Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Opinião. Isto aqui é uma cambada de ladrões, gatunos e de “bandidos”?

Não sendo especialista em linguística, tenho quase a certeza de que “bandido” está acima de “criminoso” que está acima de “ladrão” que está acima de “gatuno” na tradição das ofensas em bom português. Bandido é ruim e por isso foi tão surpreendente tê-lo ouvido de Frederico Varandas

Pedro Candeias

Partilhar

No dia 13 de junho de 2018, o então presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting emitiu um comunicado em nome daquele órgão social para legitimar a realização de uma Assembleia Geral destitutiva a Bruno de Carvalho. O documento recordava vários episódios que, do ponto de vista da MAG, forçavam BdC a pôr o seu lugar em jogo numa AG - eram assim os estatutos e foi assim que o presidente caiu a seguir, com uma percentagem massiva de associados a votarem a favor da sua saída de Alvalade.

Não ficaram dúvidas: a maioria dos sócios do Sporting queria Bruno na rua.

Mas recuperemos o que o texto da MAG apontava a BdC: o presidente fora um mau presidente porque tinha criticado publicamente os jogadores de futebol (factos: os “meninos mimados”, “meninos amuados” e as “crianças mimadas”); porque tinha deixado os futebolistas entregues à sua sorte após o ataque a Alcochete (facto: nenhum dirigente acompanhou a equipa ao posto da GNR e Bruno de Carvalho adjetivou de “chato” o incidente); e porque tinha recorrido a um rodízio de insultos quando falou dos sportinguistas não alinhados (factos: “sportingados”, “ratos”, “ovelhas”), do comentador da SICN Rui Santos (factos: “piquinho a azedo”, “feitio de gaja”) e de António Salvador (factos: “labrego” e “trolha”).

Eu recordo-me de outras expressões descabidas de BdC, mas esta crónica não é sobre BdC. Ou melhor, não é apenas sobre BdC.

Calhou que na sexta-feira, Frederico Varandas contra-atacou Jorge Nuno Pinto da Costa. Chamou-lhe “bandido” e “um bandido será sempre um bandido”, pelo que “um bandido será sempre recordado como um bandido”. Fê-lo à chegada ao Aeroporto Humberto Delgado, antes de o Sporting embarcar para os Açores para jogar com o Santa Clara;

[A propósito, recordo-me de BdC falar em “nádegas”, “ânus” e “autoclismo” nos Açores, mas uma vez mais isto não é sobre BdC, foi só uma coisa que me ocorreu].

Havia um contexto para as palavras de Frederico Varandas reavivar para efeitos de enquadramento: depois do Sporting 2-2 FC Porto, o presidente do Sporting criticou a arbitragem e dias mais tarde Jorge Nuno Pinto da Costa resolveu atirar ao corpo. Disse que Varandas tinha sido o “único beneficiado” com o ataque de Alcochete, porque era médico do clube na altura e hoje era presidente; e disse também que Varandas faria um grande favor ao Sporting quando voltasse a exercer a profissão e se deixasse de futebóis.

É claro que Pinto da Costa sabia onde estava a espetar a faca, porque a teoria de que Varandas se teria aproveitado da invasão para assumir o controlo do clube está disseminada entre os brunistas. Sugerindo essa conspiração, Pinto da Costa alimentou o #Varandasout.

E então, depois de ter pesquisado no Google por “Apito + Dourado”, Frederico Varandas respondeu desassombradamente a Pinto da Costa dizendo que este era um “bandido”, apesar de ser um homem “culturalmente acima da média”.

Ora, não sendo um especialista em linguística, tenho quase a certeza de que “bandido” está acima de “criminoso” que está acima de “ladrão” que está acima de “gatuno” na tradição da ofensa em bom português. Bandido é ruim e por isso foi tão surpreendente tê-lo ouvido de Frederico Varandas, que assumiu o Sporting apostado - disse ele - em mudar o clima do futebol português, muito embora tenha arrancado logo a falar em “vergonha”, “vassalagem”, “decadência moral” e “condutas promíscuas” nos comentários aos casos de justiça do Benfica.

Fazendo um esforço de boa vontade, compreendo que Varandas queira “falar alto”, pois também prometera que o faria se o Sporting fosse prejudicado. E também posso entender que Varandas se sinta picado pela ironia de Pinto da Costa quando este explora a fragilidade do seu mandato à frente do clube de Alvalade. Por fim, posso igualmente aceitar que isto pode ser percebido como um ato de coragem de alguém, como Varandas diz, que "não tem telhados de vidro".

Mas esperava-se que Frederico Varandas, dirigente desportivo com formação militar e superior, não caísse no engodo em que todos os outros caíram antes dele, levando a discussão do futebol da relva para a lama. É que a crise anda por aí, isto não será fácil para ninguém e quando se pedirem, justamente, condições iguais para o adepto da bola e do espetáculo de variedades, convém que o exemplo venha de cima.

Senão - parafraseando RAP - isto será visto como uma cambada de ladrões, gatunos e de “bandidos”.