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A Cavanização do Benfica

"Trazer Cavani para a Liga portuguesa é o mesmo que pedir o quadro da Mona Lisa ao Louvre para o exibir no Museu do Pão. Pior: para o exibir na minha sala", escreve Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

Dean Mouhtaropoulos

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Há uns dias, enquanto passeava numa loja de um centro comercial, vi um televisor fenomenal com aquelas imagens de colibris, montanhas suíças e leões na savana e disse para mim mesmo que queria um daqueles. O preço – mais de quatro mil euros – não me desencorajou e fiz de imediato uma abordagem no sentido de convencer aquele objeto estático a acompanhar-me. Andei ali às voltas, disse-lhe que a minha casa, apesar de modesta, era o sítio ideal para um televisor como ele, que traria muitas alegrias aos miúdos, que lá em casa saberíamos dar-lhe o devido valor, que o dinheiro não é tudo na vida, etc.

Impassível, o televisor nada disse, limitando-se a exibir imagens de cursos de água amazónicos, corridas de ciclismo e desfiles de moda exuberantes. Não sei quanto tempo fiquei ali a contemplar o objeto do meu desejo, mas foi certamente mais de uma hora. Até que um funcionário da loja, apercebendo-se do meu comportamento estranho, perguntou-me se me podia ajudar. Eu disse que sim, que estava interessado em adquirir o televisor e propus-lhe um plano de pagamentos a dez anos que o funcionário amavelmente recusou por não estar autorizado a negociar condições de pagamento.

Não desarmei e perguntei-lhe se, por acaso, ele não tinha ali 3 500 euros que me pudesse dispensar porque, caramba, aquela era mesmo a televisão que eu queria, a televisão dos meus sonhos e ninguém tem o direito de destruir desta maneira fria e desumana os sonhos de um homem. Maldito capitalismo que produz tantas coisas fascinantes que depois não podemos comprar, maldito dinheiro!, gritei. E desta vez o funcionário já não foi tão amável e chamou os seguranças e fui arrastado para fora da loja enquanto berrava que também eles eram vítimas de um sistema injusto, que eram oprimidos e nem sequer se davam conta e mais umas quantas coisas do meu arsenal marxista que guardo para ocasiões semelhantes.

Luís Filipe Vieira, um homem com outro arcaboiço negocial e empresarial, não se enamora por televisores de quatro mil e tal euros. Os objetos que cobiça são mais caros, mas igualmente inacessíveis. O último chamava-se Edinson Cavani. No momento em que escrevo, parece que o elástico avançado uruguaio já não vem para o Benfica. Ao fim de um mês de intensas negociações, acompanhadas em direto por todos os órgãos de comunicação social interessados no assunto, alguém da estrutura do Benfica percebeu que havia um fosso de uns quantos milhões a separar clube e jogador, um lago enorme de notas e fantasia.

David Vincent

Sonhar é fácil e não paga imposto. Difícil é encarar a realidade. Não haverá nenhum benfiquista que não gostasse de ver um jogador como Cavani na Luz. Ele pede 60 milhões? E então? Para o comum adepto, habituado a contar trocos a meio do mês, esses valores – cinco, dez, trinta, cento e vinte milhões – são tão reais e tangíveis como o dinheiro do Monopólio. São coisas abstractas, como a eternidade e o infinito. Para ele, reais são as imagens fictícias de Cavani com uma camisola do Benfica. Isso é que o anima. E o seu desejo tem tanta força que, para o defender, socorre-se do batalhão de fiscalistas contratado para engendrar um complexo esquema financeiro que reduziria os encargos do Benfica de, sabe-se lá, 60 milhões para uns 59 milhões, e do aumento estratosférico das receitas e do prestígio internacional.

Para manter vivo o sonho, o adepto acredita em tudo, seja em Deus Nosso Senhor ou em fiscalistas, porque nunca viu nem um nem outros, embora tenha razões para acreditar na existência do primeiro e nas capacidades dos senhores das finanças. Então que os magos financeiros da Luz descubram uma maneira de Cavani vir para o Benfica: um contrato de leasing, um pay-per-game, um acordo em que se pagasse metade do exigido pelo jogador e em que este só tivesse de jogar às terças-feiras, um contrato em que o Benfica ficasse com os direitos de imagem de Cavani, autorizado a imprimir camisolas com o nome do craque e a apresentá-lo na ficha de jogo embora em campo depois aparecesse um Seferovic ou um RDT. Não há limites para a imaginação nem para os sonhos.

Mas um sonho é um sonho. Trazer Cavani para a Liga portuguesa é o mesmo que pedir o quadro da Mona Lisa ao Louvre para o exibir no Museu do Pão. Pior: para o exibir na minha sala. Eu até acho que, em vez do plasma de quatro mil euros, preferia ter a Gioconda a dar as boas-vindas aos meus convidados (a minha mulher garante que condiz com os cortinados, era só uma questão de comprarmos umas almofadas novas para o sofá). Imagino a surpresa e inveja dos meus amigos ao entrarem na minha casa e verem a obra-prima de Da Vinci a sorrir-lhes entre DVD do canal Panda e quadros da minha autoria. Até podia organizar excursões e cobrar entradas e, ao fim de um ano, talvez angariasse dinheiro suficiente para comprar uma pestana da Mona Lisa (a Mona Lisa tem pestanas? Aí está uma questão pertinente).

O Benfica podia fazer uma coisa parecida: em vez de Cavani, comprar as chuteiras de Cavani e exibi-las no Museu Cosme Damião. Se alguém se lembrou de inventar um troféu para as presenças do Benfica em finais da Liga Europa, por que não oferecer aos benfiquistas a contemplação das chuteiras do craque que não veio como símbolo de todos os sonhos irrealizáveis?

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