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Guardiola e Zidane: um estratega minucioso e um assassino meticuloso à conversa

Diz-nos muito sobre a natureza do futebol que a imagem mais partilhada desta jornada da Liga dos Campeões sem adeptos tenha sido a de dois homens à conversa após o apito final. Apenas isso, um sentado numa geleira, o outro em pé, de mãos nos bolsos, com a postura descontraída de quem pode estar a falar sobre o tempo, sobre o passado, sobre a vida e tudo o que se ganha e que se perde na viagem

Bruno Vieira Amaral

PETER POWELL

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Diz-nos muito sobre a natureza do futebol que a imagem mais partilhada desta jornada da Liga dos Campeões sem adeptos tenha sido a de dois homens à conversa após o apito final. Nem o míssil disparado pela canhota de Ronaldo, nem o Panenka de Depay, nem a exibição estelar de Lewandowski. Nada disso. Apenas dois homens à conversa, um sentado numa geleira, o outro em pé, de mãos nos bolsos, com a postura descontraída de quem pode estar a falar sobre o tempo, sobre o passado, sobre a vida e tudo o que se ganha e que se perde na viagem.

Não eram dois homens quaisquer. Sentado na geleira, Pep Guardiola, talvez o mais revolucionário dos treinadores de futebol das últimas décadas, conhecido pelo seu estilo obsessivo de liderança e orientação. Em pé, Zinedine Zidane, uma espécie de treinador-fantasma na senda de Vicente del Bosque, o homem que estava no banco quando o francês marcou aquele golo inesquecível na final da Champions em 2002 contra o Bayer Leverkusen.

O jogo entre Manchester City e Real Madrid, com a vitória e apuramento dos ingleses para os quartos-de-final, tinha terminado há poucos minutos. É verdade que o segundo golo do City, a meio da segunda parte, fechou praticamente a eliminatória, o que terá esvaziado lentamente a tensão, e que as bancadas vazias, a ausência da paixão e do ruído dos adeptos, pode ter facilitado o diálogo ateniense que o mundo testemunhou. Mas há naquela imagem outra coisa qualquer que, na sua aparente placidez, a torna vibrante e dramática. Arrisco dizer que a força está na memória que temos daqueles dois homens em campo e nos seus estilos antagónicos no banco.

Ao vê-los ali, do lado de fora do campo, ainda elegantes mas inevitavelmente envelhecidos, fomos atingidos pela passagem do tempo. Parece que foi ontem que os vimos jogar, Guardiola no meio-campo do Dream Team de Cruyff, Zidane a bailar em Turim, em Madrid ou onde quer que a seleção francesa jogasse. Por estupidez patriótica, desperdicei os melhores anos de Zidane. Lembrem-se que foram aqueles tempos da rivalidade com Figo e das dolorosas eliminações no Europeu e no Mundial. E por causa dessas questiúnculas menores, olhava para Zidane e não via o que ele era: o melhor jogador daquela geração e um dos melhores de sempre.

Curiosamente, só no Mundial de 2006 é que baixei a guarda e fiz a mim mesmo o favor de apreciar devidamente o futebol vaporoso do francês, sobretudo nas exibições contra Espanha e o Brasil. Esqueçamos a cabeçada com que terminou a carreira: terá havido no futebol um canto do cisne mais belo do que o do jogador francês? Nunca Zidane foi tão líquido, tão elástico, tão omnipresente. Como água ou vento, estava em todo o lado, espalhado por todo o campo, menos um génio do que um fenómeno climatérico. Depois das prestações falhadas da seleção francesa no Mundial de 2002 e no Euro 2004, Zidane, como um super-herói a preparar-se para a derradeira batalha, apelou às suas últimas forças e transformou-se num depósito imaterial de luz e energia.

Um dia, Roger Federer, quando lhe pediram para dizer que desportistas associava à ideia de beleza, referiu Zidane porque este fazia tudo sem dar a ideia de se estar a esforçar. Essa fluidez inexplicável, semidivina, de certa forma tem-no acompanhado na carreira de treinador. Ninguém consegue determinar ao certo qual o estilo de jogo do Real Madrid, qual a filosofia de Zidane, mas aquilo funciona. E, desconfiamos nós, não tanto por intromissão do treinador, mas por uma gestão zen, holística, dos recursos de que dispõe, como se o seu método não fosse mais do que um tipo muito peculiar de apagamento e de ausência.

As equipas de Guardiola estão saturadas de Guardiola, transpiram Guardiola, tresandam a Guardiola. Mais do que extensões físicas de uma ideia são perfeitas réplicas genéticas do seu treinador. Como aquelas cosmogonias em que o universo é visto como os pedacinhos de um Deus que explodiu, as equipas de Guardiola são um universo que resulta da explosão das ideias que Guardiola não podia conter em si. Já Zidane age como um assassino meticuloso que, depois de cometer o crime, se dedica à eliminação artística das provas que o poderiam incriminar. São duas formas distintas e contraditórias de omnipresença: uma excessivamente visível, a outra quase abstrata; uma repleta de iconografia, de representações figurativas, a outra quase islâmica na sua recusa da idolatria.

Guardiola é um daqueles professores obsessivos que seleciona os alunos mais capazes de obedecerem às suas regras e depois lhes martela furiosamente os ensinamentos até que os jogadores os absorvam e se transformem em corporizações mais ou menos substanciais dos conceitos do mestre. Zidane é de outra casta. Nas suas equipas ninguém parece disposto a morrer em nome de um ideal. Desde logo porque não há ideal nenhum. Zidane limita-se a dar aos seus jogadores a liberdade suficiente para eles próprios procurarem esse ideal.

Guardiola é marcial e minucioso como um estratega militar. Prepara as incursões, parte com o seu exército, nivela o que houver para nivelar, instala as tendas e avança para o seu objetivo. Zidane está numa espécie de visita de estudo em que cada jogador assume o papel de vedor com a sua vara de madeira à procura de água. E às vezes encontram-na. Mas se não encontrarem não faz mal. Há outras coisas: borboletas, plantas, flores, a maneira como o sol incide na folhagem das árvores, uma conversa a dois no final de um jogo. Sim, há outras coisas e essas coisas também são belas.