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Com esta Seleção não há esquisitices, deslumbramentos precoces e nacional-coitadismo. Quem vier, morre

“Se os croatas vieram fazer turismo pandémico, azar o deles”, escreve Bruno Vieira Amaral, a propósito do triunfo de Portugal na Liga das Nações

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL RIOPA

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Há quase dois anos, depois de uma tranquila vitória na Polónia, falei aqui sobre a abundância sobrenatural de talento na seleção portuguesa. Após o Mundial de 2014, muitos apocalípticos previram o fim do futebol português. Os maus resultados têm esse dom de fazer brotar quiliastas das pedras, espalhar um manto de pessimismo sobre o universo e pôr até o mais otimista a falar dos males estruturais do pontapé na bola e a suspirar pelas ínclitas gerações de ouro. Dois anos depois, fomos campeões da Europa. O ano passado ganhámos a Liga das Nações. O selecionador tem à disposição um invulgar viveiro de talentos e ninguém fala em gerações de ouro e até nos esquecemos que, do onze que no sábado derrotou a Croácia, só três jogadores estiveram na final de Paris: Raphaël Guerreiro, Pepe e João Moutinho.

Por razões diferentes, Rui Patrício, Cédric, José Fonte, William Carvalho, João Mário, Adrien, Renato Sanches, Cristiano Ronaldo e Nani (mais os suplentes que foram a jogo, Quaresma e Éder) não jogaram no sábado. Nenhum deles abandonou o futebol, ou seja, continuam todos à disposição do selecionador. Não é isso que faz de Portugal a melhor seleção do mundo, mas demonstra que a linha de montagem de talento não pára. Honra seja feita a Fernando Santos pelo aproveitamento dos jogadores, ainda que o adepto de sofá sinta que, por vezes, a seleção não atinge os patamares prometidos pela qualidade individual dos seus jogadores.

Não foi o caso deste jogo contra a Croácia.

Uns dirão que foi quase um jogo de pré-temporada, que os croatas não jogaram com as suas duas maiores estrelas, Modric e Rakitic, que a Liga das Nações é um evento secundaríssimo. Nada disto tira brilho à exibição portuguesa. Se os croatas vieram fazer turismo pandémico, azar o deles. Espero que tenham aproveitado para passear no Porto antes do banho de elevada nota artística. O que me agrada é esta mentalidade omnívora de uma seleção que, no passado, nos habituou a inesperados lapsos de concentração, a apagões súbitos perante adversários amadores, como as crianças que só comem o peixe desfiadinho e sem espinhas. Aqui não há esquisitices. Quem vier, morre, como proclamou triunfantemente um certo presidente do Benfica (o que ainda lá está).

Claro que é um prazer ver jogadores como Bruno Fernandes, João Félix, Bernardo Silva e Jota, escudados pelo elegante centurião que é Danilo e a incansável formiga que é Moutinho, a trocarem a bola numa presciência telepática, a encontrarem espaços onde eles parecem não existir, a controlarem os ritmos do jogo como se estivessem ao comando de uma consola, mas a grande diferença em relação a outras gerações creio que é de mentalidade. Três bolas nos postes quando o jogo ainda estava a zeros teriam atirado seleções de antanho para os abismos da depressão e do fatalismo, teria provocado ranger de dentes e imprecações aos céus e aos deuses. Agora resultam em golos como o de Cancelo.

Antigamente, as vitórias eram épicas ou milagrosas, arrancadas das entranhas do impossível (ah, o milagre de Estugarda, o “deixem-nos sonhar”, com as suas reminiscências de batalhas medievais, de inescrutáveis favores divinos), e as derrotas eram vergonhosas e ultrajantes (Saltillo, Saltillo, o murro asiático de João Vieira Pinto num árbitro argentino) ou fruto de conspirações obscuras das altas instâncias do futebol internacional (Batta, o penalty de Abel Xavier). Por muito religioso que Fernando Santos seja, e é, por muito que também tenha as suas fezadas, e tem, esses tempos de picos de euforia e fossas depressivas ficaram para trás. Entrámos num planalto de confiança e vitórias, de uma certa normalização psíquica.

Já não sofremos aqueles orgasmos coletivos e onanistas do “melhor futebol sem balizas”, de uma pretensa superioridade técnica que esbarrava sempre nos ossos duros de roer e nos punha a festejar melancolicamente as vitórias morais enquanto os outros erguiam os troféus, e também não nos castigamos com flagelações inúteis sempre que o resultado não é o desejado, sempre que a bola sai ao lado ou bate no poste. Com tanta juventude na equipa, comportamo-nos finalmente como adultos conscientes e confiantes nas suas qualidades, sem deslumbramentos precoces e sem o nacional-coitadismo.