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Os Cem de Ronaldo

"O miúdo que rebentava defesas na linha, que fazia gato-sapato de adversários indefesos, especializou-se na arte do golo ou na produção em série de golos, mais ou menos artísticos, para fruição das massas", escreve Bruno Vieira Amaral sobre a evolução de Cristiano Ronaldo

Bruno Vieira Amaral

MARIO CRUZ

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No chão, lá em cima perto das águias, com a bola a passear-lhe nas costas, de cabeça, de calcanhar, de livre, de penalty, depois de partir os rins ao adversário, em antecipação, de fora da área, à boca da baliza, após um ressalto na canela ou um remate falhado: a lista de golos de Cristiano Ronaldo pela seleção portuguesa é um cardápio infinito da grande alegria do golo. O Papa Francisco veio dizer que os prazeres da gastronomia e do sexo são divinais, mas é provável que este “hincha” do San Lorenzo de Almagro saiba que o golo (não o futebol no seu todo, mas o golo em particular) não lhes fica atrás.

Quando Cristiano Ronaldo apareceu era o sucessor natural dos extremos que marcaram a história do futebol português. Tinha velocidade e técnica mas, ao contrário de jogadores como Futre ou Figo, mais próximos da ideia de um extremo clássico, as suas características físicas permitiam-lhe aventurar-se na grande área, disfarçado de ponta-de-lança. Os seus dois primeiros golos pela seleção foram precisamente de cabeça e na sequência de cantos, um tipo de lance a que os extremos da antiguidade não eram particularmente propensos. Contudo, imaginava-se que seria ele o principal fornecedor dos nossos pontas-de-lança inconstantes, de apetência bissexta pelo golo. Ele era o criador, o fantasista, o repentista que inventava lances do nada e, para o acompanhar, só faltava desencantar um avançado que dançasse com ele o tango do golo.

Infelizmente, esse avançado nunca apareceu. Felizmente, Cristiano metamorfoseou-se e a falta desse complemento nunca se sentiu. O miúdo que rebentava defesas na linha, que fazia gato-sapato de adversários indefesos, especializou-se na arte do golo ou na produção em série de golos, mais ou menos artísticos, para fruição das massas. O exercício de rever os 101 golos de Ronaldo pela seleção provoca vertigens. É quase um resumo não da carreira de um jogador, mas de toda uma época do futebol. A variedade de golos, de soluções, de invenções repentinas é tal que, não fosse a presença física inquestionável do jogador, diríamos tratar-se de vinte ou trinta jogadores diferentes.

Escolhi alguns que ilustram essa variedade de recursos de um autêntico canivete suíço do golo.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Rússia - 13 de outubro de 2004, Alvalade

Portugal esmagou a Rússia com um resultado de ressonâncias agradáveis para os adeptos leoninos, 7-1. Ronaldo marcou o segundo e o quarto. Neste, pegou na bola a meio-campo, descaído para a esquerda, e avançou por ali fora, no estilo dos seus primeiros tempos, todo ele potência e controlo de bola, e lançou uma bomba bem de fora da área.

Arménia - 22 de agosto de 2007, Hanrapetakan Stadium

Ah, o Ronaldo marca muitos golos a seleções fraquinhas. Não faz mal. Em primeiro lugar, quantos jogadores da qualidade de Ronaldo conseguem motivar-se para este tipo de jogos? Poucos e os portugueses sabem-no bem. De desastres contra equipas fraquinhas está a nossa história recheada. Neste jogo acabámos mesmo por empatar. Valeu o golo de Ronaldo, uma das suas pequenas pérolas esquecidas: num espaço em que mal daria para instalar uma cabine telefónica, passa a bola com a planta do pé e, com um toque subtil, fá-la deslizar por baixo do guarda-redes.

Dinamarca - 11 de outubro de 2011, Parken Stadium

Portugal perdeu o jogo, mas Ronaldo deixou a sua marca em Copenhaga, num livre direto “ronaldiano”, a lembrar os “rockets” dos tempos de Manchester. A bola sai disparada e vai ganhando velocidade e altura num desenho geométrico misterioso e inevitável até entrar na baliza.

Holanda - 17 de junho de 2012, Metalist Stadium

Portugal entrou praticamente a perder neste jogo da fase de grupos do Euro-2012, mas Ronaldo deu a volta. O segundo golo é uma delícia: Ronaldo recebe um cruzamento da direita, senta o defesa holandês e quando se esperava que chutasse a bola para o segundo poste, Ronaldo remata, contra intuitivamente, para o poste mais próximo.

Hungria - 22 de junho de 2016, Parc Olympique Lyonnais

Era o jogo do tudo ou nada logo na fase de grupos e Ronaldo, que tinha estado desafinado nos dois primeiros jogos, apareceu no momento certo. O golo de calcanhar à Hungria é dos seus golos com nota artística mais elevada.

País de Gales - 6 de julho de 2016, Parc Olympique Lyonnais

Duas semanas depois, Ronaldo voltou ao local do crime e voou para um daqueles golos de cabeça que lembram a suspensão de Michael Jordan no ar e que mostram que CR7, em certos momentos e literalmente, está muito acima dos outros.

Ilhas Faroé - 31 de agosto de 2017, Estádio do Bessa

Até agora Cristiano Ronaldo não marcou pela seleção um golo de pontapé de bicicleta (marcou contra o Azerbaijão, também no Estádio do Bessa, que foi anulado), isto foi o mais próximo que esteve desse golo mítico, o Santo Graal do golo. Já o conseguiu na Juventus e nenhum homem sensato apostará que não será capaz de o fazer pela equipa das quinas.

Espanha - 15 de junho de 2018, Estádio Olímpico de Sochi

Durante demasiado tempo, quer nos clubes, quer na seleção, Ronaldo insistiu em bater os livres em força, com aqueles efeitos estranhos que a bola ganhava. Nem sempre corria bem. Este livre contra a Espanha pedia jeitinho, colocação, e quando Ronaldo se preparou para marcar, o adepto português pôs as mãos na cabeça à espera de uma daquelas bombas para a bancada. E não é que Ronaldo marcou aquele que é possivelmente o seu melhor golo de livre na categoria “mais em jeito do que em força”?

Luxemburgo - Estádio de Alvalade, 11 de outubro de 2019

Lá está. Não é Cristiano Ronaldo que escolhe os adversários. Vem o Luxemburgo? Então aguentem-se. O guarda-redes sai à maluca? Então toma lá um chapéu de medidas perfeitas.

Suécia - 19 de novembro de 2013, Friends Arena

É a melhor exibição de sempre de Cristiano Ronaldo pela seleção e que, em termos individuais, só perderá para o recital de Eusébio contra a Coreia do Norte em 1966. Este é o jogo em que tudo muda. Estava em jogo o apuramento para o Mundial, o duelo com Zlatan Ibrahimovic e a possibilidade de Ronaldo se aproximar do recorde de Pauleta, até então o melhor marcador da seleção com 47 golos. E Ronaldo resolveu tudo: Portugal apurou-se, ele ganhou o confronto individual com o sueco e igualou o registo de Pauleta com um hat-trick tirado da caixa dos truques. Não foram três golos, mas uma trindade. No primeiro, os últimos três toques na bola são de Ronaldo; no segundo são os últimos dois, sendo o penúltimo um magnífico domínio com o joelho; no terceiro golo, uma vez mais são de Ronaldo os últimos três toques na bola. Todos os toques são de uma eficácia estonteante. Não há um toque a mais, nem um toque falhado, nem um toque para decorar a jogada. São toques perfeitos rumo à baliza, ao golo. A partir daí, Ronaldo entrou noutro patamar.