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Já vos disse que Pizzi é um paradoxo? Não fui o primeiro

OK, a Liga Europa é a Champions dos pobres e o Lech é a “equipazita” de um grupo acessível, também estamos de acordo, mas o jogador do Benfica tem cinco golos e dois passes para golo em cinco jogos disputados, um deles como suplente utilizado. É o jogador mais influente da competição e isso é notável - mas desconfio que não seja suficiente para nos abandonarmos em elogios ao homem. Porquê?

Pedro Candeias

Desafio-vos a encontrar alguém que olha para vocês como Samaris olha para Pizzi

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Pizzi é um paradoxo. Não é um 7, nem um 8, muito menos um 9, talvez seja um 10, joga no Benfica há sete épocas, tem 285 jogos, 85 golos e 88 assistências. É ao mesmo tempo complicado e relativamente simples definir a sua importância através dos números, que escondem algumas coisas e mostram outras.

Por isso, há quem o adore e quem o despreze, quem elogie a sua eficácia quando marca e denuncie erros de posicionamento quando é ultrapassado. E quem o treina também não sabe bem o que fazer dele: se o cola à linha, se o prende ao meio-campo ou o solta atrás do avançado centro.

Já disse que Pizzi é um paradoxo? Não fui o primeiro.

Em momentos diferentes, em 2015 e em 2020, Jorge Jesus tentou explicar Pizzi.

Primeiro, assim:

– Ele andou a jogar como ala, jogou também como segundo avançado, mas nunca tinha jogado nesta posição. Não conhecia bem os processos defensivos, mas está melhor. Quando o futebol for andebol, é sempre Pizzi e mais dez: joga a atacar e depois sai, mas o futebol não é assim.

Jesus disse isto após um jogo com o Vitória de Setúbal, em fevereiro de 2015, quando Pizzi começou a ser testado no lugar de Enzo Pérez, transferido um mês antes para o Valencia. Pizzi tinha 25 anos e acabaria campeão e a jogar a 8; com Rui Vitória e depois com Bruno Lage, o futebolista voltou a rodar entre duas posições, enquanto a idade avançou e a velocidade se perdeu.

E agora que Pizzi reencontrou Jesus:

– Ele pode fazer essas duas posições, mas é um jogador de último passe. E os jogadores de último passe não jogam nas laterais, jogam nos corredores centrais.

O dilema de sempre.

Com o Lech Poznán, Pizzi alinhou um bocadinho mais adiantado, num meio-campo a três com Gabriel e Chiquinho, outros dois futebolistas igualmente difíceis de definir, o que até pode explicar os altos e baixos deste Benfica que não tem um seis clássico e poderá estar a desperdiçar um oito a trinco.

Mas adiante, que isto é especificamente sobre Pizzi.

Bom, voltando atrás, contra os polacos, Pizzi marcou e assistiu e, tudo somado, faz dele o jogador mais influente de todos os jogadores que competem na Liga Europa.

Ok, a Liga Europa é a Champions dos pobres e o Lech é a verdadeira “equipazita” de um grupo acessível, também estamos de acordo, mas Pizzi tem cinco golos e dois passes para golo em cinco jogos disputados, um deles como suplente utilizado.

É notável, mas desconfio que não seja suficiente para nos abandonarmos em elogios ao homem. Em parte por culpa dele, que é substancialmente mais eficiente com bola do que diligente sem ela, e em grande parte por culpa nossa, que insistimos em acentuar-lhe os defeitos, ignorando as suas virtudes fundamentais: se o objetivo deste jogo é o golo, na quinta-feira, Pizzi assistiu subtilmente Darwin e também marcou de pé esquerdo depois de fintar descomplicadamente um adversário ao tocar a bola para o lado.

Ou seja, Pizzi é frio e prático, duas características subvalorizadas num desporto que vive das espetacularidades do “best off” e dos “highlights” para os quais o português não serve, salvo exceções: quem marca 30 golos numa época tem certamente os seus momentos.

O estilo não ajuda.

Discreto e com uma coordenação motora pesada, deselegante e esforçada, como quem tenta acompanhar o ritmo de uma passadeira com 7% de inclinação, Pizzi passa ao lado das impressões subjetivas que associamos aos craques da bola.

É injusto, pois dentro dele está um cérebro que pensa melhor e mais depressa do que o dos outros, que toma conscientemente as melhores decisões para ele e para a equipa e que se transformou inesperadamente num goleador cínico.

Pizzi, que já jogou para Jonas, Lima, Mitroglou, Jiménez, Seferovic, João Félix, Vinícius, Darwin (e tenho a certeza que todos beneficiaram com ele), justifica finalmente a alcunha que lhe deram em Trás-os-Montes.

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