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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Um dia, Edinho disse-me para pensar e ignorar quem me fez tropeçar com a minha filha ao colo. Hoje, sou eu quem lhe pede calma

Duarte Gomes recorda um episódio complicado quando decidiu ir ver um jogo de futebol como adepto da bola, confessando que foi o futebolista Edinho quem o ajudou. O comentador e ex-árbitro retribui agora a ação, desejando as melhoras ao avançado veterano, agora no Cova da Piedade, que se lesionou gravemente na última jornada

Duarte Gomes

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Enquanto estive no ativo, raramente tive a possibilidade de assistir a jogos ao vivo.

As razões, penso, estão à vista de todos: não era seguro nem sensato.

Não era seguro porque o risco de ser ofendido, ameaçado ou agredido era grande. Aumentava ou decrescia em função do local, do tipo de competição, dos clubes envolvidos e até da bancada escolhida.

Não era sensato porque, num estádio de futebol cheio de adeptos (que saudades!), o Duarte não era apenas um Duarte. Era o tal árbitro de futebol, que tantas vezes passou por ali, para prejudicar "a nossa equipa" e favorecer "a dos outros".

A reação é, até certo ponto, compreensível. O coelho que atravessa a toca do lobo está sujeito a ser mordido, portanto num universo onde o futebol quase sempre anestesia a razão, o melhor era evitar o pior. E evitei.

Mantive essa precaução mesmo depois de terminar a carreira, não fosse o diabo tecê-las.
Abri uma só exceção, consumada por um casamento de circunstâncias do acaso.

Vi, ao vivo e a cores, uma final da Taça da Liga disputada há alguns anos, em Braga, entre o Vitória FC e o Sporting CP.

A equipa lisboeta ganhou o jogo no desempate por pontapés da marca de penálti.

Nesse dia, decidi fazer algo que nunca tinha feito na vida: levar a minha mulher e a minha filha comigo. Queria sentir-me gente novamente. Queria sentir-me normal. Queria sentir-me um adepto de futebol como qualquer outro, que decide levar a família ao estádio para ver um bom jogo e ter duas, três horas de diversão e entretenimento.

Não era pedir muito, pois não?

As coisas, por acaso, correram bem. Muito bem.

Durante o encontro, ninguém me chateou, ninguém me incomodou e, quase seguramente, ninguém me reconheceu como o mau da fita. Passei nos intervalos da chuva, o que foi ótimo para mim e excelente para elas.

A pequenina estava feliz e não tirou os olhos do relvado, sobretudo quando a coisa se decidiu nos "penáltis". Estava completamente fascinada com o ambiente, com toda aquela agitação à volta dela. Estava assim porque nunca tinha estado num estádio com o papá e num contexto assim, tão ruidoso, colorido e cheio de boa energia.

Estacionei num dos parques de estacionamento interiores. Um que, por pura coincidência, estava próximo da zona de acesso aos balneários.

No fim do jogo, quando descemos o elevador e depois uma pequena escadaria, a filhota já tinha perdido a guerra contra a adrenalina e dormitava no meu colo. Feliz. Descansada. Realizada.

Quando chegámos ao piso onde parei o carro, passei perto da porta de saída de uma das equipas e cumprimentei com um "boa noite" de circunstância uma série de jogadores que, por acaso, saíam para o seu autocarro ao mesmo tempo.

Estava tudo a correr bem, até que fui abordado por três, quatro "cavalheiros" que estavam por ali, em pé, a andar para cá e para lá, à espera de "chacinar" o primeiro freguês que passasse. Tive azar: fui o primeiro freguês que passou.Assim que me/nos viram, dirigiram-se no meu/nosso sentido, a gritar tudo o que era impropérios. Chamaram à atenção de toda a gente que ali estava, porque insultavam alto, muito alto. Por momentos pensei que ainda estava no ativo, a sair de um estádio para receber a "ovação" habitual.

Mas não. Não estava. Era um ex-árbitro que tinha ido ver um jogo com a família. A família que estava ali, comigo.

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Aos 37 anos, Edinho sente-se com forças e capacidade para voltar a representar a seleção nacional. Recentemente comprou uma máquina utilizada pelos ciclistas da Movistar, para acelerar a recuperação e, inspirado em Cristiano Ronaldo e LeBron James, começou a publicar pequenos vídeos no Instagram, nos quais dá conselhos aos mais novos. Depois da formação feita no Almada, sob supervisão do pai, ex-futebolista, que estava sempre pronto a criticá-lo, rumou ao norte, onde representou SC Braga, Paços de Ferreira e Gil Vicente, antes de regressar a Setúbal. A seguir inicia aventura lá fora, primeiro na Grécia, depois em Espanha e por fim na Turquia. De regresso a Portugal, passa novamente pelo V. Setúbal, e pelo Feirense, até chegar ao Cova da Piedade. Entre várias histórias que metem Fernando Santos e Sérgio Conceição, por exemplo, revela que tem dois filhos, mas que gostava de ainda ter uma menina. E confessa ser viciado na PlayStation

Mantive a rota, engoli quilos de serenidade e segui rumo ao carro, sempre com a piolhinha ao colo, agora acordada e assustada.

Quando me preparava para abrir a porta de trás, um dos indígenas, deduzo que o mais atrevidote, talvez por ser ignorado, decidiu aproximar-se, deu-me um ligeiro encosto nas costas e um toque no pé, a ver se me fazia cair.

Não caí, mas tropecei... e recordo, continuava com a miúda ao colo.

Tenho que ser muito sincero convosco: aí deu o clique e ceguei!

Habituei-me a ouvir de tudo enquanto árbitro. Habituei-me às bocas foleiras, aos insultos de ocasião, a gritos nos arredores dos estádios, a pontapés nas portas do carro... mas quando a coisa ultrapassa a linha e toca nos nossos, não há razão que chegue, não há coração que aguente.

O "tête-à-tête" foi inevitável. Não chegou a vias de facto (nunca chegaria), mas andou perto. Ver a cara da Bea a chorar e a minha mulher completamente arrasada foi a gota de água.

Foi a minha e eu sei que seria a vossa. A impotência revolta e transforma-nos.

As coisas não se descontrolaram por duas razões: a primeira é que a tal serenidade baixou rapidamente (a cabeça arrefece tão depressa como aquece). A segunda foi porque, entretanto, surgiram rapidamente dois ou três elementos das equipas, que intervieram para travar o assunto e desanuviar o clima.

Foram impecáveis. Todos.

Um deles, um amigo de há muitos anos e um ser humano do outro mundo (eu atesto) foi o Edinho.

O grande Edinho, o craque que chegou à seleção nacional e que percorreu vários clubes, sempre com acentuada veia goleadora. O craque que, fora dos relvados, sempre foi um cavalheiro, um homem de bem, um excelente chefe de família.

O craque que no passado fim de semana e por infelicidade do destino, chocou com o guarda-redes adversário na sequência de um ressalto de bola, fraturando a tíbia e o perónio.

Foi ele que, naquele momento mais acalorado, ajudou-me a pensar. Pediu-me para ignorar a situação e para me superar, em nome da minha carreira e das pessoas que estavam comigo. Foi ele que terminou com algo que poderia estar prestes a começar.

Hoje sou eu que lhe peço exatamente o mesmo: que se supere, que transforme este contratempo numa fonte de inspiração e motivação, que pense no orgulho que a sua família terá quando regressar aos relvados, mais forte do que nunca.

Acho que o Edinho não tem bem noção da pessoa que é e da força que tem.

Obrigado, craque. Obrigado por tudo.
Recupera bem. Volta depressa.

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    A casa às costas

    Aos 37 anos, Edinho sente-se com forças e capacidade para voltar a representar a seleção nacional. Recentemente comprou uma máquina utilizada pelos ciclistas da Movistar, para acelerar a recuperação e, inspirado em Cristiano Ronaldo e LeBron James, começou a publicar pequenos vídeos no Instagram, nos quais dá conselhos aos mais novos. Depois da formação feita no Almada, sob supervisão do pai, ex-futebolista, que estava sempre pronto a criticá-lo, rumou ao norte, onde representou SC Braga, Paços de Ferreira e Gil Vicente, antes de regressar a Setúbal. A seguir inicia aventura lá fora, primeiro na Grécia, depois em Espanha e por fim na Turquia. De regresso a Portugal, passa novamente pelo V. Setúbal, e pelo Feirense, até chegar ao Cova da Piedade. Entre várias histórias que metem Fernando Santos e Sérgio Conceição, por exemplo, revela que tem dois filhos, mas que gostava de ainda ter uma menina. E confessa ser viciado na PlayStation