Vieira Amaral

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De férias no Alentejo profundo, não pude assistir ao dérbi do passado sábado. Mas mesmo que pudesse, não teria assistido. Fez-me lembrar aquele Benfica-Sporting de repetição em 1995 que depois acabou por ser anulado ou os jogos da Taça de Honra da Associação de Futebol de Lisboa que, se não me engano, eram disputados no início da época e, mesmo assim, com as reservas. Um dérbi disputado nestas condições é o ideal para um jogador que vem de lesão ganhar ritmo. Para o adepto, é um suplício, uma droga entorpecente.

Claro que o Sporting ainda estava na luta pelo 3.º lugar e havia a curiosidade de saber quem seria o melhor marcador do campeonato. No entanto, sem público nas bancadas, como mandam as regras pandémicas, o escasso interesse despertado pelo jogo tornou-se quase nulo e essas disputas menores até poderão proporcionar consolo estatístico no futuro (“O Sporting esteve sete anos seguidos no pódio” ou “em dez anos o Benfica teve cinco melhores marcadores do campeonato”), mas no presente não aquecem o coração do mais carente dos adeptos.

E eu até gosto de estatísticas: a par dos péssimos resultados do Benfica nos quinze negros anos entre 95 e 2010, uma das coisas que me magoava era nunca mais ter visto, desde os tempos de Rui Águas, um benfiquista a sagrar-se melhor marcador do campeonato. Enfim, nem isso seria suficiente para me agarrar a um televisor e ver o dérbi.

No dia seguinte, comprei os jornais e à sensação de desinteresse da noite anterior juntou-se uma certa perplexidade ao olhar para a equipa do Sporting.

No início da época, o plantel não era espantoso, mas tinha quatro ou cinco jogadores nucleares capazes de disfarçar a mediocridade e o desequilíbrio gerais: Mathieu, Coates, Bruno Fernandes, Raphinha e Bas Dost. Por diferentes razões, nenhum destes jogadores esteve no último jogo do campeonato. A ausência de Coates foi o derradeiro exemplo daquilo a que eu chamei (perdoem-me a auto-referência) “sportinguidade”, que é uma maneira muito peculiar de as coisas correrem muito mal. Não é apenas perder, é perder de um modo trágico – com uma sucessão de acontecimentos que, em retrospetiva, nos parece inevitável – e, ao mesmo tempo, cómico, uma tragicidade tão trágica que se torna catártica e fonte perpétua de esperança e uma comicidade tão cómica e persistente que se torna desesperada e, lá no fim, filosófica.

O Sporting é um homem que todas os dias sai de casa e tropeça numa eterna casca de banana e se estatela no chão. No dia em que o homem olha atentamente para a casca de banana e a contorna delicadamente para não acordar os deuses que lhe pregam as monótonas partidas já sabemos que vai escorregar no primeiro degrau e aterrar violentamente no final do lanço de escadas.

Quando Coates se lesionou no aquecimento qualquer adepto habituado às telemaquias sportinguistas já sabia no seu íntimo que tudo iria correr mal. Já sabia que o Benfica ganharia vantagem, que na segunda parte o Sporting renasceria e teria um lampejo de esperança, que, no fim, um dos jogadores do adversário que ainda estava na luta pela Bota de Prata iria marcar o golo decisivo e que, lá longe, em Braga, os “guerreiros do Minho” ganhariam inevitavelmente o jogo contra o campeão nacional.

É isto a “sportinguidade” e os sportinguistas conhecem-na melhor do que ninguém, apesar de sofrerem sempre como se fosse a primeira vez.

Dizia eu que ao ver a equipa que o Sporting apresentou fiquei um tanto perplexo. Eduardo Quaresma? Nuno Mendes? Matheus Nunes? Tiago Tomás? Não ponho em causa a qualidade e o potencial dos jogadores da formação – acho, aliás, que apesar do discurso catastrofista o Sporting há de ter nas suas camadas jovens alguns dos melhores futebolistas portugueses – mas quando se põe todo o peso nas costas de jogadores inexperientes, por muito promissores que sejam, é meio caminho andado para se dar cabo do presente e das promessas.

Aqueles jogadores que referi, e que juntavam experiência e qualidade, eram essenciais para ajudar os mais jovens nos seus primeiros e hesitantes passos no futebol profissional. Funcionavam como o chão almofadado dos parques infantis: os pequenitos podem arriscar porque sabem que não se vão magoar a sério. Têm as costas quentes. No sábado, quem é que podia desempenhar o papel de um Mathieu ou de um Bruno Fernandes? Neto? O inconstante Wendel? O inconsequente Plata? Jovane, graduado à pressa depois de uns quantos golos, como aqueles irmãos mais velhos que têm de cuidar da família enquanto os pais vão trabalhar? Quando um jogador tão jovem como Jovane tem de vestir a farda de veterano alguma coisa não está bem.

Conhecem aquele prato a que os antigos chamam “roupa velha”? O Sporting está a fazer o mesmo, mas chama-lhe “roupa nova”. É rapar ao máximo o tacho da formação na esperança de que, tudo misturado, saia dali qualquer coisa comestível. Contudo, para que a receita resultasse, seria preciso um cozinheiro mais experimentado, daqueles que temperam a olho e estão habituados a fazer muito com muito pouco. Seria preciso, talvez, um chef como Vítor Oliveira, um treinador maduro para espremer o doce da fruta verde. E, no verde Sporting, está tudo demasiado verde – jogadores, treinador e presidente.