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Vi os 630 minutos de Diego Armando Maradona em 86 e também eu pergunto de que planeta veio Ele

Passam-se sete dias da morte de Maradona, a Tribuna Expresso viaja até ao México-86 para explicar o que por lá aconteceu. Jogo por jogo, com análises e confissões, num texto que é uma homenagem ao futebolista cósmico a quem chamaram Deus

Hugo Tavares da Silva

STAFF

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Outro dia ouvi que o filho de um casal amigo chora porque não se vê nas fotografias do casamento dos pais. O sentimento não anda muito longe do que sentem aqueles que não estavam conscientes nos anos 80. Esta quarta-feira, ao sétimo dia da despedida do 10, viajamos até ao Campeonato do Mundo de 86, no México, onde Maradona foi mais Maradona do que nunca.

Uma das primeiras mensagens que recebi, pouco depois de se saber da morte de Diego Armando Maradona, chegou de Buenos Aires, naquele sotaque deles, num tom pausado. “Muito triste pela notícia do maior, de Diego, que se foi mas que é eterno para nós. O futebol morreu, hoje morreu o futebol. Uma lenda. Estamos todos muito tristes pelo que nos toca passar. Mas, bom, vamos recordá-lo como o maior de todos os tempos, deu o máximo por todos os argentinos. Não parei de chorar, sinto-me muito triste, os meus amigos também. Aqui, no meu bairro, não se ouve nada. Suponho que na Argentina também não. Estamos todos assim, não podemos acreditar. Estará sempre gravado no nosso coração. Tocou-nos viver a vê-lo jogar, deu-nos tantas alegrias. Agora há uma tristeza profunda, mas a vida é uma tômbola, como dizia Manu Chao, que lhe dedicou uma canção. E nada… O mundo vai recordá-lo por toda a eternidade.”

E silêncio.

Conheci Ricardo Constantino, ou Ricardito (como lhe passei a chamar por causa de um livro de Vargas Llosa), que tinha pensamentos profundos, bom coração e uma vontade louca de conhecer a Europa, em Tilcara, no norte da Argentina, em 2017. Uma garrafa de vinho que circulava no quintal do hostel onde estávamos uns quantos e o futebol abriu-nos a porta para uma conversa inevitável e uma amizade obrigatória. Ainda por cima em Tilcara, na província de Jujuy, onde supostamente morou a razão do jejum futeboleiro daquele país e onde, em 86, a seleção argentina fez um estágio, desafiando o calor e a altitude. Diz a lenda que Carlos Bilardo prometeu, caso vencessem o México-86, regressarem para agradecer à Virgem de Copacabana de Tilcara. “Mas porquê é que não vieram?! Não custava nada...”, ouviu-se num tom indignado, num daqueles churrascos já debaixo do céu da noite, pelo pibe de boné que tomava conta do fogo.

Carlos Bilardo, o selecionador de 86 a quem desligaram a televisão no hospital para não descobrir a morte de Diego, numa espécie de “Adeus, Lenine!”, negou esta história. Pelo sim, pelo não, alguns heróis de 86, nomeadamente Brown, Pumpido, Olarticoechea, Batista, Giusti, Enrique, Garré e Tapia, foram a Tilcara antes do Mundial de 2018.

Mas, de lá para cá, Diego era o mais divino que havia e o único milagre era o que acontecia cada vez que a bota Puma King esquerda tocava na bola. Esquecida a convocatória que não chegou em 78 e a desilusão de 82, ambas as campanhas sob a liderança de César Menotti (com quem foi campeão do mundo sub-20, em 79), chegamos ao México.

Diego, um futebolista do Napoli, de 25 anos, ganhara até então uma liga argentina com o Boca Juniors, em 81, e uma Copa do Rey, outra Copa da Liga e a Supercopa de Espanha, tudo em 83, no Barcelona. Pouco mais de 10 anos antes, naquela que foi porventura a primeira aparição televisiva enquanto fenómeno da formação do Argentinos Juniors, Diego revelou o que magicava para o futuro. “Tenho dois sonhos: o primeiro é jogar um Mundial, o segundo é ser campeão…”

"Maradona jogou o Mundial perfeito"

Vicente Muglia, um jornalista do “Olé”, tinha nove anos na altura e lembra-se de ver o seu pai a colocar um fio de alho em cima do televisor para dar sorte. “A Argentina, nesse Mundial, não precisou de sorte porque jogou com o futebolista que mudou a história, Maradona”, conta à Tribuna Expresso. “Era uma seleção muito, muito discutida, muito criticada. O objetivo das pessoas era passar a primeira fase. Ninguém acreditava que podia ser campeã. O nível e os resultados antes do Mundial não foram bons.”

Muglia acredita que a atuação de Diego Armando Maradona é a melhor que já foi vista em campeonatos do mundo. “Podemos falar de Pelé de 58 ou Pelé de 70, mas aquelas duas equipas do Brasil eram verdadeiros equipazos. Pelé estava rodeado de figuras que eram craques mundiais. Garricha, Didi. Para nem falar de 70, com Gerson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Clodoaldo… Nunca voltaremos a ver uma atuação individual tão determinante, tão decisiva. Maradona jogou o Mundial perfeito. Foi decisivo em praticamente todos os golos da Argentina. Teve exibições magníficas.”

A relação entre Carlos Bilardo e os escolhidos para atuar na seleção nacional não começou nada bem e foi complicada. O estilo de jogo não os enamorava, muito menos as marcações individuais. Foi depois de uma reunião de quatro horas, numa concentração em Ezeiza, que el narigón os convenceu (ou quase), conta este artigo da mítica revista “El Gráfico”.

“Além dessa troca de opiniões, a rota para o México-86 foi marcada por momentos quentes”, pode ler-se no mesmo artigo. “Mas o mais comovente foi aquele que quase culminou com a substituição de Bilardo, a dois meses do início do Mundial. A seleção não jogava bem, Maradona não brilhava e, exceto aquela digressão de 1984 (quando a seleção venceu a Alemanha por 3-2 como visitante), raramente convenceu os adeptos. O clima não era animador. Poucos confiavam nos nossos jogadores. Ficávamos deslumbrados ao ver na televisão a contundência da Alemanha de Rummenigge, o Brasil angelical de Zico e Sócrates ou o brilhantismo da França de Platini. A Argentina ni fu ni fa [era assim-assim]. Pelo contrário, foi capaz de perder contra rivais do terceiro escalão, como a Noruega.” Tremeu mas, com a ajuda de alguns nomes influentes da imprensa, Bilardo aguentou-se no cargo e disputaria o Campeonato do Mundo, no México.

A seleção, que superou um desentendimento entre Diego e Daniel Passarella (inflamado por uma patada feia do defesa num Napoli-Fiorentina), foi a primeira a chegar ao México. A “El Gráfico” conta mais: “Na intimidade, o plantel estava dividido. Havia os que apoiavam Bilardo até à morte – Ruggeri, Giusti, Burruchaga, Brown e Garré – e os que aceitavam as suas ideias táticas por obrigação – Sergio Batista, Passarella, Valdano, Bochini”.

A poucos dias da estreia com a Coreia do Sul, Passarella sofreu uma intoxicação por um vírus que estava na água que ingeriu. O futebolista histórico do River Plate, que na altura jogava em Florença, perdeu seis quilos e não jogou nem um segundo daquele torneio. Chamam-lhe a “maldição de Montezuma”. Tata Brown, que morreu em agosto e que foi um dos heróis da final de 86, em que fez lembrar por momentos Beckenbauer de braço ao peito, foi o substituto de Passarella, que chegou a desconfiar da equipa técnica.

A máquina do tempo

Por causa da morte do diez, naquele trágico 25 de novembro de 2020, enfiei-me na máquina do tempo e fui ver todos os jogos da Argentina naquele Mundial. Como jogavam? Seria Bilardo o oposto do que defende Menotti? Como era Diego em campo, afinal? Que tal Valdano, jogava como escreve? E Burruchaga, tão famoso por entrar no relato de todos os tempos de Víctor Hugo Morales sem sequer tocar na bola, quem era? Pumpido, Ruggeri, Brown, enfim. A que jogava esta gente? Resumindo o Campeonato do Mundo de 86, a Argentina foi levada às costas por Diego até à final, foi uma espécie de torneio de exibição da zurda de Lanús, e nesse derradeiro jogo, no Estádio Azteca, com mais de 114 mil pessoas nas bancadas, foram os outros 10 que permitiram ao pibe da canhota genial cumprir o segundo sonho da infância.

Por estes dias, pensando naquelas semanas pela Argentina em 2017, lembro-me de uma conversa com Norberto, um homem que vendia relíquias futeboleiras no Mercado de San Telmo, um tesouro de Buenos Aires onde se podem ver, na rua, corpos bem fardados a mostrar o que é o verdadeiro tango. Norberto era corpulento, careca, sisudo, mas havia uma ternura por descobrir. Ele percebe, explicou depois, se as pessoas realmente estão interessadas nas camisolas ou se gostam de futebol pelo toque nos tecidos. Fica enojado quando alguém é bruto com o ouro que se veste.

- Que procuras?
- Algo de 86 ou de Batistuta...

Devo ter respeitado o suficiente aquele tecido porque, alguns minutos depois de mostrar várias camisetas e a preciosa 10 assinada por Diego (“esta não está à venda”), puxou um banco e por ali ficámos mais duas horas. Falou-se da vida, com alguma filosofia pelo meio - os argentinos parecem ter vivido três vidas para falarem de coisas profundas numa quarta - e, claro, de futebol. Muito futebol.

Era adepto do Platense, um clube que então estava na 3ª divisão. “Ele tinha 17 anos, eu tinha 16 e ia ao campo do Argentinos Juniors ver o Maradona. Ia toda a gente lá para o ver, não eram adeptos do Argentinos Juniors.” E como era? “Só levava patadas, mas ele saltava, sei lá… O futebol mudou muito”, resumiu, revelando finalmente um sorriso terno, eternizado numa fotografia ao lado da tal camisola 10 assinada.

Em 86 não foi muito diferente. No jogo de estreia, contra os sul-coreanos, o médio-extremo-10-avançado levou muita porrada. A Argentina, com facilidade, chegou ao 3-0, com golos de Ruggeri e Valdano (2), que mereceu destaque nas páginas do “Diário de Lisboa”, um arquivo que aqui e ali vamos visitar. Diego fez três assistências. Os avançados da Coreia do Sul perderam a vergonha na segunda parte e, perante o relaxamento argentino, mostraram qualidade. Park Chang-Sun fez o 3-1 final.

Onze

A seguir foi a Itália de Enzo Bearzot, os campeões do mundo, os tais que acabaram com os suspiros pelo Brasil de Telê Santana. Foi uma matança, com entradas violentas dos dois lados, com momentos de beleza de Diego e Bruno Conti, que até rematou uma bola ao poste. “O jogo teve um período de picardias entre os jogadores e Bergomi conseguiu o indesejado feito de se tornar no primeiro jogador a ser suspenso por um jogo devido ao segundo cartão amarelo”, pode ler-se no “Diário de Lisboa”. Altobelli marcou primeiro, de penálti, logo aos 6’ - foi a única vez que os argentinos estiveram em desvantagem durante aquele mês. Maradona fez o primeiro golaço do torneio aqui, depois de uma assistência de Valdano. Diego desviou a bola de Giovanni Galli no ar, antecipando-se ao mítico Gaetano Scirea e ao corte anunciado. Salvatore Bagni, colega de Maradona no Napoli, falaria em erro por o considerarem um jogador normal. “Usou o pé como o tenista usa a raquete quando está na rede”, diria Bagni muitos anos depois. “Desafiou as leis da Física”, sentencia Muglia.

Na última jornada do Grupo A, Diego voltou a encher o campo contra a Bulgária. Valdano marcou primeiro, de cabeça, num gesto em que parece ficar suspenso no ar. A seguir foi Burruchaga, depois de uma correria desenfreada de Maradona pela esquerda, em que elimina um rival como se nada fosse, sacando depois um cruzamento maravilhoso para a cabeça do camisola 7 da seleção argentina. Aqui começava a formar-se uma dupla muito interessante, seria o melhor sócio de Diego, a par de Valdano, mas o mais importante para desbloquear o jogo argentino. “Trabalhámos muito isso com Bilardo”, admitiria Burruchaga, em 2010, numa entrevista ao Globo Esporte. “Quando Diego estivesse marcado, eu seria o segundo condutor de bola no meio. É muito complicado jogar contra o Maradona, mas ao lado dele também é muito difícil. É preciso muita concentração e atenção. Ele podia fazer-te um passe de costas, impossível de prever, num piscar de olhos.”

E é isso que se vê, em todos os jogos. O toque é divino. A bola, obediente, aceita a ditadura do talento. Diego era único, juntava técnica, potência e parecia ter olhos no corpo todo. E aquele sorriso de menino, não houve ninguém mais apaixonado por uma bola de futebol. O calcanhar, as mudanças de direção, as travagens, foi um tratado de gambetas. A relva nem era regular, estava seca e alta, por isso a bola por vezes saltava, mas a canhota de Maradona parecia prever tudo e dava um toque à última hora para desviá-la dos outros. E ele jogava de costas, no ar, de todas as maneiras. Levava tanta, tanta pancada, mas quando podia mantinha-se de pé, assente naqueles músculos das pernas colossais. Olhos na bola, sempre iluminado. O acerto e a qualidade são até difíceis de compreender. A bota parecia ter uma mola, a bola acelerava sempre. Há inúmeras fotografias alojadas na lembrança que ali, num click, passam a estar em movimento. E há uma coisa que não se vê em sete jogos: não levantava o braço uma vez aos colegas, não barafustava, não se frustrava pelo fosso que havia entre ele e os homens normais. Nem quando levava entradas assassinas, percebia os contornos do que é inevitável.

Seguiu-se o clásico del Río de la Plata: Argentina-Uruguai. O 10 chutou um livre direto à barra e até fez uma jogada de sonho pela direita oferecendo o golo cantado ao desafinado Valdano, mas aquele jogo teve um herói improvável. “Pedro Pasculli, aproveitando um erro da defesa contrária, marcou o golo da vitória, numa partida marcada por virilidade de parte a parte”, contava então o “Diário de Lisboa”. Do lado uruguaio, Enzo Francescoli mostrou, em muitos lances, por que razão Zidane deu alguns anos depois aquele nome a um dos filhos.

Nos quartos de final, já sabemos, o tal jogaço com a Inglaterra. Aquela correria, naquela tarde berrada por Víctor Hugo Morales, acontecera de maneira semelhante em tantos outros jogos. Mas aquela foi a tal, a corrida das corridas. Antes do jogo, num assunto que era inevitável, Bilardo não quis misturar as coisas entre futebol e a guerra das Malvinas. “Seria uma falta de respeito com os nossos mortos enterrados nas ilhas. Se nos tocar a Inglaterra, será um mero jogo de futebol”, pode ler-se neste artigo da “El Gráfico”. Bilardo, el narigón, parecia tocado pela varinha mágica e decidiu dizer algo sobre o capitão de equipa. “Nunca destaco um jogador em especial, mas, como exemplo para os jovens, para os que começam, vou dizer duas palavras sobre Maradona: é um craque e está a jogar para a equipa, é um craque e treina como se fosse um qualquer. Não o digo por Maradona, quero que os miúdos que sonham em chegar à Primeira Divisão leiam isto. Nada se consegue sem sacrifício.”

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Dois-um, um golo imortal e outro com a mão (Gary Lineker marcou para os ingleses, depois de entrada em jogo e assistência impecáveis de John Barnes, uma fórmula que ia permitindo o 2-2). A Kusturica, Maradona, com aquele seu sorriso de malandro, de deus sujo, como dizia Galeano, afirmou que foi como se tivesse roubado uma carteira a um inglês. Há uns tempos circulava no Twitter um vídeo do ex-futebolista a definir-se: “Gosto de ser o Diego ‘pelusa’ Maradona, filho da puta, bom, normal, ignorante. Gosto de ser quem sou…”

“Quem discute o trono de Maradona?”, perguntava na altura o “Diário de Lisboa”, que no artigo mostrava a indignação e admiração de Bobby Robson: “Aquilo mais parecia uma jogada de andebol”, disse então o treinador que passaria por Portugal. Sobre o segundo do barrilete cósmico (um termo que foi um recado de Víctor Hugo Morales para Menotti, que havia considerado Maradona instável emocionalmente; barrilete é um papagaio, que sobe e desce ao sabor do vento), Robson falou em “milagre” e também num “golo fantástico”. E acrescentou: “Há muitos bons jogadores neste Mundial, mas hoje Maradona marcou um dos golos mais bonitos da história do futebol”. A camisola 10 de Maradona, na altura trocada com Steve Hodge, mora agora num museu inglês e está avaliada em qualquer coisa como 500 mil euros.

“A Argentina arrancou o Mundial com uma espécie de 4-4-2, tinha uma linha de quatro defesas: Clausen na direita, Ruggeri e Brown a centrais, e Garré na esquerda. Com a Inglaterra, nos quartos, Bilardo já jogou com o famoso 3-5-2”, lembra Muglia. Brown era o líbero, Ruggeri e Cuciuffo eram os centrais. A trinco, ou o “5” como dizem na América do Sul, estava Sergio Batista, o atual selecionador sub-20, que parecia ser daqueles que acabariam uma bebida tranquilamente mesmo que um bar estivesse a arder. Depois, perto de Batista, estavam Burruchaga e Héctor Enrique, que ofereciam muitas linhas de passe e que assumiam a condução de bola, queimando linhas e desbloqueando o jogo. Nas alas, mas aparecendo também por dentro aqui e ali, estavam Giusti e Olarticoechea, porventura os mais discretos daquela seleção. O estilo de jogo era de toque curto, associativo, variado, pausado, paciente e acelerado por algumas correrias e passes milimétricos. Valdano, solidário e fino com a bola, jogava na frente e era um avançado completo: atacava o espaço, baixava para se associar com quem vinha de frente para o jogo; era ótimo tecnicamente, ganhava de cabeça e defendia, corria que nem um desalmado, talvez por isso tenha falhado alguns golos fáceis. Era a inteligência e elegância ao serviço do jogo.

Anos mais tarde, Ruggeri revelou um pormenor que hoje faz muito sentido: “O que nos rimos com o Valdano. Foi [para o México] com duas malas, uma com roupa e a outra com livros. O Jorge foi muito importante em todos os sentidos, acabámos por ter um grupo bárbaro”. À “El Gráfico”, Maradona confirmou: “Valdano fazia-me rir muito. Entravas no quarto dele e parecia uma biblioteca. Era mais que estranho, esse Valdano. Todos comíamos o churrasco com um pouquito de vinho ou refrigerante, mas vinha o Jorge e pedia água. Vai embora Valdano!, se és argentino não podes comer asado com água…”

Atrás do grande avançado do Real Madrid estava Maradona, generoso e a colocar sempre os colegas em vantagem, era um vagabundo. As suas ações tinham sempre um propósito. Bola no pé de Muglia. “Maradona chegou a este Mundial na sua plenitude futebolística, na sua plenitude física. Preparou-se para ser o melhor do mundo. Animicamente estava num estado ideal. Diego jogava livre, não tinha posição determinada no campo. Era muito inteligente a posicionar-se para receber a bola, tratava de estar livre, e era o futebolista mais marcado pela equipa rival. Esse jogo com a Inglaterra foi o mais especial, pela guerra nas Malvinas. Creio que por isso, quando se fala no debate sobre Maradona ou Messi, não há equivalências. Não, não, não pode haver. Maradona é um ídolo popular, um mito, uma lenda que transcende o futebol. A partir da emoção é imbatível. Não existe comparação. Maradona era líder, um futebolista com personalidade e carisma únicos. Tinha uma grande virtude: potenciava todo o seu caráter e jogo na adversidade, era aí que aflorava o seu espírito rebelde.”

Com a Bélgica, nas meias, Burruchaga fez um passe sublime para o primeiro golo de Diego, que pressionado por dois rivais e mais a mancha do guarda-redes arranjou maneira de tocar a bola por cima do senhor das luvas. No 2-0 voltou a enfrentar meio mundo, encarou quatro belgas e disparou para as redes da baliza de Jean-Marie Pfaff, que ficou com a mítica camisola 10 no fim. No dia seguinte, Diego já mereceria finalmente a primeira página do “Diário de Lisboa”, que dizia: “Suplantando tudo quanto a antiga musa cantava, Diego Armando Maradona provou ontem, à saciedade e se alguma dúvida resistisse, que é o melhor futebolista presente no Mundial. Depois daquele fabuloso 2.º tento nas malhas inglesas, rubricou perante a Bélgica mais dois golos de antologia, para além de ter tomado os cordelinhos da turma e conduzir para a apetecida final o onze dos pampas. Um artista de eleição no jogo-rei”.

Um artista.

Volto a picar a gaveta da lembrança daquela viagem de 2017. Onde surgiu Maradona? Para além dos muros pintados em La Boca, o bairro do Boca Juniors, há também a Bombonera, claro. Foi inevitável imaginar que futebolistas como Maradona pisaram aquele relvado sagrado. O 10 foi o único que olhou o céu nos olhos. Tocou-me ver o Boca-Talleres. Trinta e seis anos antes, Diego estreara-se com a camisola do Boca exatamente contra o Talleres, de Córdoba. Jogou tocado. Ficou 4-1, o canhoto mais importante do mundo fez dois golos.

Antes desse jogo, e depois do famoso bife de chorizo e do choripán, lá fui levantar o bilhete que pingou graças a um jornalista do “Clarín”. E nunca esqueço o que ele me disse aí: “A Argentina vive futebol e respira futebol. Necessitamos mais disso do que de oxigénio. Que nos falte tudo, menos o futebol”. Abri o envelope e, quando entras como imprensa, vem um cartão com uma figura do clube. Há uns mais raros do que outros. E depois há, obviamente, o super raro, o raro dos raros, o barrilete cósmico. Estava escrito: saiu Maradona. “Que sorte, eh! Isso é muito raro…”, disse-me o homem que me avisara para não me assustar quando sentisse a Bombonera a abanar.

Mas houve mais Maradona, recordo agora. Combinei uma entrevista, em Nuñez, mesmo ao lado do Monumental, a cancha do River Plate, com o capitão dos ‘morcegos’, a seleção de cegos. Sílvio Velo é conhecido como o Maradona dos cegos. Quando alguém é o Maradona de alguma coisa, isso significa que é o melhor. Confirmei-o no treino antes da conversa. Não poucas vezes arrancava pela esquerda, com a bola colada ao pé, tornando inútil o guizo que ela tinha, e disparava com uma força impressionante. Também Sílvio Velo resolveu um Campeonato do Mundo (vs. Brasil) e, curiosamente, também esse golo foi narrado por Víctor Hugo Morales. O sorriso dele a contar aquilo foi um daqueles momentos especiais.

Diego está em muitas partes da nossa vida, naquela jogada impossível que todos já tentámos, ou num aquecimento com as botas desapertadas para nos sentirmos de alguma maneira especiais. Diego está até naquele juvenil insulto, como lembrou na sua crónica Enrique Ballester, quando alguém tenta fazer algo difícil com uma bola de futebol, uma jogada de todos os tempos ou uma finta que mais parece um milagre: "Estás armado em Maradona, ou quê!?" Mas Diego está também no lamento de muitos de nós, de não sermos canhotos...

A respiração de Mätthaus na nuca de Diego

Voltemos ao México, ao Estádio Azteca, com mais de 114 mil pessoas. Seria a consagração de Diego contra a República Federal da Alemanha, treinada por Franz Beckenbauer, que estivera como jogador nas finais de 66 e 74. No primeiro torneio foi considerado o melhor futebolista jovem, no segundo levantou a taça como capitão.

Bilardo repetiu o onze da meia-final contra a Bélgica: Nery Pumpido, José Luis Cuciuffo, José Luis Brown, Oscar Ruggeri, Jorge Burruchaga, Sergio Batista, Héctor Enrique, Ricardo Giusti, Julio Olarticoechea, Diego Maradona e Jorge Valdano.

Do outro lado estavam Harald Schumacher, Thomas Berthold, Karlheinz Förster, Ditmar Jakobs, Hans-Peter Briegel, Lothar Matthäus, Felix Magath, Andreas Brehme, Norbert Eder, Karl-Heinz Rummenigge e Klaus Allofs.

Os primeiros minutos, em que o árbitro brasileiro mandou dois alemães puxarem as meias para cima, mostraram logo que, finalmente, a Argentina estava perante uma seleção com uma qualidade igual ou superior, e que fisicamente era admirável. Diego teve aqui o mais pobre dos jogos deste torneio, para isso muito contribuiu a marcação individual de Lothar Mätthaus, que era implacável e também um excelente futebolista. O génio insistia mas pouco saiu, parecia estar tenso, não tolerava a mediocridade, não queria ser banal. Até que aceitou confiar nos colegas, começou a despachar a bola mais rápido, havia mais espaço se ele estava tão vigiado. Burruchaga e Enrique viraram super-homens com um raio de ação enorme.

Brown, de cabeça, e Jorge Valdano, a desviar de Schumacher num jeito muito Thierry Henry, fizeram os golos que colocaram a Argentina mais perto de repetir o feito de 78, com Kempes, Passarella, Ardiles e companhia. Mas a Alemanha é a Alemanha, campeã de 54 e 74, finalista de 66 e 82. Beckenbauer lançou ao intervalo Rudi Völler, começou o ensaio de chuveirinho, e o avançado, em seis minutos, já não muito longe do fim, fez um golo e tocou para outro de Rummenigge. As bolas paradas foram decisivas, já tinha sido assim no golo de Tata Brown. Cheirava a reviravolta…

Mas aconteceu Maradona.

A sete minutos do fim, a bola veio ter com o génio no meio-campo, num ou dois segundos percebeu o espaço e comandou a sua canhota angelical para, com um só toque, meter Burruchaga na cara de Schumacher. O médio do Independiente levou, levou, levou, até que desviou do guarda-redes e ficou gravado na eternidade: 3-2. Depois do apito viram-se papelitos, como em 78.

Peter Robinson - EMPICS

“Último tango arrumou a RFA”, escrevia o “Diário de Lisboa”, numa crónica que falava numa final bem disputada, com destaque para Burruchaga. “A guerra tática entre as duas equipas pautou a maior percentagem do tempo do encontro que, por esse motivo, esteve a um passo de tornar a final do Mundial num jogo lento e sem atrativos.” Mas não foi assim.

“Segundo o Juvenal, um histórico jornalista da 'El Gráfico', onde entrei em 93, ninguém foi tão influente como Maradona foi em 86, nem Pelé nem ninguém que veio depois”, diz à Tribuna Expresso Diego Borinsky, que entrevistou o futebolista em 2007. "Aí tocou o céu. Pensei que nunca ia ver outra pessoa a jogar assim futebol, mas depois apareceu Messi… Maradona meteu a vara muito alta. Sou de 67, tinha 18 anos, vivi o Mundial como hincha. Diego estava impressionante fisicamente, vê-se nos golos que faz, a jogar ao meio-dia, no México, a fazer corridas de 50 metros, num campo que era um desastre. Se vês o golo contra os ingleses, a bola vai saltando…”

Já Vicente Muglia diz que a figura de Maradona não vai deixar de agigantar-se. “Chorámos com ele de emoção e alegria, mas também de tristeza. É um legado. A minha filha, de 15 anos, gosta do Maradona e não o viu jogar. Transmiti-lhe esse amor por Maradona. Digo-lhe que ainda que pareça mentira, antes de Messi houve um melhor. É o maior que vi num campo de futebol, o meu ídolo máximo.” Foi o diez que motivou tantos abraços com pessoas importantes, recorda este jornalista. “Quanto tive oportunidade de jantar com ele disse-lhe isso, que ele também implicava e simbolizava esses abraços com gente que já não está, foi o motor desses abraços. Ele ouviu com muita alegria, com um sorriso. É isso que vou recordar. Pude despedir-me dele com um te quiero mucho, Diego.”

Maradona, já sabemos, não foi um exemplo para os jovens, suportou o que ninguém devia ter de suportar desde os 16 anos e refugiu-se à sua maneira. Mas fez o povo feliz, foi o mais argentino dos argentinos dentro de um campo de futebol, abençoado com uma técnica impossível e uma coragem épica. A primeira página da “Marca”, na ressaca da morte, lembrava uma frase dele: “Se morrer, quero voltar a nascer e quero ser futebolista. E quero voltar a ser Diego Armando Maradona. Sou um jogador que deu alegria às pessoas e isso chega e sobra…”

La pelota no se mancha, certo?

Jean-Yves Ruszniewski