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Não há coisa mais linda quando o esquecido, o sacrificado guarda-redes, é trazido das margens do jogo para o centro solar da festa

Bruno Vieira Amaral refere-se à defesa providencial de Adán no jogo entre o Sporting e o Belenenses SAD que resultou no triunfo leonino. Mas esta crónica também é sobre a sua adolescência, uma quase defesa e sobre o Sandro, que faleceu há duas semanas

Bruno Vieira Amaral

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Pobre Miguel Cardoso. O jogador da Belenenses SAD fez uma boa exibição, marcou um golo, mas falhou um penálti. Poucos minutos depois, o Sporting beneficiou de uma grande penalidade e João Mário não a desperdiçou. Maior terá sido o sofrimento do jogador azul. Uma noite em branco, quase de certeza. Refazer o remate na cabeça até acertar. Bola nas redes. E, a cada tentativa, o pesadelo redivivo. Os braços tentaculares de Adán a segurarem a bola. Que noite de insónia.

Venha de lá o consolo. Não foi o avançado que falhou, o guarda-redes é que defendeu. Pois, pois. Vão lá dizer isso ao avançado para ver se ele adormece mais depressa. E eu, por afinidade e temperamento, até sou pelos guarda-redes, tão poucas vezes heróis e tantas vezes os vilões prediletos da frustração coletiva, os bodes expiatórios das falhas da equipa. Então é deixar que os levem em ombros quando à força de ombros, braços e mãos aguentam o edifício precário da vitória.

Não há coisa mais linda, garanto-vos, quando o esquecido, o sacrificado, o periférico guarda-redes é trazido das margens do jogo para o centro solar da festa e reconhecido pelos companheiros e recebe os louvores habitualmente destinados aos craques, aos artífices do golo, aos geniozinhos em ponta de chuteira. A glória não tem de vir em jogos a sério, com equipamentos a rigor e transmissão televisiva. Perguntem a qualquer miúdo, qualquer um, se não teve uma manhã ou uma tarde de glória no recreio da escola primária ou no campo de futebol de cinco à porta de casa, num baldio por detrás dos prédios ou num quadrado de relva com árvores a fazerem de postes, e ele responder-vos-á e não terá de fazer grande esforço de memória para recuperar do passado esses momentos intactos em que foi rei.

Eu lembro-me daquele intervalo de duas horas no 8.º ano, em que da minha turma se fez uma equipa de escassíssimas qualidades destinada a um rápido e indolor sacrifício num roda-bota-fora e que foi vencendo adversários atrás de adversários com golos rupestres, fezadas e carambolas porque lá atrás estava um guarda-redes que defendia tudo o que havia para defender, voava no alcatrão, saía a soco aos cruzamentos e atirava-se caninamente às pernas dos jogadores isolados, e quando até o guardião falhava valia-nos São Poste, Santa Barra ou alguma aselhice dos rivais a atirarem bolas fáceis para Santa Rita dos Assobios.

Quando finalmente perdemos, já tinha dado o segundo toque. Ninguém queria saber. Pegámos nas mochilas e corremos para a sala e nesse dia só se falou dos milagres que eu operara naquela baliza sem redes e essas foram as minhas horas de glória que, insignificantes para o resto do mundo, me hão de acompanhar até ao fim dos meus dias porque, a bem dizer, as horas de glória de cada ser humano raramente dizem alguma coisa ao resto do mundo e nem por isso são menos gloriosas para aquele que as vive e sente.

E as horas de vergonha? Não continuam elas connosco séculos depois de todos as terem esquecido? Desta vez, o jogo era a sério, num desses torneios municipais para comemorar o aniversário da freguesia. Eu na baliza, outra vez. Depois de uma vitória no primeiro jogo, enfrentávamos o rival mais forte. Para lhes ganharmos naquela tarde de um domingo chuvoso tínhamos de ser perfeitos. E assim começámos. O nosso melhor jogador, o Fanhã, pegou na bola ainda na defesa e, sozinho, do nada, inventou um golo. Agora só tínhamos de aguentar. Só que faltava tanto.

Ainda vejo o remate, a bola chutada de longe (terá sido o Álvaro? O João Nuno?), a vir sem muita força na direção da baliza, a fugir para o meu lado direito, o meu melhor lado, eu a esticar-me, a bola a fugir um pouco mais, eu a tocar-lhe ao de leve, os rostos dos meus companheiros num esgar de pavor e a bola a entrar, fatal. Um frango fatal. Franguíssimo frango. Só na primeira parte ainda levámos mais três. Nenhum deles foi frango, mas o mal já estava feito, era como se a culpa de todos os golos sofridos fosse minha, do guarda-redes. Ao intervalo, a equipa virou-me as costas. “Se não fosse aquele frango”, disse o Fanhã. “Frangueiro!”, gritou o Sandro, guarda-redes suplente e que, na segunda parte, entrou para o meu lugar. Levou mais três para contar, mas até podia ser sofrido quinze ou vinte golos que nada podia apagar a vergonha do primeiro golo sofrido. A bola que eu tinha deixado entrar.

Já passaram quase trinta anos desde essa tarde fatídica. A tarde da minha vergonha. O Fanhã morreu nove anos depois, assassinado à falsa-fé a cem metros da minha casa. O Sandro, com quem não falava desde a adolescência, morreu há duas semanas. Acho que nunca falei com eles sobre o que aconteceu naquela tarde. Talvez nem se lembrassem. Valeria de alguma coisa dizer-lhes que, antes de a bola entrar, ainda lhe toquei com a ponta dos dedos e que, naquela fração de segundo, senti que a tinha defendido.