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Crónica

Uma análise ao Benfica, nomeadamente em termos daquilo que é este Benfica ao nível do futebol jogado

O escritor Bruno Vieira Amaral pegou na muleta linguística que está a fazer escola ao nível daquilo que é o comentarismo desportivo, dentro do que é aquilo que se faz por cá. O tema é: Benfica, na medida do que é possível

Bruno Vieira Amaral

Jorge Jesus, treinador do Benfica, que parece pouco preocupado com o que se passa à sua volta. “É para o lado que dorme melhor”

JOSEP LAGO

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— Boa tarde, senhores telespetadores. Hoje temos connosco o antigo central do Desportivo das Fífias e DJ nas horas vagas, Américo Gonçalves, mais conhecido no mundo do futebol como Méquinho e no mundo das lutas de cães como o Ruço…

— Peço desculpa, mas ao nível daquilo que é as lutas de cães, nomeadamente as lutas de cães aos domingos naquilo que são, ou eram, certos bairros degradados da chamada periferia de Lisboa eu sou conhecido por Lontra visto que antes de mim existia outro Ruço, portanto, em termos daquilo que é a antiguidade ele ficou com a referida alcunha tendo-me sido atribuída outra alcunha que estava disponível e que se adequava ao nível daquilo que era o meu peso na altura.

— Fica o esclarecimento, Américo, Méquinho, Ruço, Lontra. Quanto ao jogo, o Benfica enfrentou dificuldades inesperadas. Concorda?

— Concordo. O Benfica entrou muito bem em jogo em termos daquilo que é a capacidade de organização e os passes lateralizados, os centrais demonstraram uma grande categoria ao nível de evitar paragens cerebrais e o Jardel, o Cebolinha e o Pedrinho mostraram que isto já não é como antigamente em que três brasileiros faziam uma escola de samba, agora em termos daquilo que é um conjunto de três brasileiros numa equipa o mais provável é que estejam tão perdidos como os outros e nem sequer tenham vontade de fazer qualquer coisa em termos de churrasco.

— Mas o Benfica teve o jogo controlado?

— Sim, mormente ao intervalo. Dava para ver que o Gil Vicente dificilmente marcaria algum golo enquanto as equipas estavam recolhidas naquilo que é fundamentalmente o balneário. Mas, atenção, que a expulsão do jogador do Gil Vicente foi um mau prenúncio.

— Para a equipa de Barcelos?

— Não, para aquilo que é o Benfica, nomeadamente em termos daquilo que é este Benfica ao nível do futebol jogado. É que eu vejo esta equipa e penso nas equipas do Rinus Michels, e do Cruijff, da Laranja Mecânica. Esta é a Laranja Espremida, espremes tudo, saem duas gotinhas e aquilo sabe a Tang. Portanto, ao nível. Aquilo que eu queria dizer é que o mister Jorge Jesus…

— Jorge Jesus que chegou a orientá-lo, se não estou em erro, no Olímpico da Desfeiteada.

— Por acaso não. Quando eu cheguei, ele já tinha ido embora, mas uma vez cruzámo-nos na tribuna presidencial e nunca mais me esqueço das palavras dele: “quem é este gordo, cara#&*?” Isto mudou completamente o meu entendimento do futebol ao nível do treino e daquilo que são e devem ser as competências de um treinador. Há uns que falam, falam, falam, tentam explicar-te as coisas e não há maneira de se fazerem entender. O mister tem aquele dom, é uma linguagem universal que qualquer jogador entende.

— Ia dizer…

— Ia dizer que o mister preparou a equipa para um embate contra onze adversários extremamente valorosos e quando a equipa adversária subitamente se vê beneficiada em termos de jogar com um a menos isto desorientou a equipa do Benfica ao nível daquilo que é a organização defensiva e mental do conjunto encarnado que ontem, por acaso, estava de preto o que até condizia com aquilo que é o estado de espírito dos adeptos. É que de repente faltava

ali um gajo na outra equipa e os jogadores do Benfica ficaram naquela “será que isto é justo? Não é melhor irmos à procura do rapaz?” E nesse entretanto o Gil Vicente dispõe daquilo que são três ou quatro oportunidades, digamos, soberanas para inaugurar o marcador. Não marca e onde é que eu censuro o treinador do Gil Vicente? É que não arranja maneira de expulsar outro jogador da sua equipa. Se o Benfica já estava à rasca contra dez, contra nove tinha voltado a Lisboa de saco cheio.

— Nesse período, o Vlachodimos foi fundamental. O que achou da exibição do guarda-redes do Benfica?

— O guarda-redes está lá para isso, ou seja, para aquilo que é defender, se bem que na minha ótica, em termos daquilo que deve ser um guarda-redes, ainda estou à espera do Mattia Perin. O Vlachodimos não fez mais do que a obrigação dele, daquilo a que o contrato prevê, que é fazer quinze defesas por jogo contra equipas que lutam pela manutenção. Se não, para que é que serve um guarda-redes? Para ficar ali sentado a ler a Fenomenologia do Ser, do mister Pedroto? Para ir lá à frente marcar golos? Para isso estão lá os avançados como o Seferovic e o Darwin.

— Que ontem não marcaram.

— É verdade que ontem não marcaram, mas em termos daquilo que é o empenho, a entrega e a generosidade, não lhes podemos apontar “isto”. A generosidade é um valor muito importante em termos daquilo que é uma sociedade egoísta. O Darwin já se viu que ele quer é passar a bola aos outros mesmo que apareça isolado à frente do guarda-redes. Isto é empatia. Dizem que a literatura aumenta a empatia e o rapaz deve andar a ler muitos romances e tem os níveis de empatia tão elevados que não sei se um dia não é apanhado nas malhas do doping emocional. É um miúdo que se vê desde o primeiro dia que não está ali para fazer mal a ninguém, seja ao nível daquilo que é os companheiros ou em termos daquilo que são os adversários.

— Américo, uma última questão: qual é o seu prognóstico para o jogo da Supertaça entre Futebol Clube do Porto e o Sport Lisboa e Benfica?

— Em termos daquilo que é o resultado não posso arriscar uma previsão, mas se eu mandasse naquilo que é a estrutura do Benfica o que fazia era reforçar a segurança ao nível daquilo que são os vidros do autocarro.