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Crónica

A 25 de dezembro de 1914, a I Guerra terá parado para um jogo de futebol. Chamaram-lhe Trégua de Natal (e Duarte Gomes vê nela a esperança)

Diz-se que combatentes espalhados na linha ocidental jogaram "amigáveis" com quem estava na barricada oposta. Amigáveis disputados em terras de ninguém, que é como quem diz em terreno neutro. Entre as trincheiras de uns e as trincheiras de outros

Duarte Gomes

DEA / M. SEEMULLER

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Há relatos que no dia 25 de Dezembro de 1914 (há precisamente 106 anos) disputaram-se várias partidas de futebol entre linhas inimigas, naquela que foi a primeira grande pausa num dos confrontos mais sangrentos e brutais que o homem travou à escala global.

Estávamos em plena 1a Guerra Mundial.

Apesar de nesse dia haver registo da morte de centenas de soldados ingleses (nas trincheiras de França e Flandres), a verdade é que o futebol funcionou ali como uma espécie de botão de pausa. Mensageiro da paz.

A história refere-se a esse momento raro e único como "A trégua de Natal".

Diz-se que combatentes espalhados na linha ocidental jogaram "amigáveis" com quem estava na barricada oposta. Amigáveis disputados em terras de ninguém, que é como quem diz em terreno neutro. Entre as trincheiras de uns e as trincheiras de outros.

Importa ter em conta que, naquela altura, quase todos os adultos saudáveis (e não só) eram requisitados pelos seus países para estarem na primeira linha de combate. Muitos deles eram, à altura, jogadores de futebol.

Herbert Smart (então ponta de lança do Aston Villa, ao serviço do exército britânico) contou que tinha ido a pé até ao outro lado para trocar cigarros por charutos com um soldado alemão. Ficou a saber que ele falava bem inglês porque antes da guerra começar trabalhava como empregado de mesa num restaurante de Londres. E ficou também a saber que ele e a maioria dos companheiros não queriam estar ali, a combater. Tinham medo de morrer. Queriam que tudo terminasse depressa, para regressarem às suas vidas, para junto das suas famílias. Contou que o aperto de mão, em jeito de despedida, foi emotivo. Ambos sabiam que nunca mais se veriam e que, algumas horas depois, estariam de volta ao campo de batalha para se confrontarem como inimigos. Inimigos que, horas antes, conversavam como amigos.

Este pedacinho de história é elucidativo do poder curativo que o desporto tem.

Foi assim, com as tréguas decretadas por força dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, com Jesse Owens (que desafiou a ideologia nazi ao vencer em Berlim), com a mensagem passada por Mandela através da brilhante seleção de râguebi sul-africana e com centenas de outros exemplos vindos de vários momentos da história. De todo o lado.

É importante que nunca nos esqueçamos destes exemplos. Eles fazem-nos acreditar que nada é impossível porque a humanidade, toda a humanidade, fala a mesma língua e responde aos mesmos impulsos, sentimentos e apelos. O desporto é um dos que mais contribuiu para agrega-los.

Torná-lo em campos de batalha é trair a memória e honra de todos aqueles que, em 1914, perceberam que era exatamente o oposto. Se não aprendemos com o presente, aprendamos com o passado.

Desejo-vos um Natal muito feliz, recheado de momentos especiais e junto de quem é mais importante.

Boas Festas.