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Vasily Kulkov, o homem das noitadas europeias

Como é que um jogador que não era um daqueles génios óbvios, um ídolo instantâneo do Terceiro Anel, um matador prolífico, um “10” com a elegância e o perfume de Rui Costa ou mesmo um corajoso bombardeiro como Isaías, alcançou um tal consenso entre os adeptos é um mistério

Bruno Vieira Amaral

Tony Marshall - EMPICS

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Pavel Ivanovitch Chichikov, Aleksei Fiódorovitch Karamázov, Rodion Romanovitch Raskolnikov, Vasily Sergeievitch Kulkov: não há como os russos para nos darem grandes personagens. Bem, Vasily Kulkov não era uma personagem de ficção, não era um produto da imaginação de um Dostoievski ou de um Gógol, mas basta ler algumas das suas entrevistas para constatar a sua enigmática nonchalance eslava e imaginá-lo a percorrer as páginas de uma comédia gogoliana, meio peixe fora de água, meio demiurgo de um sarcasmo sonolento a distribuir jogo com os seus olhos de ressaca.

A lenda das aventuras noturnas da troika russa do Benfica ficou tão célebre como as melhores jogadas de Kulkov, Iuran e Mostovoi, mas não as apagou por completo. A que alturas não teria subido um jogador como Kulkov se tivesse sido mais profissional, perguntam-se alguns adeptos ao recordar o brilho intermitente do médio russo? Só que esses jogadores imaculados de um profissionalismo inatacável, de uma abnegação a toda a prova, não entram no coração dos adeptos. Merecem o respeito e a consideração de um bancário que em trinta anos de carreira nunca chegou atrasado ao serviço, de uma administrativa de um centro de saúde que nunca pôs um dia de baixa.

O que me surpreendeu na hora da morte de Kulkov – e que, bem vistas as coisas, não é assim tão surpreendente – foram as múltiplas reações emotivas dos benfiquistas, como se um em cada dois adeptos tivesse dentro de si um obituário pronto a escrever feito das mesmas memórias inapagáveis, um facto que honra a qualidade futebolística do jogador visto tratar-se de alguém que não parecia ter feito mais de dez abdominais na vida e que, ainda por cima, trocou o Benfica pelo Porto.

Era como se cada benfiquista, sobretudo aqueles que cresceram a ver as equipas na transição da década de 80 para a de 90, julgasse que a admiração por Kulkov era um segredo intransmissível, uma mania fruto da sua maneira peculiar de ver futebol, para descobrir agora que essa admiração era afinal uma paixão assolapada quase universal. Como é que um jogador que não era um daqueles génios óbvios, um ídolo instantâneo do Terceiro Anel, um matador prolífico, um “10” com a elegância e o perfume de Rui Costa ou mesmo um corajoso bombardeiro como Isaías, alcançou um tal consenso entre os adeptos é um mistério.

A morte não explica tudo, mas a morte precoce, num momento em que as memórias dos adeptos estão naquele ponto ótimo para a mitificação – nem tão vagas que já não produzam emoção, nem tão vivas que não possam ser trabalhadas e aperfeiçoadas pela nostalgia – explica alguma coisa. A esta distância, a memória já apagou as exibições medíocres, a inconsistência, os passes falhados, e guarda apenas dois ou três momentos refulgentes e os contornos fantasmagóricos de uma inteligência superior, mais pressentida do que recordada ao pormenor.

Essa é uma das chaves do fascínio de Kulkov: fisicamente não era elegante, mas o seu futebol era de uma rara elegância. Ele podia não ser um grande amigo da sobriedade fora de campo, mas em campo o seu futebol era mais do que sóbrio, era clarividente. E estas qualidades manifestavam-se de uma forma discreta, quase invisíveis a olho nu. Daí que na cabeça devota do adepto só eles estivesse a ver o que Kulkov fazia. Cada um sentia o privilégio de ser a única testemunha de um milagre, o interlocutor exclusivo daquela forma de inteligência. Vasily Kulkov tinha um futebol tão inteligente e tão subtil que, como um bom orador, enfeitiçava a plateia e fazia com que cada um dos membros do público se sentisse tão discretamente inteligente como ele.

Mas, para ficar no coração dos adeptos, até uma inteligência discreta precisa daqueles momentos de brilhantismo inequívoco, as moedas universais que são para a comunhão dos apaixonados de futebol o que o pão e o vinho são para a eucaristia. E essas moedas universais foram, no caso de Kulkov, os dois melhores jogos europeus do Benfica na década de 90: a vitória em Londres, em Highbury Park, contra o Arsenal, e o empate a quatro em Leverkusen. Arrisco dizer que, sem esses jogos, Kulkov seria apenas mais um nome no registo notarial do Benfica ao qual se acrescentaria o burocrático “ao serviço dos encarnados, conquistou um campeonato e uma Taça de Portugal.” Nada que chegasse para ser lembrado com o fervor visto nos últimos dias.

Vejam: não foi preciso conquistar um título europeu, nem sequer chegar a uma final. Bastou-lhe fazer parte de uma equipa que jogava na Europa com ambição e ter brilhado nos dois jogos que moldaram o benfiquismo dos jovens adeptos da altura. Ao contrário do que se costuma pensar, os adeptos não são ingratos e não têm memória curta. No entanto, a escolha dos seus eleitos é caprichosa, a entrada no panteão não obedece a critérios matemáticos ou contabilísticos. Muitos jogadores que passaram pelo Benfica conquistaram mais títulos e honrarias do que Kulkov, mas ele foi único a marcar naqueles dois jogos: haverá poucas imagens mais belas para um benfiquista do que a celebração de Kulkov após o primeiro golo em Leverkusen (e o treinador Toni a falar sozinho nas imediações do banco). Eu, que gozei com o amadorismo da comunicação do Benfica ao juntar aos títulos de Jorge Jesus a presença nas finais da Liga Europa, sou o primeiro a reconhecer que Vasily Kulkov fica na história do clube, não pelos títulos que conquistou, mas pelo que fez naquelas duas noites. Não duas noites quaisquer, duas noitadas europeias que, por não caberem nas vitrinas ao lado de outros troféus, ficarão para sempre guardadas no museu imponderável que é a memória dos adeptos.

Ps: escrever uma crónica sobre Kulkov sem usar a palavra “vodka” também é um feito.