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Parem de se mascarar de vítimas, de estratégias terroristas, evitem a paz podre, as palmadinhas nas costas. Acrescentem valor

A algumas horas do arranque de uma Liga que será necessariamente diferente e também imprevisível, Duarte Gomes faz um pedido aos denominados agentes do futebol

Duarte Gomes

Carolina Pinto

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Já muito se disse e escreveu sobre o que aí vem. Olhando para o passado recente, não é difícil perceber que os próximos tempos serão difíceis. Será necessária responsabilidade, coragem e inteligência para ultrapassar, com mestria e segurança, as adversidades que se anteveem.

No que diz respeito à retoma de toda a atividade desportiva e ao regresso da Liga NOS em particular, há por esta altura mais dúvidas que certezas.

A poucas horas do seu arranque oficial, ainda ninguém percebeu bem o que acontecerá, porque o que acontecerá dependerá sempre das circunstâncias. Dependerá sempre de cada jogo, em cada local. Confuso, não é?

Por regra, as partidas terão que ser disputadas - a Lei 3 refere que bastam 7 jogadores para que iniciem -, a menos que exista essa impossibilidade numérica ou que as autoridades de saúde tomem decisão diferente.

Perante tanta incerteza, abrem-se opções a outro nível. A um nível mais pessoal, de comportamentos e formas de estar.

Ao longo dos últimos cinco anos tenho tentado seguir um posicionamento público alinhado em três grandes objetivos:

– O primeiro (e mais importante) é procurar esclarecer a opinião pública sobre Protocolo VAR, instruções para árbitros e leis de jogo, evidenciando sempre a dificuldade subjacente a quem toma decisões em campo;

– O segundo é apelar, em permanência (de forma estrategicamente repetida) à adoção de condutas positivas por parte de quem tem responsabilidades no jogo. Condutas onde impere o desportivismo e o respeito pelos intervenientes;

– O terceiro é censurar, em tom e modo próprios, qualquer tipo de ato e gesto negativo, eticamente reprovável e, sobretudo, ilegal. Ninguém é perfeito e todos cometemos erros, mas há erros que não se podem nem devem cometer.

Cada qual é como é e faz o que faz. No que diz respeito ao meu envolvimento com a imprensa e com o mundo exterior, isto é o que eu procuro fazer hoje. E é precisamente por isso que quero deixar novo apelo a todos aqueles que, em breve, voltarão a estar na linha da frente do futebol profissional em Portugal:

– Por favor, sejam corretos. Tenham respeito uns pelos outros. Sejam dignos quando perderem e sejam ainda mais dignos quando vencerem. Pensem nas vossas famílias e amigos e em todos aqueles que vos veem como exemplo a seguir. Em todos aqueles que têm orgulho de vocês.

Não sigam o caminho do grito, do insulto e da ameaça. Não sigam o caminho da deselegância, da imoralidade e da chico-espertice. Não vale tudo para ganhar. Não vale tudo para ser melhor que o rival.

Evitem declarações públicas (diretas ou camufladas) destrutivas. Parem de tratar os adversários como se fossem inimigos. Parem de instigar à violência, à desinformação e ao caos.

Parem de se mascarar de vítimas impolutas, porque a nossa memória não é seletiva. Todos sabemos em que mar navegamos.

Parem de recorrer a estratégias terroristas, viradas para o abate do vizinho e não para a valorização do que de bom têm dentro de casa.

Não alimentem novelas que só servem para esconder os vossos erros e camuflar as vossas lacunas.

Construam coisas boas. Deem ideias que beneficiem todos. Acrescentem valor. Foquem-se no mais importante e esqueçam o acessório. Canalizem as vossas forças para serem melhores dentro de campo, porque é aí que se vencem jogos e ganham campeonatos.

Quando criticarem alguém, façam-no com elevação e critério. Sejam justos. Sejam sérios. Sejam honestos. Sejam íntegros.

Evitem a "paz podre", as palmadinhas nas costas, a hipocrisia e demagogia. Deixem isso para os cínicos, hipócritas e demagogos.

Não confundam a necessidade pontual de ter jogo de cintura com o dobrar de coluna. Não confundam agir politicamente com agir perversamente.

Os vários protagonistas desta indústria têm que ser pessoas com caráter forte. Têm que ser donos de valores morais inabaláveis e de um sentido de justiça sem fim. Têm que ser sérios e parecer sérios. Isso significa estar disponível para servir o futebol. Não servir-se do futebol.

Em tempos de louca normalidade e de dúvidas sem fim, vamos ao menos tentar cometer a pequena loucura de fazer mais, de fazer diferente. De fazer melhor.

Não há nada mais gratificante do que agir assim, da forma certa, que é a forma expetável e normal. Apenas isso. A forma normal.