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Um Benfica sem cor

Tendo em conta o futebol praticado pelo Benfica na final da Taça de Portugal frente ao FC Porto, Bruno Vieira Amaral entreteve-se a tentar descobrir a cor das novas camisolas benfiquistas: “papaia”, “salmão”, “coral claro”, “tomate” e “terracota”

Bruno Vieira Amaral

CARLOS COSTA

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Lamento não poder elucidar o universo benfiquista sobre a magna questão que tem ocupado as mentes mais brilhantes nos últimos dias: que cor é aquela das novas camisolas? E não foi por falta de debate. Na primeira meia-hora da final de sábado, enquanto o Futebol Clube do Porto fazia gato-sapato daquele conjunto heterogéneo de jovens promessas do Seixal, gregos voadores, centrais na pré-reforma e avançados ligeiramente menos estáticos e tangencialmente mais eficazes do que torres eólicas, só tive olhos para as camisolas pois o que estava dentro delas não me pareceu digno da minha atenção.

A minha mulher, sportinguista inflexível, tentou ajudar-me a resolver a questão cromática, mas acabou por adormecer, creio que ainda antes do intervalo. Eu, para meu grande infortúnio, mantive-me desperto a assistir à parada de horrores parados e a pensar, à guisa de distração, em “papaia”, “salmão”, “coral claro”, “tomate” e “terracota”. Imagino que a expulsão de Luís Diaz tenha animado alguns adeptos. Já a minha reação fez-me lembrar a temporada que passei em Hiderabade, na Índia, quando anfitriões muito prestáveis me ofereciam comida que eu sabia ser insuportavelmente picante e acabava por aceitar com um sorriso de agradecimento contrariado e aquelas palavras de etiqueta: “não era preciso incomodar-se.” Bem sei que Soares Dias agiu corretamente, mas não era preciso incomodar-se.

Este ano, a final da Taça de Portugal teve a particularidade de ser disputada numa altura do ano que associo a serenos torneios de pré-época e a jogos amigáveis com equipas de cabeleireiros suíços do terceiro escalão e a inúmeras derrotas na Supertaça e tudo o que posso dizer em favor dos jogadores do Benfica é que eles estiveram à altura desses momentos, num futebol menos organizado do que as praias em tempos de pandemia com aquele perfume nostálgico do protetor solar, de Piz Buin, do creme das bolas de Berlim, das sandes de ovo e dos pacotes de Compal de tutti-frutti. Se o jogo tivesse sido de dia, teria sentido falta da famosa bola da Nívea e das avionetas com tarjas publicitárias a sobrevoarem o campo e de Nélson Veríssimo, estendido numa toalha junto do banco, a soerguer-se, a fazer uma pala com a mão e a tentar decifrar a mensagem que naturalmente teria de ser: “adeusinho, man.”

Não quero ser severo, muito menos severíssimo, com Veríssimo, a quem coube a ingrata de guardar um corpo em avançado estado de decomposição à espera da chegada do delegado de saúde, um tal Jesus que é bom que tenha aperfeiçoado os dotes de ressuscitador. Mas era Veríssimo que estava no banco, também ele muito estival, sem nenhum do entusiasmo do interino que ainda sonha com o lugar e com todo o desinteresse ressentido dos jogadores que entram nos descontos quando a equipa está a perder por 3-0.

E o futebol que o Benfica jogou – chamemos-lhe futebol, por favor – foi nitidamente um futebol interino. É que há pouco eu dizia que o jogo me lembrava o período da pré-época, mas a verdade é que, na maioria desses jogos, sendo o futebol de fraca qualidade, há uma esperança seminal, como se estivéssemos a assistir ao nascimento, por vezes atribulado, de qualquer coisa. Neste caso, foi exatamente o contrário: o Benfica jogou como uma equipa em desintegração, um império outrora grandioso a desfazer-se em direto, um onze em, lá está, avançado estado de decomposição. Um Benfica interino, provisório, não como um estaleiro de obras de onde se espera que mais cedo ou mais tarde apareça uma coisa nova, mas provisório no sentido de precário, uma estrutura que ameaça cair ao mínimo toque.

Ontem, li no "Público" uma entrevista a um psicólogo que fez um estudo sobre a Guerra Colonial em que dizia que “os militares, quando chegavam para render outros, ficavam perfeitamente horrorizados com o olhar de louco e de perturbado dos soldados veteranos que iam embora” enquanto alguns dos veteranos olhavam para os “maçaricos” e pensavam “estás aqui todo impecável, fardado, cheio de energia, mas isto é o que te espera, vais ficar como nós.” E pensei que a equipa do Benfica que entrou em campo no sábado era uma mistura de “maçaricos” assustados e de veteranos cínicos e desgastados por anos de guerra que, de regresso a casa, se questionam sobre as razões para terem combatido e não encontram uma resposta satisfatória. Foi como se o Benfica tivesse ido para a batalha com um exército de pacifistas e objetores de consciência contra um inimigo que nunca perde tempo com considerações filosóficas sobre a natureza absurda da guerra.

Seferovic a tropeçar na bola como se lhe tivessem atirado uma granada para os pés, Nuno Tavares a avançar pelo flanco esquerdo como se procurasse negociar umas tréguas em vez de desferir um golpe no adversário, Dyego Souza a olhar para os céus não sei se a pedir clemência ou um milagre, Rúben Dias a chutar balões consecutivos como quem descarrega em pânico uma metralhadora para o vazio. Tudo triste, sem sentido, sem alma, como se nas veias daqueles jogadores não corresse o sangue vital, mas um líquido assim da cor indefinível das novas camisolas.

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