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Crónica

Factos: este Benfica não joga o triplo. Nem sequer o dobro. Este Benfica não joga nada. É poucochinho

"Anda tudo aos papéis e ninguém sabe ao certo que papel desempenhar", escreve Bruno Vieira Amaral sobre o Benfica de Jorge Jesus, que joga como se o treinador "tivesse chegado ontem" à Luz

Bruno Vieira Amaral

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Factos: este Benfica não joga o triplo. Nem sequer o dobro. Este Benfica não joga nada. É força de expressão. Joga alguma coisa, mas é poucochinho. É quase nada. Anda tudo aos papéis e ninguém sabe ao certo que papel desempenhar. Os miúdos estão verdes, os experientes tremem como varas verdes, os bonzinhos parecem apenas razoáveis e os mauzinhos, Deus me livre, são piores que a peste.

Falta de qualidade? Como? Há internacionais argentinos, alemães, uruguaios, brasileiros, belgas e uns portugueses que de vez em quando são convocados para uns treinos na Cidade do Futebol e o resultado lembra a confusão babélica de que fala a Bíblia. Se o futebol é uma linguagem universal, estes jogadores do Benfica ainda estão a aprender os ditongos e a juntar as sílabas.

E o mais chocante nisto tudo é a incapacidade de Jesus, já não digo para pôr os jogadores a inventarem perfeitas composições, com figuras de estilo e extenso vocabulário, mas para que alinhem uns monossílabos básicos e não chumbem no exame da quarta classe. Por outras palavras, o benfiquista desesperado só quer que joguem à bola, que sejam competentes em alguma coisa. Se ainda não dá para a nota artística que ao menos se organizem de maneira a não sofrerem quinze remates do Paços de Ferreira na Luz.

O horizonte não é animador. Olhando para o trajeto de Jorge Jesus, sobretudo desde a sua passagem pelo Benfica, percebe-se que se a esta altura do campeonato ainda não tirou rendimento destes jogadores então é porque dificilmente isso acontecerá no futuro. Essa era uma das grandes virtudes do treinador: chegar a um grupo heterogéneo de jogadores e impor rapidamente as suas ideias, escolhendo os jogadores que melhor se adaptavam à estratégia e orientando os outros para não destoarem muito do conjunto. E o que é que acontece? A equipa joga como se Jesus tivesse chegado ontem. Pior, como se ainda estivesse no avião. Pior ainda, como se nenhum jogador tivesse ouvido falar de Jesus.

O problema é grave porque a única solução previsível é a troca de jogadores. Não se fala de outra coisa. Falta um “seis”, falta um “oito”, falta um central, os laterais não servem. Weigl não tem intensidade, Gabriel falha passes, Taarabt não recupera, Pizzi sem bola é menos um, Verthongen é lento, Grimaldo não defende, Otamendi especializou-se em enterranços monumentais, Gilberto não tem escola (então quem é que o contratou por três milhões de euros?), Everton ainda não se adaptou ao futebol europeu, Pedrinho e Chiquinho são diminutivos a quem emprestaram um equipamento oficial, etc. Meu Deus, falta quase um plantel inteiro quando já se gastaram cem milhões em reforços!

Tem de haver uma maneira de espremer algum sumo deste elenco porque não há Gerson, Lucas Veríssimo, Bruno Henrique ou uma reencarnação de Maradona que salve esta equipa da mediocridade em que vegeta. A resposta tem de estar ali dentro no meio daquela ONU de jogadores, no meio de artistas comprados por “20 milhões e não se fala mais nisso”, no meio de campeões e bicampeões e tricampeões e tetracampeões, no meio de homens que vieram dos campeonatos mais exigentes e no meio de jovens com fome de triunfo e glória, no meio de veteranos que podem ensinar e de miúdos que querem aprender. É ali que tem de se procurar a resposta. Para que joguem mais. Não é preciso ser o triplo. Não é preciso ser o dobro. Não é preciso arrasar. Basta um poucochinho mais.

  • O meu nome é Luca. Marco no segundo andar
    Benfica

    O Benfica entrou a perder e teve sempre muitas dificuldade frente a um Paços de Ferreira seguro na defesa e organizado e rápido no ataque. O golo da vitória apareceu nos derradeiros segundos dos descontos, um salto de Waldschmidt que valeu uma vitória por 2-1, mas não um atestado de qualidade da equipa de Jorge Jesus