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A beleza do futebol de rua

Bruno Vieira Amaral viu atentamente os quartos-de-final da Liga dos Campeões e tem isto a dizer: "Como é belo o futebol de rua transplantado para os grandes palcos"

Bruno Vieira Amaral

Michael Regan - UEFA

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Bela jornada de Champions ao estilo mata-mata, três treinadores teutónicos (só por causa da aliteração) nas meias-finais, equipas que jogam como equipas, mas sabem o que me fez rir? As cuecas do Neymar e do João Félix e aquele arranque motorizado de Alphonso Davies que deixou Nélson Semedo atolado em si mesmo. Nada como o desplante, a criatividade e a irreverência para nos transportar à infância. Mesmo sem público. Afinal, era assim que jogávamos naquele tempo.

Começo a habituar-me aos jogos de futebol sem público. Sabem como é, o homem é um animal de hábitos, primeiro estranha-se, depois entranha-se, etc. E se no início das restrições pandémicas a ausência de público me parecia nefasta para o espetáculo, começo agora a desfrutar do silêncio, dos festejos dos suplentes com os seus aplausos que soam a incentivos de familiares nos jogos dos infantis, das repreensões audíveis, como se ao futebol lhe tivessem tirado os ornamentos, o excesso de maquilhagem, os catalisadores artificiais da emoção e agora só restasse o seu esqueleto essencial.

Este novo futebol passou para o domínio da arte abstrata, de tal forma destilado, servido em estado tão puro, que quase se torna impróprio para consumo. Sem público, o futebol é só futebol, para o bem e para o mal. E eu rendo-me à nudez impiedosa deste futebol e temo que quando o público regressar às bancadas tenha dificuldade em adaptar-me ao ruído, às imprecações, às barragens de assobios, à voz sempre grotesca da multidão.

Dir-me-ão que o público desempenha um papel importante. É verdade. Penso, por exemplo, na débâcle do Brasil em 2014. Aí, o público, maioritariamente brasileiro, foi parte essencial na encenação da tragédia, o olhar apavorado e atónito dos adeptos como metonímia de um povo inteiro atropelado por onze alemães. Mas vejam como a ausência de público também afetou a natureza da demolição do Barcelona há três dias no Estádio da Luz, uma demolição que lembrou, em certos aspetos, o corretivo dos alemães aos brasileiros.

Em campo neutro, duplamente neutro, a goleada do Bayern adquiriu contornos clínicos, científicos. Foi uma lição de anatomia, uma evisceração de laboratório, uma aula cruel. Com público nas bancadas teria sido outra coisa – um espetáculo, uma parada triunfal, uma batalha flamejante de sentido único. Assim foi uma lição para a história que aproveitará tanto a futuros estrategas do jogo como a médicos legistas. Aquele arremedo de equipa conservado em messi-formol foi finalmente estraçalhado, desfeito e atirado em sacos de plástico para o caixote do lixo.

Confesso o prazer maligno de ver alguns representantes de uma filosofia que negava direito de cidade a qualquer abordagem futebolística não baseada na posse patológica da bola serem reduzidos a caricaturas. No futebol só há humilhação onde antes houve arrogância. Houve humilhação para Piqué que as suas palavras no fim do jogo – oferecendo-se para sair numa simulação de dignidade que em vez de a atenuar, confirma a humilhação – não puderam disfarçar.

Mesmo quando o Barcelona, em muitas ocasiões nos últimos anos, não foi mais do que uma imitação de uma equipa a desbravar terreno a golpes de um génio inigualável, tínhamos de ouvir as proclamações de superioridade moral de um clube que é mais do que um clube, sim, é um complexo de inferioridade irresolúvel que, no momento das vitórias, faz incorrer jogadores e adeptos numa húbris que explica o contentamento generalizado com uma derrotas às mãos de um clube que nem é particularmente simpático.

Bem, como dizia o Polegarzinho, entretanto perdi-me. Comecei pela beleza regressiva do futebol descarado de Neymar e João Félix e não queria que ficasse a ideia de que sou insensível à beleza bélica de uma equipa como o Bayern. Só que essa é uma beleza ensaiada, treinada, impossível de se isolar num momento. É uma beleza que apela à inteligência e não aos sentidos, não é imediata. Pelo contrário, a beleza que se exprime através do talento individual é imediata, uma explosão, uma droga que bate no momento em que se inala: Neymar a pôr uma cueca no adversário quando não havia outra maneira de passar por ele é uma expressão de beleza e inteligência instintivas.

Nenhum jogador ganha um jogo sozinho – Neymar precisou de Mbappé, Félix não chegou para a encomenda alemã e Messi nem sequer apareceu em Lisboa – mas o talento individual é um argumento maravilhoso mesmo que depois se perca a discussão, é a sobreposição de imagens que abre um novo mundo, que nos desarranja; é um rima improvável e, ao mesmo tempo, evidente, uma coisa que bate certo com outra coisa que nem sabíamos que existia. Ao ver um jogo na televisão conseguimos dizer “corre”, “desmarca-te”, “passa para aquele”, mas ninguém diz “põe-lhe uma cueca” ainda que depois aquela nos pareça a única solução racional.

Tática, tática, tática, sim, tudo bem. Aos treinadores pagam-lhes para pensar o jogo assim. Nós, meros espetadores, pagamos para revisitar os dias da nossa infância: uma cueca do Neymar, Félix a serpentear por entre a defesa adversária, Davies a encarar Semedo com o aplomb e a temeridade do toureiro. Como é belo o futebol de rua transplantado para os grandes palcos.

A Atalanta derrotou o PSG. Mas Neymar derrotou a Atalanta

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