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Não insultem a nossa inteligência, pede Duarte Gomes

O ex-árbitro e cronista da Tribuna Expresso pede o regresso progressivo do público aos estádios neste texto crítico sobre quem distingue os que gostam de futebol dos que gostam de outras atividades lúdicas ou até políticas

Duarte Gomes

Daniel Perez Garcia-Santos

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Parece haver vontade real para que o público possa regressar aos estádios já a partir do próximo mês, quando começar a época desportiva de 2020/21.

A expetativa é legítima e percebe-se porquê: a reta final do último campeonato foi insonsa e pouco entusiasmante. Faltou-lhe alma e essência. Faltou-lhe a sua força maior: a presença maciça de adeptos nas bancadas. Isso parece-me inegável.

Futebol sem gente é como verão sem sol: aguenta-se... mas não tem piada nenhuma.
E, de facto, não teve.

Por muito que tenha existido um esforço assinalável para que tudo corresse bem - parar em definitivo teria sido o caos para muitas instituições e profissionais -, a verdade é que sem gritos e assobios, sem cânticos e cachecóis, sem aplausos e incentivos, sem tarjas e bandeiras, a coisa foi completamente diferente.

Diferente para pior.

Não sou apenas eu que o digo. É quem esteve lá dentro. É quem sentiu, na pele, o ruído ensurdecedor do silêncio.

Não faz sentido nenhum atuar num teatro sem plateia.

Claro que a tarefa - a de voltar a levar pessoas aos estádios - não é fácil e exige grande responsabilidade. O desafio não pode nunca colocar em causa o esforço que tanta gente fez para preservar a saúde pública, esse bem maior.

Mas há formas de encontrar soluções que permitam um regresso progressivo, controlado e seguro.

A prova maior já foi dada noutras áreas e a partir daí abriu-se a Caixa de Pandora.

É normal que o futebol exija agora idêntica equidade e coerência. E é normal que refute, de imediato, todo e qualquer argumento falacioso que diga que quem assiste, ao vivo, a touradas, espetáculos de comédia ou manifestações políticas (e não só), é diferente do adepto de futebol.

Com todo o respeito... menos. Não insultem a inteligência dos outros.

É que, por agora, ninguém pede estádios cheios, adeptos a celebrar aos abraços e beijinhos ou gente separada por apenas uma ou duas cadeiras de distância. O que se pretende é bem mais razoável: para começar, uma lotação reduzida a cerca de ⅓ da capacidade máxima de cada estádio. Porque não?

Obviamente que agilizar isso dá muito trabalho: é necessário saber quantas pessoas podem adquirir ingressos com antecedência; é fundamental que exista controlo apertado nas entradas; é crucial que essas estejam bem sinalizadas; é importante filtrar os transportes/acessos ao estádio; é imperioso impedir aglomerados de pessoas em espaços exíguos; não se recomendam espaços comerciais de venda nas imediações; o espaçamento entre adeptos deve ser grande; o uso de máscaras e a desinfeção das mãos deve obedecer a regras bem definidas; as bancadas e zonas comuns devem ser higienizadas a toda a hora, enfim, todo o processo exigirá planeamento, organização e execução cuidada, mas... vale ou não vale a pena o esforço?

Eu digo que sim e assino por baixo.

A pandemia impôs-nos uma vivência confinada e atípica, com todos os benefícios e prejuízos daí inerentes. Continuo a pensar que todas as opções tomadas, em matéria de saúde, foram sensatas e que esse foi um "mal" necessário.

Mas agora é tempo de seguir em frente, cumprindo simultaneamente com as instruções de quem sabe. É tempo de lutar e contrariar. É tempo de sobreviver ao vírus que pode agora matar de muitas mais formas do que mata de verdade.

É tempo de continuar a viver, sem medo.
Sempre sem medo.