Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Crónica

As lições de Mister Vítor Oliveira

"Nas suas palavras sábias, avessas a mitificações e a providencialismos baratos, pressentia-se um conhecimento profundo do futebol e das pequenas coisas que tantas vezes determinam o sucesso ou insucesso. O mister Vítor Oliveira sabia muito. Sobre futebol. Sobre a vida. E para isso, infelizmente, não há prémio 'The Best'", escreve Bruno Vieira Amaral sobre o treinador que nos deixou este fim de semana

Bruno Vieira Amaral

O treinador Vítor Oliveira

Rui Duarte Silva

Partilhar

Causou estranheza, e alguma indignação, a inclusão de Marcelo Bielsa na lista de cinco candidatos ao troféu de melhor treinador do mundo. André Villas-Boas, treinador com um dos percursos mais originais no futebol contemporâneo, falou em escândalo por causa da exclusão de Thomas Tuchel, técnico do Paris Saint-Germain, campeão de França e finalista vencido da Champions, em favor do feiticeiro argentino que se “limitou” a vencer a segunda divisão inglesa e a trazer o Leeds de volta à Premier League.

Este tipo de prémios raramente, se é que alguma vez, contempla critérios subjetivos. Os organizadores, neste caso a FIFA, jogam à defesa e escolhem os treinadores, quase sempre europeus ou a treinar na Europa, que ganharam alguma coisa e não aqueles que poderão ter contribuído com táticas inovadoras, mas que chegam ao fim da época sem troféus e, por vezes, sem patrão. Vejamos os outros quatro da lista: Zinedine Zidane, campeão espanhol com o Real Madrid, Jürgen Klopp, campeão inglês com o Liverpool, Julen Lopetegui, vencedor da Liga Europa com o Sevilha, e Hansi Flick, treinador que conduziu o Bayern à sexta Liga dos Campeões.

Nada de estranho nestes nomeados. Os dois vencedores das competições europeias, sendo que um deles ganhou também o título doméstico de um dos cinco maiores campeonatos, e outros dois campeões nacionais das ligas que contam para o Totobola, como se dizia antigamente. A inclusão de Zidane já era reveladora de uma falta de imaginação idêntica à que o Real Madrid revela em campo. O júri mostrou pelo menos a decência de se esquivar à vergonha de nomear Maurizio Sarri, campeão italiano com a Juventus e ainda há poucos anos festejado como o inventor do Sarriball (isto para se ver como alguns inovadores de ontem são os proscritos de hoje, mesmo com títulos no bolso), mas a desfeita ao treinador alemão do PSG, apesar de a League 1 ser o menos importante dos campeonatos mais importantes, indicia a vontade de, por uma vez, reconhecer os méritos de um treinador não pelos títulos alcançados, mas pelas suas ideias – ou alguém acredita que Bielsa foi incluído pela conquista do Championship?

Carlos Rodrigues/Getty

E aqui põe-se o problema de saber quanto valem as ideias sem resultados. Ou se todos os treinadores são avaliados pela mesma bitola. As ideias sem resultados valem pouco a não ser que se seja… Marcelo Bielsa, que é um dos poucos treinadores mais avaliados pelas ideias do que pelos resultados. Desde que Guardiola falou de Bielsa como se se tratasse de um mestre Jedi e desde que o Athletic Bilbao do argentino deu uma lição de futebol aos insulares ingleses em Old Trafford, Bielsa transformou-se no símbolo do “treinador de ideias”, do “treinador-filósofo”, o darling da imprensa e dos hipsters aspirantes a treinadores de futebol. Quando não tem resultados, Bielsa é o homem que não abdica das suas ideias mesmo que no fim tenha de perder. Quando tem resultados, estes provam a superioridade da sua filosofia. Como tal, as vitórias e as derrotas de Bielsa, e talvez até os seus empates, são vistas como expressões do seu génio.

O mesmo vale para a particular posição que assume na linha lateral, os óculos descaídos e embaciados, o ar de quem permanece impassível e focado no jogo mesmo que o céu esteja a desabar porque, lá está, ele é um treinador de ideias, de arquétipos, de conceitos, paira acima dos elementos, dos jogadores e dos resultados. Em defesa de Bielsa diga-se que ele faz o possível para contrariar esta ideia mística. Mas os seus fãs não querem saber disso para nada. Atribuem tal postura à humildade do génio, à modéstia do santo. E a ideia é tão forte que finalmente chegou às esferas de decisão. A escolha de Bielsa – que não irá ganhar o prémio – é o verdadeiro prémio. Ao selecioná-lo com tão frágeis bases objetivas, o júri está a dizer “o melhor destes cinco é Bielsa”, quase triste por não ter um título mais importante para servir de pretexto à atribuição do prémio.

Com tudo isto, regista-se a proeza rara de, à simples menção do treinador, tudo o resto – jogadores e resultados – passar para segundo plano. Neste fim-de-semana o Leeds bateu o Everton e as manchetes foram: “Bielsa supera Ancelotti”. Será errado o destaque dado a Bielsa? Não é ele um bom treinador? As suas equipas não praticam um futebol distinto? O que me parece é que Bielsa beneficia de uma boa-vontade que não se estende a todos os outros treinadores que fazem excelentes trabalhos mesmo que não alcancem os títulos que os tornem elegíveis para os maiores prémios. Sejamos honestos: Bielsa é um treinador com uma reputação e um reconhecimento que superam largamente os seus resultados. E os resultados não são tudo, mas também não são nada.

Rui Duarte Silva

Há dois dias perdemos Vítor Oliveira, um dos nossos maiores treinadores, um homem que só ao fim de duas mãos cheias de subidas de divisão conseguiu que percebessem o que queria e o que fazia, ou seja, que o ouvissem e percebessem as suas ideias. E algumas dessas ideias estão na entrevista que deu à Tribuna:

Sobre a importância dos jogadores: “reconheço que mesmo cometendo erros, se tivermos um bom plantel estamos sempre mais perto da vitória”; “para subir de divisão temos de ter uma muito boa equipa. Não há cá milagres ou varinhas mágicas. É preciso ter um bom plantel”.

Sobre os outros treinadores: “Há muita gente competente na II Liga. E há treinadores melhores do que eu, só que não vão tão longe porque se calhar não têm tido as condições que eu tenho tido.”

Sobre a importância dos resultados: “o futebol é para quem ganha. E o que me move é isso: ganhar e ter o maior número possível de vitórias.”

Aqui está um homem que, apesar de ter treinado onde queria, com as condições que exigia e de ter alcançado muitas vezes os objetivos a que se propunha, nunca seria escolhido para a lista de cinco melhores do mundo, que nem sequer foi escolhido para treinar um dos três “grandes” em Portugal. Só quando o seu trabalho mereceu os títulos exuberantes de “rei das subidas” ou de “milagreiro da II Liga”, ou seja, só quando o mito se sobrepôs ao trabalho é que se começou a olhar para ele como um grande treinador. Aquela aura que rodeia Bielsa chegou tarde de mais a Vítor Oliveira. No entanto, nas suas palavras sábias, avessas a mitificações e a providencialismos baratos, pressentia-se um conhecimento profundo do futebol e das pequenas coisas que tantas vezes determinam o sucesso ou insucesso. O mister Vítor Oliveira sabia muito. Sobre futebol. Sobre a vida. E para isso, infelizmente, não há prémio “The Best”.