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O Benfica tinha de vender o melhor produto. E não havia melhor produto do que Rúben Dias

Bruno Vieira Amaral escreve sobre a transferência de Rúben Dias para o Manchester City, uma inevitabilidade face à queda da Champions

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Quando Zivkovic passou por Grimaldo e marcou o segundo golo do PAOK, Domingos Soares Oliveira sacou da calculadora. Por muita competência financeira que se tenha, galinhas de ovos de ouro só existem nas histórias infantis. E com a fonte da Champions seca durante um ano, os estrategas da Luz começaram a fazer contas aos dedos e aos anéis. Acredito que a primeira hipótese tenha sido a de vender os excedentários, aqueles que não contam para o treinador. É bonito, revela esperteza, mas não funciona no mercado. Como vender a bom preço um jogador que está encostado? Fantasias. Podem ser doces, mas não alimentam ninguém.

Resultado? Vender o melhor produto. E neste momento não havia no Benfica melhor produto do que Rúben Dias. Titular indiscutível no clube e na seleção, raçudo, com personalidade forte, pinta de capitão. Era uma questão de tempo até sair.

O trambolhão na Champions só veio apressar a decisão. Não dá para investir forte, cair para a Liga Europa e manter as joias de família. Jesus conhece as regras do jogo e lá terá de inventar uma omelete com os ovos que lhe saírem na rifa. Vem Otamendi, que não é mau, mas Jesus quer outro Rúben, o Semedo, que já conhece.

Agora há outro problema. Se o Benfica vende um central por 50 milhões e fica com um buraco na defesa, o Olympiacos pode subir a parada. É a lei do mercado. Enquanto comprador, o Benfica tem duas coisas que enfraquecem a sua capacidade negocial: necessidade e dinheiro. Resta-lhe usar o argumento da vontade do jogador. Veremos.

O negócio Rúben Dias é bom para todas as partes: clubes, jogador e empresário, o omnipresente Jorge Mendes. O desafio para Rúben é grande. Guardiola tem-se especializado como coveiro de defesas em geral e de centrais em particular. E quanto mais se enterra, mais gasta.

Dizem que só em defesas já vão mais de 400 milhões de euros e, sobretudo depois da saída de Kompany, não há maneira de pôr a máquina funcionar. Se o defesa português se afirmar, o mérito será todo dele. Se for ao fundo, será mais um exemplo da degradação do cérebro defensivo do treinador. Veremos.

Já disse que personalidade não lhe falta. Aliás, nesse sentido, Rúben Dias até era um produto incaracterístico da formação do Benfica: um central de combate, agressivo e intimidante. Razoável com a bola nos pés, faltava-lhe a elegância etérea do seu companheiro temporário, Ferro, mas a este faltam-lhe atributos fundamentais num central como resistência psicológica, capacidade de choque, coragem.

Basta olhar para a cara. Ferro transpira medo, é o medo cénico em pessoa. Rúben exsuda confiança, uma vontade férrea. À superioridade técnica de Ferro faltam as bases de agressividade e concentração. Não é Beckenbauer quem quer. E era isto que fazia de Rúben Dias um ativo muitíssimo valioso dentro do ecossistema benfiquista.

Não eram apenas as suas qualidades futebolísticas, mas o facto de ser um jogador da casa capaz de se impor aos companheiros pela atitude.

A equipa, e a defesa em particular, vai sentir falta daquela voz e daquele exemplo. Mas a saída, ainda que forçada pelas circunstâncias financeiras, não deve ser lamentada. No Benfica, Rúben Dias fez o percurso ideal para um jogador que vem da formação. Ao contrário de outros que não tiveram oportunidades ou saíram cedo de mais, o central conquistou o seu espaço, foi campeão, afirmou-se na seleção e agora sai para um dos clubes mais poderosos do mundo na idade certa.

Não há nada a lamentar a não ser pelos românticos que julgam inocentemente que é possível manter um jogador destes num clube periférico uma vida inteira. Não é. Veja-se o caso do Ajax. De Ligt, van de Beek, Ziyech, de Jong, onde é que estão? A vida continua. Sem choros, nem drama.