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“Resultados ao Intervalo pela Verdade”, o comentador dos gráficos implacáveis e a voz de cangalheiro de outro: o pós-jogo Portugal - França

Não vi nenhum regresso ao passado, aos tempos em que a seleção entrava a perder contra equipas mais fortes, em que os jogadores tremiam e se não tremiam era só para se aguentarem de pé enquanto pediam o autógrafo a italianos, alemães ou franceses. Esses tempos não voltam

Bruno Vieira Amaral

Carlos Rodrigues

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Portugal perdeu com França e a boa notícia é que o acontecimento, até há pouco tempo uma banalidade, uma daquelas certezas matemáticas a que não podíamos escapar, é notícia. Nem teve de ser uma goleada ou num jogo das meias-finais de uma grande competição. Bastou um magérrimo 0-1 (para a quantidade de oportunidades que tiveram os franceses até foram frugais) para a Liga das Nações para soarem os alarmes da catástrofe iminente e as acusações de que o alardeado Portugal de marca não passa afinal de uma imitação rasca das seleções genuinamente poderosas, uma seleção contrafeita, uma seleção a brincar aos crescidos.

Anteontem, os estúdios de televisão estavam a meia-luz, soturnos, e os rostos dos comentadores apresentavam-se cinzentos, doentios, de uma das doenças ruins que nos minam por dentro e só assomam à superfície naquela tonalidade cinzenta da pele.

O jogo da seleção caiu-lhes mal, não há dúvida.

Um dos comentadores, em tempos idos escudeiro de um selecionador de má memória, brandia uma folha com uns gráficos implacáveis que mostravam o fraquíssimo currículo da seleção contra os grandes potentados da modalidade. Outro, numa voz cava de cangalheiro, falava num tenebroso regresso ao passado.

Este Portugal, que nos andou a enganar com troféus conquistados sabe Deus como, é afinal um embuste, uma seleção de malabaristas que, assim com as coisas apertam e o adversário faz voz grossa, deixam cair com estrépito os pratos no chão.

Entretanto, mudei de canal, vi qualquer coisa na Netflix, mas desconfio que tenham pedido a cabeça de Fernando Santos, lembrado o futebol pragmático de 2016, assinalado a idade patriarcal de Cristiano Ronaldo e a decisão de deixar Jota no banco (“o português em melhor forma!” – foi o argumento dos múltiplos treinadores de bancada que prosperam nas derrotas e estiolam nas vitórias), e previsto um futuro negro para o futebol português, que a estes jogadores horas antes elogiados como magos do futebol moderno falta-lhes afinal pujança física e mentalidade viking.

Tudo isto porque Portugal perdeu – e perdeu com toda a justiça – contra uma França – a seleção campeã do mundo – que parece ter aprendido alguma coisa com o jogo de Paris, em que Portugal foi melhor e que induziu precisamente nos mesmos comentadores que se entretiveram a tirar o escalpe a cada um dos jogadores da seleção uma euforia e um excessivo estado de embriaguez que dava a entender que não só tínhamos uma das melhores seleções da história do futebol como, a partir de agora, tínhamos a obrigação patriótica de esmagar os adversários com vagas sucessivas do nosso virtuosismo transbordante que não cabe no relvado, nem no banco, nem sequer na convocatória.

E enquanto estávamos todos distraídos a pensar na maneira mais artística de espetar cinco batatas aos gauleses – jogamos com o quarteto fantástico? Ou com os cinco violinos? Com jeitinho dá para meter em campo os sete magníficos – Didier Deschamps, com o seu semblante rústico, agrícola, congeminava uma maneira de dominar o meio-campo português e, retirando a referência ofensiva (aquilo a que normalmente se chama “pinheiro”) que facilitaria o trabalho da nossa defesa, desmagnetizar a bússola dos nossos homens mais recuados. O plano resultou na perfeição. Ao intervalo, o resultado era tão enganador que não estranharia vê-lo num grupo chamado “Resultados ao Intervalo pela Verdade”.

No início da segunda parte, fez-se justiça por linhas mais ou menos tortas: o golo foi marcado pelo melhor jogador em campo, N’Golo Kanté, e aconteceu por causa de um pequeno deslize do segundo melhor jogador em campo, Rui Patrício. A partir daí Portugal subiu um pouco, a França desceu um pouco, mas a balança nunca tombou para o nosso lado como tinha tombado na primeira parte para o lado dos franceses.

Tivemos algumas oportunidades – nem muitas, nem muito flagrantes – e a França, com humildade e respeito pelo adversário, foi-nos mantendo a uma razoável distância de segurança.

Isto foi o que aconteceu. Não vi nenhum regresso ao passado, aos tempos em que a seleção entrava a perder contra equipas mais fortes, em que os jogadores tremiam e se não tremiam era só para se aguentarem de pé enquanto pediam o autógrafo a italianos, alemães ou franceses.

Esses tempos não voltam.

Bruno Fernandes partilha o balneário com Pogba e Martial, Trincão treina todos os dias com Griezmann, Rabiot é que se calhar pediu o autógrafo a Ronaldo quando foi para a Juventus. Mas esperar que a seleção dê banho de bola e tosquie adversários do gabarito dos franceses é capaz de ser megalomania.

Não, não foi Portugal que regressou ao passado. Nós é que nunca mais aprendemos a manter os pés no chão para não sofrermos estes abruptos regressos à terra.