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Mourinho, Guardiola e as belezas do futebol

"Então Mourinho é outra vez o maior e Guardiola já não presta? Não entremos em maniqueísmos de sentido inverso. Se o jogo de sábado provou alguma coisa é que a beleza do futebol está na variedade", escreve Bruno Vieira Amaral sobre a vitória do Tottenham frente ao Manchester City

Bruno Vieira Amaral

Neil Hall - PA Images

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Não gosto de Guardiola. E ele com isso, pergunta o leitor? Nada. É para o lado que ele dorme melhor, como se diz, e eu também. Não é nada de grave. Se não lhe tira o sono a ele, que desconhece este pobre escriba, também não mo tira a mim. É só mais uma daquelas irritações epidérmicas, instantâneas e duradouras que não conseguimos explicar pelos mecanismos da razão. Ou talvez conseguíssemos se nos dedicássemos a isto, mas sabe-nos melhor cultivar a incompreensível ojeriza, como dizem os nossos irmãos brasileiros.

Vamos lá. Reconheço à vontade que nunca vi jogar uma equipa como o Barcelona de Guardiola. Em certas ocasiões – lembro uma meia-hora no estádio do Arsenal e o jogo contra o Santos de Neymar – transformou um desporto de atrito num suavíssimo monólogo. Na história do futebol existem outras equipas fantásticas, mas a não ser nos primórdios, em que poderia haver uma grande diferença entre clubes, duvido que outra equipa tenha exercido um domínio tão sufocante (e a palavra aqui é exata, não é um lugar-comum, o Barcelona tirava o ar aos adversários) como o Barça de Guardiola nos seus melhores dias.

Ora, o que me irritava, e ainda hoje me irrita, era o discurso do purismo do futebol catalão, o tiki-taka como única religião verdadeira, a afirmação da superioridade estética daquele estilo que, e isto é que era imperdoável, acarretava a exclusão de todas as outras abordagens e um anátema lançado sobre quem não professasse a fé na posse de bola. Guardiola nem era o pior deles todos. Xavi, um jogador monstruoso, era o Torquemada desta inquisição, o censor que carimbava o “nihil obstat” e condenava tudo o que não lhe agradasse às masmorras do anti-futebol.

Guardiola seguiu para o Bayern e os seus admiradores garantiam que tinha ensinado os alemães a jogar à bola e que era ele o grande responsável pela conquista do campeonato do mundo em 2014. Foi para o Manchester City e, de repente, os bons resultados da seleção inglesa também tinham o dedo mágico de Guardiola. Entretanto, Portugal e França ganharam os campeonatos da Europa e do mundo e de certeza que terá havido um fanático do guardiolismo a encontrar vestígios desta corrente esotérica no futebol de pragmatismo arcaico de Deschamps e Fernando Santos.

Neil Hall - by Pool/Getty Images

Este incensar permanente de Guardiola vinha em detrimento da qualidade dos jogadores, reduzidos a meros peões do xadrez mental do treinador. Messi? Xavi? Iniesta? Lahm? Thiago Alcantara? Kevin de Bruyne? David Silva? Anjos do relvado que sem Guardiola estariam a penar na agricultura. Guardiola ficou tão convencido do seu visionarismo que em muitos jogos se pôs a brincar com trocas de posições, invenções táticas cuja única utilidade era a de lembrar ao mundo o génio do homem sentado no banco. Às vezes, os próprios jogadores pareciam confundidos pela inteligência e ofuscados pelo brilhantismo do treinador.

Com isto não quero retirar nenhum mérito aos feitos de Guardiola. É um grande treinador e não será uma má época ou uma série de maus resultados a alterar esse facto que não merece contestação. Mas não é, e nunca foi, apenas nas suas equipas e no seu estilo particular que se encontra beleza no futebol. Uma das coisas mais belas que vi no futebol foi graças a Guardiola na célebre meia-final da Champions de 2010 que opôs o Barcelona ao Inter de Mourinho. Durante grande parte do jogo, o Barcelona trocou a bola à volta da grande área dos italianos, maravilhosamente entrincheirados no seu covil. A bola ia de um lado ao outro e a defesa do Inter movia-se com a harmonia de um acordeão e a precisão de um relógio, frustrando a criatividade e a invenção do Barça.

Escrevi ali em cima que o Barcelona sufocava os adversários, retirava-lhes o ar. O que Mourinho fez foi ensinar os seus jogadores a jogar em apneia e a causar dano nas poucas vezes em que podiam vir à superfície encher os pulmões. Exatamente o que se passou há dois dias no confronto entre Tottenham e Manchester City. Uma equipa com muita bola e sem criar perigo e a outra equipa a criar muito perigo com muito menos bola. Duas abordagens antitéticas que oferecem dois tipos diferentes de beleza quando são eficazes. É que no futebol, como em qualquer desporto competitivo, a beleza não se pode dissociar da eficácia. Um penálti à Panenka é belo quando a bola entra. Quando a bola não entra, é uma idiotice.

Então Mourinho é outra vez o maior e Guardiola já não presta? Não entremos em maniqueísmos de sentido inverso. Se o jogo de sábado provou alguma coisa é que a beleza do futebol está na variedade. Não há uma verdade única nem infalibilidade papal. Há beleza num futebol avassalador de posse como há beleza num futebol de golpes cirúrgicos e certeiros que mandam abaixo um adversário cansado de procurar brechas numa muralha defensiva. Feliz do adepto que é sensível a todos os tipos de beleza.