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Em Alvalade, o FC Porto joga em modo spa, como se o adversário fosse um massagista, uma bola anti-stress. Tem de haver uma explicação

Bruno Vieira Amaral recupera o empate Sporting 2-2 FC Porto e outras exibições anteriores dos portistas em Alvalade para concluir que a equipa portuense é menos eficaz lá do que na Luz. E não percebe porquê

Bruno Vieira Amaral

Carlos Rodrigues

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Todos os anos, a meio do campeonato, o Futebol Clube do Porto mete um dia de folga. Seja por hábito, cansaço, fastio ou sobranceria esse dia sabático coincide sempre com a deslocação a Alvalade. Quando visita o Sporting, o Porto é menos Porto do que em qualquer outro jogo da época. É um Porto B, descafeinado, marca branca, Porto meio-gordo, Porto meio-Porto. Nem os maus resultados – não há em Portugal campo mais aziago para o Porto – provocam um frémito de indignação, um “isto não pode continuar assim”. Nada. O Porto vem descansar a Lisboa, passear pela capital, regressa à Invicta com uma derrota ou um empate, a ocasional vitória, e nada muda. Na temporada seguinte, a história repete-se.

Não sei se isto será impotência ou arrogância. Na semana passada dei-me ao trabalho de ler alguns comentadores do FC Porto e nada parecia indicar que o Porto se preparava para a saída mais complicada do calendário. Falavam da superioridade do plantel do Porto, da debilidade crónica do Sporting e, lendo esses tratados de sobranceria, julguei-os capazes de investirem todas as poupanças numa vitória retumbante do Porto. Chegamos a sábado à noite, e esse Porto esmagador, pronto a dizimar um Sporting débil e imaturo, nunca aparece. Fica ali sentado à espera de que a vitória lhe caia no colo e, exceção feita a esse combatente indomável que é Pepe, ninguém parece disposto a aplicar a famosa “intensidade”.

Em Alvalade, o Porto joga em modo spa, como se o adversário fosse um massagista, uma bola anti-stress. Sem fazer muito por isso, apanha-se a ganhar antes do intervalo e entra na segunda parte com modos pacifistas, anti-violentos, de quem solicita tacitamente um pacto de não agressão. Os jogadores, quer os novos recrutas, quer os mais velhos, jogam sem nervo, à espera que o tempo passe. Até dá para o guarda-redes Marchesín levar um cartão amarelo por atrasar a reposição da bola em jogo, isto duas semanas depois de um profilático discurso de Sérgio Conceição sobre o anti-jogo que não surtiu efeito. Para mal dos pecados portistas, o Sporting marca um golo justíssimo quase no fim do jogo e, de repente, o Porto acorda e, no pouco tempo que resta, ainda consegue criar situações de perigo. Mas, como na história da lebre e da tartaruga, já era tarde de mais.

Tem de haver uma explicação para o abismo entre o rendimento do Porto quando visita o Sporting e quando se desloca ao Estádio da Luz. É certo que o Sporting não padece do mesmo complexo que tolhe os movimentos dos jogadores do Benfica quando jogam contra o Porto. O Sporting, sejam quais forem os intérpretes em campo, nunca entra com “medo cénico” para enfrentar os dragões. A equipa joga sem os complexos e os terrores que assolam as equipas do Benfica. Mas também o Porto joga sem a acutilância e o estado de alerta máximo que costuma reservar para os jogos contra o maior rival.

Que Sérgio Conceição consiga motivar a equipa para os jogos contra o Benfica não é um feito extraordinário. Essa motivação já está inscrita no código genético do clube. Tal como parece estar inscrito um certo desdém ou desvalorização do Sporting que faz com que o Porto, ao longo dos anos, tropece reiteradamente na mesma pedra. Contra o Benfica, o Porto entra com vontade de provar que é o melhor. Contra o Sporting entra com essa certeza e, por isso, relaxa, condescende, descansa à sombra dessa superioridade. E por muito que os resultados desaconselhem essa postura, ela repete-se com a força das coisas inelutáveis, de uma maldição ou de uma inércia consagrada: “vamos lá descansar que hoje é Dia do Senhor”. Parece que os fantasmas existem.

Jogadores e treinadores gostam de dizer que o passado não conta, que as estatísticas não ganham jogos e tudo isso é verdade, verdadinha, clarinho como água, são eles a querer dizer que vão escrever uma nova página e a apelar à concentração, para não se fiarem nem em virgens, nem na história e jogarem como se fosse o primeiro jogo da vida deles e jogarem como se fosse o último jogo da vida deles. Mas a quem viu o França-Portugal da semana passada tendo visto a exibição da França contra a Ucrânia dias antes e as exibições autoritárias da França que ganhou o campeonato do mundo em 2018 não passaram despercebidos os fantasmas e os anjos da final de 2016 a pairar no relvado: fantasmas malévolos no espírito dos franceses, anjos da guarda para os portugueses.

A estatística não ganha jogos porque se assim fosse Portugal teria saído de Paris com a habitual derrota, mas a história tem peso, e o golo de Éder e a imagem dos festejos lusitanos há quatro anos em pleno Stade de France inibiram a equipa de Deschamps e libertaram a rapaziada de Fernando Santos, que jogou com a prudência que lhe é característica mas sem complexos, com a autoridade legítima de um campeão, sem arrogância, sem bazófia e sem vitimização.

Olhando para este último França-Portugal, tenho de concluir que a final de 2016 representou uma mudança tectónica. Portugal não ganhou só um campeonato da Europa, conquistou o respeitinho de um adversário que olhava para Portugal de cima para baixo. Agora, as coisas mudaram. Talvez um dia as coisas mudem na forma como o Porto olha para o Sporting. Fazer de conta que os fantasmas não existem é a forma mais fácil de continuar a viver pesadelos na autêntica casa assombrada em que Alvalade se tornou para o Porto.